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Mesmo para um país politicamente disfuncional, a vitória eleitoral de Javier Milei, em Novembro de 2023, parecia uma aposta tresloucada.

Desde 1816, data da sua independência, a Argentina esteve sempre em crise política, embora com breves períodos de prosperidade económica – chegou a ser o país mais rico da América do Sul, 100 anos antes do Brasil. Aliás, os brasileiros, com o seu sentido de humor inimitável, dizem que os argentinos são italianos que falam espanhol e se acham ingleses. Há muita inveja nesta piadola, mas não deixa de ter algum fundamento.

Do ponto de vista económico, o maior valor do país consiste na criação de gado e plantação de trigo, que deu uma balança comercial positiva durante a II Grande Guerra, quando alimentou os exércitos aliados. A indústria não teve o mesmo desenvolvimento. Resumindo uma longa e tortuosa aventura, o país foi grande até ao fim da Guerra Mundial, mas a decadência económica começou em 1930 e foi acelerando cada vez mais, no meio de sucessivas revoluções e governos militares e civis.

A estabilidade política chegou em 1946, com a subida ao poder de Juan Domingo Perón e a popularidade imensa de sua mulher, Eva Perón. O peronismo, uma mistura populista de seduzir as massas e enriquecer as elites, tornou-se um fenómeno tão forte que até hoje permanece. Depois da morte prematura de Evita e de um segundo mau governo de Perón, o general foi demitido em 1955 e morreu no exílio em Espanha. Mas o Peronismo esteve – e está – sempre presente nas opções eleitorais, com presidentes sucessivamente pró e anti-peronistas.

Entretanto a decadência económica chegou àquele ponto (que nós conhecemos) em que é preciso pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional, ao Banco Mundial, a quem quer que empreste para salvar da bancarrota – por um preço, evidentemente.

Em 2023 os argentinos estavam tão fartos de instabilidade política e debilidade económica, que optaram, de livre vontade, por um presidente anarquista, uma terceira via desconhecida entre os peronistas e os não-peronistas.

A proposta de Milei era verdadeiramente anarquista: destruir tudo para depois reconstruir melhor.

Tinha um ar tresloucado — assim uma espécie de Boris Johnson com o cabelo preto e olhos esbugalhados —, uma vida privada fora da caixa – vivia com a irmã, também solteira, e tinha cinco cães, quatro deles clonados do primeiro nos Estados Unidos. Falava como um carroceiro, dando explicações económicas com mais palavrões do que termos técnicos. Durante a campanha empunhava uma motosserra como se fosse uma metralhadora e o seu programa incluía dolarizar a economia, baixar os salários e os benefícios sociais e fechar ministérios, como o da Educação, fechar o Banco Central e privatizar tudo. Nenhum economista no mundo, a não ser ele próprio, achava que tinha alguma hipótese de endireitar o país.

A nível internacional, alinhava com a nova direita, Trump, Orbán e companhia – não lhe interessava se a política dos outros era diferente da sua; o que o seduzia era o autoritarismo do chefe, sem prestar contas ao legislativo.

O primeiro ano do “mileirismo” decorreu como previsto: fome generalizada, crescimento da população abaixo do nível de pobreza, empresários agradecidos por se poderem apropriar da fraca indústria nacional. Os argentinos aguentaram a crise prometida sem fazer barulho. Mas o mesmo não aconteceu com os credores internacionais e a dívida pública cresceu exponencialmente. O câmbio do dólar neste momento está em um dólar por 13.933 pesos argentinos.

Mas agora estamos a fazer dois anos de governo anarquista e a esperança de reverter a situação, sempre apregoada por Milei, perdeu a esperança da novidade. O que fazer?

O melhor é recorrer a Trump que, além de usar a economia como arma política (veja-se o que está a fazer com o Brasil), percebe pouco de economia e muito de poder.

Os Estados Unidos acabam de anunciar, pela voz de Scott Bessent, o Secretário do Tesouro (Ministro da Economia) que vão emprestar 40 mil milhões de dólares à Argentina. Com uma condição: que Milei consiga maioria parlamentar nas próximas legislativas, no dia 26 deste mês. Metade dos 257 membros da Câmara dos Representantes e um terço dos 72 senadores vão a votos.

A eleição presidencial será só em 2027, mas Milei, mesmo sem ligar muito aos congressistas, precisa deles para muitas medidas. E precisa de mostrar que tem apoio. Até lá, conseguirá endireitar o país?

Ninguém acredita (nem Trump, provavelmente). Mas também ninguém acreditava que o homem da motosserra ganhasse em 2023.

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