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A estrada que leva a Mouriscas, em Abrantes, parece feita para abrandar o tempo. O horizonte abre-se em tons de verde seco e o cheiro a terra quente chega antes de se verem as oliveiras. Aqui, onde o Ribatejo ainda respira devagar, o 24notícias foi conhecer o projeto Apadrinha uma Oliveira, uma ideia simples que quer devolver vida ao que o tempo deixou de cuidar, e trabalho a quem o perdeu.

Há cerca de dois mil hectares de olival abandonado nesta região - o equivalente a 2.800 campos de futebol. Mas, em vez de desistir da terra, um grupo decidiu voltar a escutá-la. Diogo Ferreira, membro da associação, aparece com a calma da paisagem e explica a lógica do projeto que nasceu em Mouriscas, em 2023, e já chegou a Alvega, São Facundo e Sardoal, também no concelho de Abrantes.

A escolha da freguesia inicial não foi acaso: é ali que vive a Oliveira do Mouchão, com mais de três mil anos, uma das mais antigas da Península Ibérica e a que José Luís Peixoto chamou de "monumento". Ao seu lado, numa pedra, estão imortalizadas as palavras do escritor: “Quando vamos conhecê-la, a verdadeira honra é darmo-nos a conhecer a ela, fazermos parte da sua imensa memória.”

Reabilitação é a palavra chave nesta terra, não só a da natureza como também a de quem ali vive. O encerramento da Central Termoelétrica do Pego, em 2021, deixou várias pessoas sem trabalho. Quatro delas encontraram nova vida no campo e integram atualmente a equipa da Apadrinha uma Oliveira, que já conta com seis trabalhadores. O plano é chegar a 17 contratos permanentes e dez temporários até 2030, muitos dos quais destinados a antigos funcionários da central.

Emprego encontrado numa ideia que nasceu em Espanha e atravessou fronteiras. “Temos um tio longínquo em Espanha, e lá começaram há doze anos, em Oliete. Adaptámos a ideia e fizemos à nossa maneira”, conta Diogo. O projeto espanhol, sem grandes diferenças, chama-se Apadrina un Olivo, sediado em Oliete, Aragão.

O princípio é o mesmo: os terrenos são cedidos à associação por contratos de dez anos. Em troca, a equipa compromete-se a recuperar o olival e a devolver 10% do azeite produzido. Para além disso, qualquer pessoa pode “adotar” uma oliveira através de uma contribuição anual entre 35€ e 60€, escolher-lhe um nome e visitá-la quando quiser. Em agradecimento, recebe um a dois litros de azeite virgem extra por ano. "Somos cerca de 170 padrinhos, e temos padrinhos na Alemanha, temos padrinhos na Bélgica, temos padrinhos em França, temos padrinhos em Portugal.", diz Diogo. 

Uma viagem no tempo

No campo, o 24notícias faz uma viagem no tempo quando a apanha da azeitona ganha um tom de reconstituição histórica. Trajados a rigor como antigamente, Raul, Olívia, Alda e Leandro, membros do rancho "Os esparteiros", estendem os panos de serapilheira no chão, os homens usam o varejão para fazer a azeitona cair e as mulheres apanham a fruta do chão colocando-a na cesta. Enquanto fazem isto, cantam cantigas tradicionais. Assim era, não há muitos anos num mundo rural pouco mecanizado.

Chegou depois o momento de “padilhar”: Raul, com uma pá, recolhe as azeitonas e, após verificar a direção do vento com um fósforo aceso, lança-as para outro pano, onde as folhas se soltam com a ajuda da brisa. O processo tem tanto de beleza, quanto é braçal e duro.

Além das lonas de serapilheira, do pau de varejar são vários os símbolos que deixaram de fazer parte da apanha moderna da azeitona e da produção de azeite. Os capachos (discos planos e delgados feitos de uma mistura de sisal e nilon hoje são raros), juntam-se a esse rol, mas a Sifameca, Sociedade Industrial de Fabricação de Seiras e Capachos, mantém a tradição e ainda os produz. Fundada em 1966,  já teve 70 colaboradores contando hoje apenas com três, entre eles Evaristo, que tomou conta da empresa e da cooperativa de azeite após a reforma.

A azeitona e os capachos são essenciais na cooperativa local, onde o processo de produção do azeite ainda é feito à moda antiga: a azeitona é primeiro limpa e depois moída. Entre os capachos é colocada a pasta de azeitona, que é então prensada e espremida até sair o azeite. O líquido passa por um processo de mistura com água até se separar o azeite puro. O que sobra é o bagaço, usado depois em refinarias para óleo ou em padarias para alimentar os fornos.

A diferença com a produção moderna de azeite é a industrialização do processo, usando prensas ou centrifugação e controlando mais precisamente a temperatura.

