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A mente é um fenómeno dinâmico que emerge não apenas do cérebro mas da atividade do  sistema nervoso. Podemos descrevê-la como um terreno imaterial, mas concreto, onde  coabitam experiências complexas como pensamentos, intenções, memórias, a própria  consciência, a integração de processos emocionais e a formulação de comportamentos. A mente  é claramente moldada pelo estado do organismo que a sustenta. Por exemplo, desequilíbrios na  química cerebral podem favorecer o desenvolvimento de sintomas depressivos, o cansaço físico  e a dor podem reduzir a capacidade de regulação emocional, entre muitos outros efeitos. No  entanto, a mente pode também modificar o que acontece no organismo através de padrões de  pensamento e comportamento repetidos.  

Por exemplo, comportamentos de exposição continuada a distrações digitais com estímulos  rápidos e curtos treinam o cérebro para a procura de gratificações instantâneas. Diversos  estudos têm mostrado que este processo reduz a sensibilidade dos recetores de dopamina, um  neurotransmissor muito importante para a motivação e o prazer. Podemos assim comprometer  a capacidade de sentir prazer por estímulos menos “frenéticos” e motivação por tarefas mais  lentas e profundas. O lado encorajador é que o processo funciona nos dois sentidos. Tal como  padrões pouco benéficos se consolidam por repetição, novas formas de pensar e agir também  podem esculpir circuitos mais saudáveis. Por exemplo, a prática de estados de atenção plena,  como na meditação mindfulness ou no envolvimento profundo com hobbies prazerosos, pode  regular um organismo previamente preso em estados de alerta e hiperativação. Desta forma, é  possível que a mente seja coautora da arquitetura do sistema nervoso através de uma  propriedade designada neuroplasticidade, que, embora dentro de alguns constrangimentos  estruturais, possibilita mudanças que impactam bastante as nossas experiências.  

E qual o papel da terapia neste contexto? Tem emergido um vasto campo de investigação que  nos apresenta evidências sobre como mudanças cognitivas e comportamentais promovidas em  meio psicoterapêutico podem alterar o nosso funcionamento cerebral. Vejamos o tratamento  de fobias como um bom exemplo. Neste âmbito, perante o estímulo temido existe uma ativação  automática de circuitos associados a perigo que geram a reação fóbica, conduzindo a intensas  respostas de medo. Por conseguinte, ao evitar o alvo da fobia o ciclo é perpetuado, porque o  registo de “perigoso” se mantém.  

Mudanças cognitivas introduzidas pela terapia incluem o treino da capacidade de observar o que  acontece internamente, identificando os pensamentos automáticos e as reações emocionais  desencadeadas. Mudanças comportamentais incluem a utilização de estratégias de  autorregulação que ajudam a pessoa a tolerar a ativação emocional e a desafiar a tendência  evitante. O que os estudos de neuroimagem têm mostrado é que após completar protocolos de  intervenção que contemplam a utilização deste tipo de estratégias, os estímulos que  anteriormente ativavam áreas cerebrais associadas aos sistemas de alarme deixam de produzir  este efeito. Observa-se também uma maior ligação entre essas áreas (por exemplo, a amígdala) e outras que são responsáveis pela regulação emocional com recurso a processos de raciocínio deliberado (nomeadamente, o córtex pré-frontal). Assim, o que anteriormente despoletava  reações automáticas avassaladoras passa a ser experienciado de modo mais tolerável.

Além deste exemplo, existem muitos outros campos onde se verifica a possibilidade de  reescrever padrões de ativação psicofisiológica. Processos semelhantes ocorrem quando  trabalhamos trauma, padrões relacionais disfuncionais, ruminação ansiosa, ciclos obsessivo compulsivos, perturbações do comportamento alimentar ou de consumo, e até sintomas  provenientes de perturbações da personalidade. Com efeito, muito do que se faz em terapia é  precisamente a promoção de experiências reparadoras que conduzem à reaprendizagem neural. 

Todos estes exemplos assentam na ativação dos princípios da neuroplasticidade e da progressiva  integração entre funções, nomeadamente emocionais, cognitivas e comportamentais. Estes  mecanismos são subjacentes à possibilidade de mudança fisiológica promovida pela mente em  contexto terapêutico, tal como tem sido explorado por autores proeminentes na área da  neurociência aplicada à terapia como Louis Cozolino e Bessel van der Kolk. 

À medida que o nosso entendimento aumenta acerca da forma como o nosso cérebro e restante  sistema nervoso afetam as nossas experiências mentais e emocionais, podemos atuar na direção  inversa. Descobrir sobre como diferentes partes de nós se influenciam de forma circular permite abrir caminho para que as nossas escolhas possam desafiar as restrições do que se tornou  automático. Importa, naturalmente, atender à inevitabilidade de algumas condicionantes  biológicas que estarão sempre além do nosso controlo. No entanto, ao navegar este campo  fascinante, podemos converter algum conhecimento da nossa biologia em otimismo plausível e bem fundamentado.

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