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O ambiente de tensão que percorria o país desde o verão de 1975 intensificou-se consideravelmente nos primeiros dias de novembro.

Alimentado pelo anúncio quase constante de alegados golpes de Estado e conspirações em curso. A 3 de novembro, O Século e o Diário de Notícias divulgaram um comunicado da Comissão de Vigilância Revolucionária das Forças Armadas, alertando para a iminência de “manobras militares contrarrevolucionárias”. No dia seguinte, o Jornal Novo e A Luta publicaram um comunicado da Frente Militar Unida (FMU), acusando o PCP de pretender destruir “a solução de esquerda proposta ao país pelo Grupo dos Nove”.

É neste contexto que se torna ainda mais evidente o impacto do confronto televisivo entre Mário Soares e Álvaro Cunhal. Em 1975, realizou-se o debate que ficaria para a história da política portuguesa como o “pai de todos os debates”, atualmente disponível na RTP Arquivos.

Frente a frente, antigo professor e aluno, os dois líderes participaram no programa da RTP, "Responder ao País". A emissão, a preto e branco, começou sob a moderação de Joaquim Letria e José Carlos Megre, num estúdio marcado pelas nuvens de fumo dos cigarros. Segundo revela o Observador, estimativas do Jornal de Notícias, apontavam para três milhões de portugueses a seguir o debate pela televisão e rádio, enquanto o jornal A Luta relatava que as ruas “despovoaram-se completamente” e apenas duas das então vinte salas de cinema de Lisboa mantinham uma “assistência normal”.

O debate dividia-se em duas partes: na primeira, os moderadores colocavam questões a cada interveniente, que respondia segundo a posição do seu partido, na segunda, os líderes podiam questionar-se mutuamente. Joaquim Letria advertia que não existia limite de tempo, embora a duração prevista não pudesse ultrapassar duas horas. No entanto, o programa prolongou-se e tornou-se o debate mais longo de sempre, com três horas, quarenta minutos e cinquenta e dois segundos.

Entre os temas abordados estiveram em cima da mesa as democracias ocidentais versus democracias populares, revolução versus contrarrevolução, liberdade de imprensa e intolerância política. A meio do debate, Álvaro Cunhal proferiu a célebre frase “Olhe que não! Olhe que não!”, em resposta a Mário Soares, que o acusara de pretender instaurar uma ditadura comunista.  Joaquim Letria, revelou à revista Sábado, que ambos os convidados só aceitaram participar porque lhes foi garantido que o outro já tinha confirmado presença, mas na realidade tratava-se apenas de uma manobra para convencer ambos.

Um outro debate, em 1982, juntou novamente os dois políticos, embora ambos estivessem afastados da liderança governamental, numa altura em que vigorava o governo da Aliança Democrática (AD), liderado por Francisco Pinto Balsemão. Como revela o Observador, nesta segunda edição não se discutia apenas o conteúdo do debate: debatia-se também o tempo de emissão e o que aconteceria nos intervalos. Álvaro Cunhal impôs que não houvesse “fantochada”, proibindo fotografias na maquilhagem ou declarações aos jornalistas no final.

Mais de cinquenta anos depois, os debates políticos continuam a ser moldados pelos temas da instabilidade, nacional e internacional. A guerra na Ucrânia, o crescimento de movimentos populistas e a polarização do discurso público contextualizam os debates que fizeram parte desta primeira volta das presidenciais 2026.

Esta noite, os candidatos à segunda volta encontram-se num debate que será transmitido em simultâneo pela RTP, SIC e TVI, com início marcado para as 20h30 e duração prevista de uma hora e 15 minutos.

No primeiro encontro, a 18 de novembro de 2025, o momento mais citado foi a frase repetida por Seguro: “Dá licença, André Ventura?”, dita “com a calma de uma professora do primeiro ciclo”, como é mencionado na newsletter do dia seguinte do 24notícias, o que, segundo diz a jornalista Ana Maria Pimentel, "por um lado fez com que variadas vezes Seguro perdesse o raciocínio, mas por outro mostrasse que não se deixa afetar pela tática bully de Ventura."

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Ao revisitar os debates que marcaram os primórdios da democracia portuguesa, é evidente o contraste entre então e hoje: se na década de 1970 a bobine limitava o tempo de visualização e mobilizava milhões de espectadores a suspenderem a sua rotina, atualmente, de acordo com os vox pop feitos pelo 24notícias na primeira volta, a população acha que os debates se centram no confronto pessoal e parecem não ter o tempo suficiente para esclarecer devidamente quem assiste.

Esta terça-feira, os dois candidatos voltam a encontrar-se no único debate televisivo antes das eleições. Será que vamos ver algo de diferente nesta conversa? Um André Ventura mais moderado ou um Seguro mais combativo? Será que sim ou "olhe que não! olhe que não!"

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