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Em 2011, a Tencent lançou uma aplicação de mensagens chamada Weixin. Quinze anos depois, rebatizada como WeChat, é uma das maiores plataformas digitais do mundo, com mais de 1,41 mil milhões de utilizadores ativos por mês, segundo a Statista, e presença regular no top 10 das redes sociais globais.

A trajetória ajuda a explicar porque é que, fora da China, se fala tantas vezes de “super app”. Mensagens, rede social, pagamentos, compras, jogos e centenas de mini aplicações vivem dentro do mesmo ícone no ecrã. Para muitos utilizadores, o WeChat não é apenas uma app. É a infraestrutura do dia a dia.

Maria Santos, portuguesa, conheceu essa realidade em primeira mão. Instalou a aplicação em 2016, quando vivia em Macau, e passou a usá-la de forma intensiva dois anos depois, já em Pequim. “Na Mainland China, o acesso às plataformas da Meta — como WhatsApp, Instagram e Facebook — é bloqueado. Embora seja possível contornar essas limitações através de VPN, a verdade é que, já naquela altura, o WeChat era muito mais inovador e disruptivo do que as alternativas ocidentais a que estava habituada”, conta.

Da app de mensagens ao sistema operativo do quotidiano

Ao longo dos anos, o WeChat passou a integrar funcionalidades que, no Ocidente, estão distribuídas por várias aplicações. “Estamos a falar de uma aplicação que reunia, numa só plataforma, funcionalidades equivalentes a uma app de mensagens, rede social, sistema de pagamentos, app store, mapas, dating e até vídeo — algo comparável a ter WhatsApp, Instagram, MB Way, Tinder, Google Maps e TikTok numa única app”, descreve Maria Santos.

O salto não aconteceu de um dia para o outro. Primeiro vieram as mensagens de texto e voz. Depois, o feed social Moments. A seguir, os pagamentos integrados, o marketplace, os jogos e as chamadas “mini programs”, pequenas aplicações que dispensam download e funcionam dentro do WeChat, segundo a Medium.

Hoje, só o WeChat Pay é usado por cerca de 935 milhões de pessoas, e os mini programs ultrapassam os 945 milhões de utilizadores mensais na China. A plataforma é também ferramenta de trabalho para cerca de 65 milhões de empresas, através do WeChat Work.

Um dos exemplos que mais marcou Maria Santos foi o sistema de pagamentos. “O sistema de pagamentos inclui, por defeito, o NIF nas faturas e permite aceder a um histórico completo de despesas e respetivas faturas. Não há necessidade de imprimir talões — o que não só é mais prático, como mais sustentável — e elimina problemas clássicos como ‘perdi o talão da troca’ ou da garantia”, acrescenta.

O contraste com a Europa

A experiência marcou ao ponto de se tornar uma referência pessoal. “Lembro-me perfeitamente da primeira vez que saí de casa apenas com o telemóvel — sem carteira, dinheiro ou cartões — e de perceber o quão libertador isso era. Tudo funcionava de forma simples e integrada”, recorda.

Maria Santos remata dizendo que o regresso a Portugal trouxe um contraste: “Cafés sem multibanco, pagamentos mínimos de 5€, limites mensais de transferências… criam-se soluções, mas a experiência está longe de ser verdadeiramente frictionless.”

Os números ajudam a perceber porque o modelo do WeChat se consolidou. Na China, os utilizadores passam em média cerca de 80 minutos por dia na aplicação. Compram bilhetes, marcam consultas, pagam contas, conversam e seguem notícias sem sair do ecossistema.

Quinze anos depois do lançamento, o WeChat continua concentrado sobretudo no mercado chinês. Para startups, bancos e plataformas sociais no resto do mundo, a pergunta mantém-se: até que ponto faz sentido juntar tudo numa só aplicação? Na China, essa resposta foi dada há mais de uma década.

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