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“Temos as nossas próprias opiniões, as nossas próprias crenças individuais”, afirmou Wiseman naquela conferência de imprensa: “Penso que essa é uma das melhores partes desta missão: como dissemos desde o início, somos realmente para todos, por todos, e queremos levar o mundo inteiro connosco.”
Entre os tripulantes da atual missão há outras referências espirituais mais subtis, lembra o jornalista Jack Jenkins, do National Catholic Reporter, tais como o distintivo pessoal usado pelo astronauta canadiano Jeremy Hansen que foi desenhado pelo artista Anishinaabe Henry Guimond. O desenho simboliza as ‘Sete Leis Sagradas’, um ensinamento tradicional das comunidades indígenas das Nações Primitivas com as quais Hansen conviveu e cuja espiritualidade abraçou.
Contudo, no campo religioso o mais vocal dos astronautas da Artemis II é Victor Glover que tem referido frequentemente a sua fé cristã ligada às igrejas da rede Churches of Christ no Texas. “Enquanto continuamos a desvendar os mistérios do cosmos, gostaria de vos recordar um dos mistérios mais importantes aí na Terra: o amor. Cristo disse que o maior mandamento é amar a Deus com tudo o que somos” – disse Glover numa transmissão aberta, momentos antes da cápsula Orion desaparecer por detrás da Lua. E foi ele também que, nas primeiras declarações para a Terra, disse que o planeta estava “lindo” e que “não importa de onde se vem ou que aparência se tem, somos todos um só povo”.
Do mesmo modo, numa conversa pública com o Presidente dos Estados Unidos, respondeu à pergunta de Trump sobre o que tinha feito no momento de entrar no silêncio de comunicações motivado por estar do outro lado da lua, dizendo: “Fiz uma breve oração e depois tive de continuar a avançar. Estava a registar observações científicas do lado oculto da Lua…”
Estas afirmações estão mais na linha da célebre recitação dos primeiros capítulos do Génesis pelos três tripulantes da Apolo 8 há 60 anos, naquele que foi o primeiro voo a levar uma tripulação ao outro lado da Lua, feito que a cápsula Orion da missão Artemis II agora repetiu. Em dezembro de 1968, na sua nona órbita à roda da Lua, os três astronautas da Apolo 8 — William Anders (então católico), Jim Lovell (presbiteriano) e Frank Borman (episcopaliano) – recitaram à vez, durante uma transmissão aberta, os capítulos 1 a 10 do Livro do Génesis.
Foi também a bordo desse voo que, na véspera de Natal, Frank Borman exprimiu os votos natalícios dos três astronautas: “Da tripulação da Apollo 8, desejamos boa noite, boa sorte, um Feliz Natal e que Deus vos abençoe a todos – a todos vocês aí na Terra”.
Controvérsias e tribunais
As referências a Deus e às convicções religiosas pessoais dos astronautas não são, porém, pacíficas para todos. Aquela leitura do Génesis, por exemplo, motivou, lembra Jack Jenkins no referido artigo, “um processo judicial movido pela ativista ateia Madalyn Murray O’Hair” baseado no argumento de que violava a Primeira Emenda da constituição americana. É certo que “o Supremo Tribunal dos EUA rejeitou o caso por ‘falta de jurisdição’ – presumivelmente referindo-se ao espaço –, mas vários historiadores argumentam há muito tempo que o processo teve um impacto duradouro na NASA, já que os astronautas foram efetivamente desencorajados a envolverem-se abertamente em cultos ou atividades religiosas durante as missões”.
Tal conselho deve ter estado na origem do facto de Buzz Aldrin – o segundo homem a pisar a lua em 1969, logo após o seu companheiro da missão Apollo 11, Neil Armstrong – ter comungado na Lua pouco antes de caminhar na superfície lunar, mas ter esperado mais de um ano para tornar público o facto.
Apesar das controvérsias, a história regista, de acordo com o levantamento feito por Jack Jenkins, “Bíblias que foram levadas à Lua e trazidas de volta durante a era Apollo e crucifixos, ícones e outros símbolos religiosos levados por cristãos de diversas denominações a bordo de vários foguetões”. Por outro lado, “equipas de peritos islâmicos foram chamadas para orientar astronautas muçulmanos que desejavam orar e manter a sua prática religiosa enquanto orbitavam a terra na Estação Espacial Internacional – inclusive durante o Ramadão – e rolos da Torá foram levados por astronautas judeus a bordo das naves espaciais”.
A evolução do modo como o sentimento religioso se interliga com a conquista do espaço fica bem expressa na fase retirada das memórias de Buzz Aldrin, publicadas em 2011 e citada no artigo do National Catholic Reporter: “Viemos ao espaço em nome de toda a humanidade – sejam cristãos, judeus, muçulmanos, animistas, agnósticos ou ateus. Mas, na época, não consegui pensar em melhor modo de reconhecer a experiência da Apollo 11 do que agradecendo a Deus.”
A Artemis II deve amarar no Oceano Pacífico, perto da costa de San Diego, na Califórnia, às primeiras horas (01h07) de sábado, dia 11 de abril, hora de Portugal continental. Além de ter sido uma das poucas missões tripuladas a orbitar a Lua, fica também com o recorde do objeto tripulado a ‘voar’ mais longe do planeta Terra.
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