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Vivemos numa sociedade completamente infantilizada. Gostava de apontar o dedo a um culpado, mas, na ausência de respostas, opto por parafrasear a ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral: é um "trabalho colectivo". O resultado é que me apetece distribuir palmadas por muitos adultos, mas as palmadas são hoje sacrilégio e ainda acabo na fogueira.
A decadência intelectual de uma sociedade começa quando esta substitui o pensamento pela repetição, a análise pela aceitação acrítica. O declínio não acontece de um momento para o outro, é gradual e quase imperceptível, até que o conhecimento dá lugar a uma encenação de sabedoria. Tudo é supérfluo, excepto o espectáculo visual.
Hoje, tudo, dos regimes políticos às redes sociais — e, grave, passando pela Comunicação Social — empurra os adultos para uma espécie de imaturidade, conformismo ou dependência. Não interessa o essencial, só as purpurinas. Fazer perguntas — sobretudo pertinentes — é um incómodo, quanto mais responder. A consequência é óbvia; a sociedade torna-se vulnerável à manipulação.
Os últimos dez dias têm sido generosos nesta matéria. A tempestade Kristin trouxe ventos e chuva forte, mortes e danos materiais severos, ainda a serem contabilizados. O rasto de destruição manteve-se depois do temporal. A verdadeira depressão instalou-se quando os políticos-turistas saíram dos gabinetes, de motorista e sapatinhos John Lobb, para ir ver os estragos.
Relembro os acontecimentos, numa espécie de "cenas dos episódios anteriores", antes de voltar ao capítulo seguinte:
Na tarde de 27 de Janeiro, um SMS da Protecção Civil avisava sobre a depressão Kristin: "Vento intenso até 140 km/h nas próximas horas na sua região. Fique atento. Siga recomendações das autoridades", um número e um link para saber mais — ironicamente, a mensagem anterior a esta é sobre "risco extremo de incêndio" (12 de Agosto de 2025).
À noite, o 34.º debate sobre as presidenciais: Ventura e Seguro esgrimiam posições nas televisões nacionais; nem uma referência ao assunto — ou às alterações climáticas, por exemplo —, apesar das mais de 1.400 ocorrências, só nesse dia, por causa do mau tempo.
Na manhã seguinte, o primeiro balanço: cinco mortos (pessoas reais, com nome, famílias, amigos), 490 mil sem electricidade e comunicações e um rasto de devastação que continuou até hoje — e pode até pôr em causa a realização da segunda volta das presidenciais, pelo menos em algumas regiões. Montenegro, primeiro-ministro, pede cuidadinho, a ministra da Administração Interna reúne-se com a Protecção Civil para avaliar estragos.
Dia 29, uma declaração espantosa de Marcelo Rebelo de Sousa: "Não há comparação no que se aprendeu e melhorou". Nos grupos de WhatsApp, assessores apressam-se a alterar agendas dos candidatos à Presidência da República — que jornalistas seguem em rebanho —, e lançam nas redes sociais vídeos dos "patrões" atarefados com "a crise" do momento, depois prontamente apagados. O inventário das perdas continua, a política de palco também.
Henrique Gouveia e Melo, ex(futuro)-candidato a presidente, chamou a isto "o país do improviso". Acredito, até, que muitos tenham já tido vontade de o chamar, se não por causa da enxurrada, talvez pela época de incêndios que se aproxima. Uma ou outra, nunca estamos preparados para nada. Responsabilidades? Moita-carrasco. Soluções? Vão sem mim que eu vou lá ter, como dizia a canção.
A cereja no topo do bolo, desta vez do "quarto poder": na edição impressa de segunda-feira, dia 2, página 12, o jornal Público avança com uma notícia sobre a visita de André Ventura aos bombeiros de Vila Verde. Na fotografia, o líder do Chega estende a mão a uma bombeira de mãos atrás das costas.
A fotografia de Manuel Roberto invadiu as redes sociais e os comentários não se fizeram esperar. Enquanto os pró-Ventura decretavam a expulsão sumária da bombeira mal-criada, os contra-Ventura elevavam-na a deusa-coragem, merecedora de todas as ordens honoríficas da nação, do Mérito à Torre e Espada.
O momento é real, só que antecede os segundos que levaram a bombeira a dar o passou-bem a André Ventura. O jornal opta por publicar uma imagem (e legenda) ambígua, que deixa margem para dúvidas e muita imaginação. A verdade não interessa a ninguém, muito menos se privar um turbilhão de gente de cinco minutos de insultos gratuitos.
Um circo e muitas cenas dignas de Monty Python.
Recupero, a este propósito, o escritor checo Milan Kundera (1929-2023), exilado em França, e duas obras em particular: "O Livro do Riso de do Esquecimento" e "A Festa da Insignificância" — aconselho vivamente a leitura. No primeiro, o autor mostra como as estruturas de poder "apagam" o passado e manipulam a memória colectiva, reduzindo os adultos à ignorância e à incapacidade crítica. No segundo, satiriza a sociedade contemporânea por valorizar o banal, o efémero, em detrimento dos problemas profundos e sérios.
Vivemos um tempo em que a linha entre a protecção e a condescendência é cada vez mais esbatida. A Psicologia Social explica: a infantilização pode minar a auto-estima, a confiança na capacidade de decisão. Adultos constantemente protegidos de debate, crítica ou contradição podem desenvolver insegurança e dependência.
O Estado — não só, mas também — impõe a infantilização porque, sem memória, os adultos tornam-se incapazes de pensar por si próprios. A infantilização não é apenas uma escolha retórica, é um ataque à democracia. E Portugal transformou-se num enorme parque infantil.
P.S.: As eleições deviam ser adiadas. Não interessa que partidos são a favor ou contra; é uma questão de bom senso. As eleições são das pessoas e para as pessoas. Bem sei que as câmaras podem pedir o adiamento para o domingo seguinte, mas não é disso que se trata. O país está exausto, psicologicamente abalado e materialmente virado do avesso. Tem mais em que pensar. E o momento do voto impõe uma certa dignidade. A Lei Eleitoral não deixa? Mais uma razão para ser alterada — mas, também aqui, a infantilização continua.
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