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O caso mais emblemático aconteceu em Sintra, onde a coligação PSD/IL/PAN, que venceu as eleições, decidiu firmar um acordo com o Chega para a governação municipal. A decisão levou à reação imediata do Partido Socialista e abriu uma crise interna na Iniciativa Liberal.
A socialista Ana Mendes Godinho, que perdeu a Câmara por 3.560 votos, já criticou a opção: “O PSD, a Iniciativa Liberal e o PAN, naturalmente, optaram por fazer um acordo com o Chega para o executivo. O PS estava completamente disponível para falar e para negociar, mas eles optaram pelo Chega”.
A ex-ministra afirmou ainda que os socialistas tinham “como condição que o diálogo fosse só com o PS”, mas que a coligação “optou por fazer o acordo com o Chega”, o que considerou “uma desilusão para todos nós”.
O PS tinha confirmado à SIC Notícias que não está disponível para governar em conjunto com o partido de André Ventura, e sublinhou na altura que Marco Almeida teria "de escolher se quer trabalhar com o PS ou com o Chega".
A coligação acabou por seguir com o Chega — e a decisão teve consequências também dentro da Iniciativa Liberal. A líder do partido, Mariana Leitão, anunciou ter retirado a confiança política à vereadora Eunice Baeta, eleita pela IL em Sintra, por esta ter decidido integrar o executivo “nessas condições, violando a decisão tomada pela Comissão Executiva da IL”.
Na nota em que formalizou a rutura, Leitão declarou: “A Iniciativa Liberal sempre disse que nunca integraria qualquer governo com o Chega e reafirmo aqui essa posição intransponível. A Iniciativa Liberal não partilha nem tolera o populismo, o autoritarismo ou o ódio que o Chega amplifica e representa. Não há compromisso possível entre quem defende a liberdade individual, a responsabilidade e o Estado de Direito com quem vive da divisão, da demagogia e do ataque às instituições democráticas. A Iniciativa Liberal não abdica dos seus princípios por cargo nenhum, nem viabiliza nem branqueia o projeto político do partido Chega”.
Eunice Baeta, além de perder a confiança política, foi convidada a renunciar ao cargo de vogal da Comissão Executiva nacional, “por não estarem reunidas as condições de confiança política para o continuar a exercer”.
Enquanto Sintra expõe o alinhamento do PSD com o Chega e a cisão na IL, em Viseu a situação inverte-se: um eleito do PSD decidiu apoiar o PS no executivo municipal, provocando indignação entre os sociais-democratas. O vereador Pedro Ribeiro foi alvo de uma decisão disciplinar após “se afastar do projeto social-democrata que o elegeu e passar a apoiar o PS”.
Em comunicado, o PSD de Viseu afirmou que “quem é eleito por um partido e, posteriormente, o abandona para servir outro projeto político, falha com a ética democrática e com a confiança dos que o elegeram”, classificando o gesto como “uma rutura grave do compromisso assumido com o PSD e com os viseenses”.
A concelhia local criticou também o novo presidente da Câmara, o socialista João Azevedo, pela “incoerência política” de integrar no executivo “um vereador cuja atuação criticou duramente no mandato anterior”.
Mais a norte, no Porto, o novo presidente da Câmara, Pedro Duarte (coligação PSD/CDS-PP/IL), optou por um gesto contrário ao de Sintra: convidou Jorge Sobrado, eleito pelo PS, para assumir o pelouro da Cultura. Sobrado passará a vereador independente.
Pedro Duarte justificou a escolha referindo que sempre reconheceu Sobrado “como um dos nomes mais indicados para liderar esta pasta”, acrescentando que a decisão “representa a valorização da competência, da experiência e do serviço à cidade acima de qualquer pertença partidária”.
A opção política do autarca da Invicta já foi criticada pelo antigo candidato ao Porto, e agora vereador da oposição, Manuel Pizarro (PS), que diz que esta é uma “posição errada” tomada pelo seu número quatro, Jorge Sobrado, que, sendo eleito, decidiu tornar-se independente e aceitar o pelouro da cultura dado pelo presidente.
“Eu entendo que o sinal que os portuenses deram com o seu voto foi escolherem quem governava a câmara e foi escolherem quem deve fazer oposição. Desse ponto de vista, eu considero que a posição que Jorge Sobrado tomou é uma posição errada, que interpreta de forma errada o sinal que os eleitores do Porto deram”, declarou à Lusa Manuel Pizarro, que liderou a lista do PS à Câmara do Porto.
Com Sintra a aproximar-se do Chega, Viseu a ver o PSD colaborar com o PS, e o Porto a integrar um socialista num executivo de centro-direita, o mapa autárquico português torna-se um retrato da flexibilidade — e da fragmentação — que marca a política nacional, com alianças em todos os sentidos.
As fronteiras partidárias esbatem-se, as direções nacionais reagem com desconforto, e o poder local confirma-se, uma vez mais, como o terreno onde a disciplina partidária acaba por ceder às necessidades de cada autarquia.
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