Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt

A conversa arranca com uma citação de Paulo Rosado, antigo CEO da OutSystems, que afirmou em 2018, que as startups portuguesas precisam de se expandir para outros países muito cedo na sua vida, basicamente desde a altura que são criadas. Pedro Ribeiro Santos concorda sem hesitações.

“Isso faz parte do ADN do ecossistema português, porque temos um país pequeno, não tem um mercado local. Não existe o mercado português para uma startup tecnológica, quando muito, é um piloto. Como piloto é um bom piloto, porque tem boa infraestrutura, porque o nível de literacia digital é bom, porque toda a gente fala inglês. Mas não é mais do que um piloto.”

Esta realidade obriga as startups portuguesas a pensar à escala global desde o dia zero. Muitas vezes o primeiro cliente nem sequer está em Portugal, mas sim nos Estados Unidos ou noutros países europeus. É uma necessidade que se tornou característica.

Portugal já não é o deserto de há 25 anos.

O ecossistema evoluiu, a globalização ajudou e o país já consegue atrair capital internacional para as suas startups. Mas há um passo crucial que ainda falta dar.

“Eu defendo que há aqui um passo importante que nos falta chegar, que é haver um grande exit. No dia em que a OutSystems fizer o seu IPO ou o seu grande exit, é um fecho de ciclo muito importante porque torna tangível para muita gente a potencial criação de valor e de riqueza que uma startup com sucesso pode gerar”, sublinha o Managing Partner da Armilar Venture Partners.

Este momento seria transformador. As pessoas que saem com experiência e equity valorizada tornam-se os próprios fomentadores do ecossistema, reinvestindo ou voltando a empreender. É um ciclo virtuoso observado noutros países que Portugal ainda não completou.

Podes ouvir todos os episódios no Spotify, na Apple e no Youtube.

“Pouca literacia” em investimento

A Armilar fechou recentemente o primeiro fecho do seu quarto fundo, com 120 milhões de euros, e tem como objetivo duplicar este valor até 2026. Mas Pedro Ribeiro Santos é realista quanto ao desafio. Isto porque, tal como defende, o contexto de levantamento de capital para fundos de venture capital tem sido extremamente difícil. Há pouca liquidez no mercado, poucas entradas em bolsa e o mercado de M&A cresceu muito depois de 2021. Mas há um problema estrutural mais profundo em Portugal.

“É impossível pensar que se levanta um fundo, nem seja de 100 milhões, com capital português. Existe, desde logo, uma questão estrutural de pouca disponibilidade de capital disponível para investimento, mesmo dos investidores com capacidade para o fazer. Não têm muito essa cultura, essa prática, têm, entre aspas, pouca literacia do que é que é esta classe de ativos.”

A esmagadora maioria do fundo da Armilar é capital não português. Para ir buscar o resto, terão de continuar a falar com investidores institucionais internacionais, pela Europa, Brasil e Estados Unidos.

A IA como ferramenta diária

A conversa não podia deixar de tocar na inteligência artificial. O Managing Partner da Armilar Ventures partilha que, na Armilar, a IA já faz parte dos processos internos de forma integrada, especialmente na triagem de oportunidades de investimento.

A máquina olha para 5 a 6 mil empresas por ano, versus cerca de mil há poucos anos. Alimentada com os critérios de investimento da Armilar, consegue filtrar oportunidades, identificar qual o profissional da equipa que deve olhar para cada empresa e enriquecer os dados automaticamente.

“No estágio de análise, em que nós aprofundamos e dedicamos muitas horas, temos hoje menos empresas do que tínhamos antes, porque já nos chegam bastante mais filtradas”, sublinha.

O resultado? Mais tempo dedicado às empresas que realmente importam, com análises mais profundas e fundamentadas.

Apesar de toda a tecnologia e análise de mercado, Pedro Ribeiro Santos insiste: as pessoas continuam a ser o fator mais importante numa decisão de investimento.

“Se alguma coisa estes 25 anos de experiência na Armilar nos ensinaram é que, de facto, as equipas têm um papel absolutamente fundamental. Os bons empreendedores sabem reconhecer quando a ideia inicial, o mercado inicial de uma startup pode não ser a correta e mudar a empresa, mudar o produto, mudar a abordagem, mudar o mercado e fazer disso, ainda assim, uma aposta de sucesso.”

Num processo de investimento que pode durar semanas ou meses, a transparência da equipa revela-se crucial. O acesso completo à informação, a abertura ao debate de ideias e a ética de trabalho são sinais que a experiência ensina a ler. Afinal, um investimento em venture capital é mais longo que muitos casamentos.

___

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.