Toda a gente, no mundo inteiro, sabe da fixação de Donald Trump por taxas de importação. No decurso dos seus seis meses como Presidente Monarca Absoluto da América do Norte, Donald falou repetidamente de taxas com todos os países e de taxas sobre alguns países em particular, mudando constantemente o valor e a data de entrada em vigor. O primeiro objectivo, segundo ele, é acabar com as práticas dos países oportunistas que prejudicam a economia norte-americana, ajudando as suas indústrias e matérias primas, e sobrecarregando as indústrias e matérias primas made in USA. O segundo ojetivo é tornar o país novamente numa potência industrial.

Quem estudou economia e a História da economia, sabe perfeitamente que as taxas de importação prejudicam toda a gente. Como representante mais do que credível, podemos ver o que diz Paul Krugman, jornalista e Prémio Nobel (no seu substack), agora que saiu do “The New York Times".

“A opinião de que a ausência de tarifas de importação funciona muito bem desde que todos os países sigam esse princípio, mas que se um país promulga taxas, os outros devem fazer o mesmo, é contrariada pelo argumento de que devemos encher os nossos portos de pedregulhos por os outros países têm encostas rochosas.”

“O âmago da questão é que toda a guerra comercial de Trump se baseia numa ilusão sobre o funcionamento da economia mundial. Contudo, para lá do facto de que a Administração Trump pode punir um órgão noticioso só por afirmar tal coisa, também vai contra a percepção de que o público quer políticas económicas firmes. E, infelizmente, como diz ironicamente o comediante Stephen Colbert, “é óbvio que a realidade é de esquerda.” Se noticiamos o que realmente está a acontecer, parece que somos esquerdalhos.”

“Trump destruiu o sistema de trocas internacional e reinstaurou os impostos de importação do antigamente  (o chamado sistema Smoot-Hawley), baseado no princípio de que os outros países estão a enganar-nos e a bloquear as nossas exportações, o que é pura fantasia”

Por outro lado, como Trump vê a política como uma forma de comércio, e usa as taxas – uma ferramenta económica – como arma política. Isto não é só a troca favores usada pela máfia, como é eticamente errado. E voltamos a Krugman: “Trump obrigou vários países a comprar produtos americanos como parte dos acordos. A União Europeia e a Coreia do Sul concordaram em comprar centenas de biliões de combustíveis fósseis antes do final do mandato dele. Acordos com meia dúzia de outros países obrigam à compra de centenas de jatos da Boing. Com isto, Trump espera dar um empurrão à economia, com preços mais baixos e mais emprego. Mas não é evidente que funcione. As taxas de importação têm um custo, pago pelas empresas exportadoras e pelos consumidores. Embora alguns sectores tenham decidido absorver os custos durante algum tempo, os cálculos mostram que vão ser os americanos a pagar a fatura. No mês passado, a inflação começou a subir com a perspectiva das taxas.”

Um bom (péssimo!) exemplo desta forma de usar a economia como arma é o que se passa com o Brasil. Trump tem em Bolsonaro um fiel admirador e, portanto, decidiu que se o ex-presidente for condenado, imporá uma taxa de 50% nas importações brasileiras. Lula respondeu-lhe com dignidade: “O Brasil é um país democrático com separação de poderes. Não interferimos nas decisões dos tribunais.” E aqui, mais uma vez, quem tem mais a perder são os Estados Unidos, que importam o café, sumo de laranja, produtos agrícolas aviões executivos, bens fundamentais. (Não me perguntem porque é que o sumo de laranja é fundamental para os norte-americanos, mas testemunhei-o pessoalmente). Por outro lado, não há nada que o Brasil importe dos Estados Unidos que não possa ir buscar a outros mercados.

E assim chegamos ao acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos. A UE está mais dividida do que antigamente. (Há vários acordos com datas diferentes, mas considera-se que a fundação do modelo vigente ocorreu em Maastricht, em 1993.) Por outro, está a tornar-se cada vez menos relevante na economia mundial. Tem problemas de exportação, com os seus produtos mais reconhecidos, como os automóveis, a sentir a competição da China e da Coreia do Sul. Os partidos anti-UE estão em crescimento em todos os membros e a Grã-Bretanha até saiu (um tiro no pé, mas isso é outro assunto). Na última cúpula da NATO, em 25 de Junho, na Holanda, mostraram uma vontade vergonhosa de agradar a Trump, ao ponto de Mark Rutte lhe chamar pai, e de se comprometerem a uma mentira, 5% do orçamento para a defesa. A UE não tem um exército que se veja e produz dezenas de equipamentos militares incompatíveis. É verdade que este beija-mão pode ser uma estratégia diplomática, uma vez que é universal o conhecimento que Trump adora a adulação e considera-a como um reconhecimento da sua grandeza. Mas, estratégia ou não, é triste para quem já “descobriu” e explorou o mundo inteiro.

Trump tinha falado numa tarifa única de 30% e também de tarifas nacionais de vários níveis – nada de certo, mas certamente muito inconveniente. Desta vez o encontro foi na Escócia, onde Trump foi jogar num dos seus campos de golfe (à custa do erário público norte-americano, como a comunicação social e as redes do reviralho fizeram questão de destacar). Coube a Úrsula von der Leyen, por inerência de cargo, a tarefa de bajular o Rei sem beijar o anel.

O resultado, ainda nebuloso, é de uma taxa de importação de 15% para os membros do bloco. Bruxelas disse logo que era um “grande acordo” que trará “estabilidade” e “praticabilidade” a ambas as partes, “o maior acordo bilateral do mundo”, no valor de 1,4 taralhões de dólares ou euros, não percebi bem.

Claro que logo a seguir vieram os “senãos”. O primeiro-ministro francês, Francois Bayrou afirmou que foi “um dia negro para a Europa, que se resignou à submissão”. O jornalista Paul Taylor, do “Guardian Europe” escreveu que a UE tinha “capitulado” perante as exigências de Trump e que “não é apenas humilhante, como não impede uma guerra comercial transatlântica. (...) Perante a exibição de poder bruto, von der Leyen, limitada pelas profundas divisões entre os estados-membros sobre como fazer frente a Trump, limitou-se a um exercício de contenção de danos”. (Não deixa de ser irónico que estes comentários venham de um inglês, cujo país deu o maior chuto no pé do século, com o Brexit...)

Resumindo as opiniões daqui e dali o acordo não foi mais do que um documento político, cujos pormenores económicos e financeiros terão se ser resolvidos à medida que for necessário. Nicolau von Ondarza, do think-tank alemão SWP, citado pelo “Guardian”, acha que “o acordo pode não ser assim tão humilhante, mas a UE apresenta-o como uma humilhação para satisfazer Trump.”

Aplacar os tiranos na esperança de que não queiram mais, é a lição que já devíamos ter aprendido, de que só os leva a querer mais. Mas, como nós portugueses sabiamente dizemos, “é o que temos”.