A jusante, é na qualidade das azeitonas, nos processos a que são sujeitas e no sabor e grau de acidez que se diferencia o azeite. Existem três categorias: o azeite virgem extra , associado ao azeite de maior qualidade, obtém-se diretamente através de processos mecânicos ou processos físicos que não degradem a azeitona, como por exemplo, a colheita ou armazenamento incorreto. O azeite virgem que exige igualmente um processo mecanizado para não degradar a qualidade do produto e pode consumir-se cru. E, por último, o azeite, o mais barato, que sofre um processo de refinação química e calor, ao contrário dos outros, que remove as impurezas, mas também elimina vitaminas, antioxidantes e o sabor natural.

Com a Sifameca como pano de fundo, o 24notícias fez uma prova de azeite ajudou a diferenciar o azeite português da Apadrinha uma Oliveira, feito com azeitona galega, mais espesso e aromatizado e o espanhol, da Apadrina un Olivo, com azeitona picual, mais picante e líquido.

A prevenção nos incêndios e a falta de mão de obra

Já fora de Mouriscas, Diogo mostra o terreno recuperado: uma mancha verde que, no último verão, travou o avanço de um incêndio. “Um dos fogos começou aqui, mas estagnou no nosso terreno, porque estava limpo”, explica.

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Em plena campanha da azeitona, a equipa, com apenas cinco elementos, trabalha com mochilas e ferramentas elétricas em contraste com o varejão e a serapilheira no chão. A falta de mão de obra é um problema constante e neste momento há três funcionários estrangeiros. “Não queremos mão de obra barata, queremos pessoas qualificadas, com vontade de trabalhar.”

Em três anos, o projeto já recuperou quase cinco mil oliveiras, a meio caminho da meta das dez mil. “Estamos num bom caminho”, afirma Diogo.

O impacto do olival? Depende de quem cuida 

O projeto ribatejano defende práticas ecológicas: poda de ramos secos, fertilização natural, irrigação controlada e tratamento biológico de pragas. Os especialistas esclarecem que o essencial está na gestão.

Para Nuno Gaspar de Oliveira, diretor-geral da Natural Business Intelligence (NBI), o problema “não está no tipo de olival, mas na forma como é gerido”. “Tanto pode haver olival tradicional mal feito como olival industrial bem feito. O segredo é o equilíbrio agroecológico.”, diz.

Um olival tradicional pode degradar o solo com herbicidas, enquanto um moderno pode preservar a biodiversidade se usar rega inteligente. “É um problema encontrar o equilíbrio da sustentabilidade”, diz, alertando para a “tentação do Excel” dos produtores e a obsessão com números que ignora o território e o solo.

O modelo ideal, defende, é o da agricultura em mosaico, que combine manchas de olival com zonas florestais e pastagens: “Se tivermos um mosaico, vamos ter boa produção, rendimentos e ganhos para ambos os lados.”

Susana Sassetti, da Olivum – Associação de Olivicultores, reconhece a falta de dados sobre o setor: “Não há obrigatoriedade de declarar os olivais ou as produções. Há muito azeite feito pelos próprios agricultores, às vezes, por pessoas que têm dois hectares e produzem para si.”

Ainda assim, nota que os olivais modernos são hoje os mais monitorizados e controlados, contrariando a ideia de que são necessariamente mais nocivos.

A barragem do Alqueva foi determinante para a modernização do setor. Uma vaga de investimento espanhol chegou após a sua construção, atraída pela disponibilidade de água no Alentejo.

Um país de azeite

Portugal tem 380 mil hectares de olival, 55% no Alentejo. O INE contabiliza 455 lagares e revela que 96,4% da azeitona serve para azeite.

O olival tradicional representa 37,2% da área total, com árvores espaçadas e de sequeiro, demorando até dez anos a produzir. O olival moderno em copa ocupa 33,2% do território agrícola, com 200 a 600 árvores por hectare e colheita mecanizada. Já o olival moderno em sebe, 29,6%, é o mais recente e eficiente, quase sempre de regadio.

Em duas décadas, a área de olival moderno em Portugal subiu de 2% para 63%, segundo a Olivum, um sinal de modernização e rentabilidade.

Mas, como recorda Nuno Gaspar de Oliveira, o desafio permanece: “Qualquer forma de agricultura é uma intervenção humana no ecossistema. O truque - que não é truque nenhum - é a boa gestão: compreender os impactos, causar o menor dano possível e devolver benefícios ao território.”

Entre números e natureza, o futuro do azeite português parece depender de uma equação simples, mas exigente: gestão consciente, equilíbrio e responsabilidade.

*Editado por Ana Maria Pimentel

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