A imagem de satélite, a crise humanitária e a matança. O que se passa no Sudão?
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O conflito no Sudão, iniciado há dois anos, continua a espiralizar de forma catastrófica, com milhares de mortos e milhões de deslocados.
No final de outubro de 2025, a Força de Apoio Rápido (RSF) capturou a cidade de El Fasher, última posição militar significativa na região ocidental de Darfur, após mais de um ano de cerco. Logo depois, surgiram relatos de massacres étnicos, execuções em hospitais e violência sexual dirigida a grupos específicos, com a Organização Mundial de Saúde a registar 460 mortos num único incidente.
Imagens de satélite verificadas por centros académicos indicam padrões compatíveis com enterros em massa, enquanto organizações humanitárias alertam para o colapso dos serviços essenciais e o aumento dramático de deslocados internos, muitos a viver em condições extremamente precárias em campos como Tawila, Daba Al Naira e Um Jangour.
Em resposta à escalada da violência, a RSF anunciou a 6 de novembro que aceitaria uma trégua humanitária proposta pelo “Quad” — Estados Unidos, Egito, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita — com o objetivo de abrir corredores humanitários e preparar o terreno para uma transição política que inclua um cessar-fogo permanente e eventual governo civil. Contudo, o exército sudanês (SAF) manteve reservas quanto à trégua, atendendo a experiências passadas em que a RSF violou acordos para conquistar novas áreas estratégicas.
E a cautela confirmou-se ter sido prudente, hoje, no dia seguinte ao anúncio da trégua, segundo a BBC, explosões provocadas por drones foram ouvidas em Cartum e na cidade de Atbara, evidenciando que a RSF não respeita os cessar-fogos e aumentando a desconfiança do governo.
Mas, afinal, o que se passa no Sudão e quem tem influência?
O conflito é frequentemente descrito como uma guerra interna entre dois generais — Mohamed Hamdan Dagalo (Hemedti), chefe das Forças de Apoio Rápido (RSF), e Abdel Fattah al-Burhan, líder das Forças Armadas Sudanesas (SAF). No entanto, há uma forte interferência de potências estrangeiras, que torna a guerra mais complexa e sangrenta.
O Sudão tem importância estratégica por ser uma ponte entre o Médio Oriente e África, controlar 800 km de costa no Mar Vermelho, possuir ouro, terras agrícolas férteis e desempenhar um papel essencial na gestão das águas do Nilo Azul.
Após o massacre em El Fasher (Darfur), a RSF aceitou uma trégua humanitária proposta pelos EUA, Emirados Árabes Unidos (EAU), Egito e Arábia Saudita, países que, paradoxalmente, também têm sido acusados de alimentar o conflito com apoio militar, financeiro ou diplomático.
Emirados Árabes Unidos
Os EAU são o ator estrangeiro mais vezes acusado de fornecer armas à RSF e de financiar as operações de Hemedti através da compra de ouro extraído de zonas controladas pelos seus combatentes. Empresas ligadas à família de Hemedti, sediadas no Dubai, foram sancionadas pelos EUA por tráfico de armas e ouro.
Os EAU negam todas as acusações, alegando apoiar apenas uma solução pacífica e o cessar-fogo, embora um relatório da ONU (com partes não publicadas) tenha encontrado provas credíveis de envio de armamento. Segundo analistas, referiram à CNN, envolvimento dos EAU é motivado por interesses económicos (ouro e agricultura) e oposição a qualquer transição democrática no mundo árabe.
Egito
O Egito apoia o general al-Burhan e as SAF ao realizar exercícios militares conjuntos e presta apoio diplomático. O presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi, no poder fruto de um golpe militar, teme que um Sudão democrático incentive movimentos semelhantes no Egito.
O Cairo também está preocupado com a segurança no Nilo, pois depende em 90% das suas águas. Manter o Sudão sob influência egípcia é estratégico na disputa com a Etiópia pelo controlo da Barragem do Renascimento.
Contudo, o apoio egípcio é limitado pela dependência económica dos EAU, grandes financiadores do regime de Sisi, e pela crise provocada pela chegada de refugiados sudaneses.
Arábia Saudita
A Arábia Saudita mantém uma postura de neutralidade oficial, apelando a uma solução sudanesa para o conflito e participando em negociações com os EUA. Contudo, favorece discretamente al-Burhan, oferecendo apoio diplomático.
O seu principal interesse é garantir estabilidade no Mar Vermelho, essencial para os planos económicos do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, e evitar que rivais regionais ganhem influência no Sudão.
Rússia
Mesmo com a invasão da Ucrânia, a Rússia tem usado o Sudão para expandir a sua influência em África. O grupo Wagner apoiou a RSF com mísseis e treino militar, em troca de concessões nas minas de ouro.
Após a morte de Yevgeny Prigozhin e a tentativa de absorção do Wagner pelo Kremlin, Moscovo passou também a negociar com al-Burhan, tentando obter acesso a uma base naval no Porto do Sudão, no Mar Vermelho.
Como parar a matança?
A situação humanitária é crítica, desde abril de 2023, mais de 150 mil pessoas foram mortas, 12 milhões deslocadas e 21 milhões enfrentam insegurança alimentar aguda, segundo a ONU.
Organizações humanitárias relatam que milhares vivem sem água potável, comida, abrigo ou cuidados médicos adequados, com feridos, pessoas com deficiência e crianças desacompanhadas dormindo ao relento ou em abrigos improvisados.
Observadores internacionais alertam para sinais de genocídio e crimes contra a humanidade, comparando a violência atual com os massacres de Darfur há 20 anos e o genocídio de Ruanda em 1994. Imagens de satélite e relatos verificados de jornalistas locais continuam a documentar execuções em massa e ataques sistemáticos contra bairros civis.
Para restaurar alguma estabilidade, especialistas e organizações internacionais defendem, ao site The Conversation, a implementação imediata de um cessar-fogo monitorizado, a abertura de corredores humanitários, o fim do apoio militar externo, a ampliação de sanções sobre financiadores de armas e o comércio de ouro, bem como a criação de mecanismos de justiça e reconciliação.
Desinformação desacredita a tragédia
Têm circulado nas redes sociais imagens de satélite alegadamente a mostrar massacres em Kumia, uma cidade a sul de El-Fasher. Um post no X chegou a ser visto mais de 15 milhões de vezes, com a afirmação de uma mancha escura visível na imagem correspondia a cadáveres.
No entanto, especialistas em análise de imagens de satélite confirmaram que a fotografia é antiga, datando de 16 de março de 2024, e que a mancha não representa vítimas humanas, mas sim um poço de água rodeado por gado. Imagens de 2022 mostram a mesma mancha no mesmo local, reforçando que não se trata de um evento recente.
Apesar desta imagem viral ser falsa, outras imagens de satélite confirmam atrocidades reais cometidas pelas RSF em El-Fasher, incluindo evidências de assassinatos em massa no bairro Daraja Oula, documentadas pelo Humanitarian Research Lab da Universidade de Yale. Especialistas sublinham ao France 24 que as imagens de satélite são úteis, mas só podem ser interpretadas corretamente quando cruzadas com informação de jornalistas locais, testemunhos e outras provas no terreno.
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