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Porque é que é relevante atentar neste período? Porque é a partir daí que entrou um novo estilo de fazer política no ecossistema partidário português, que tem atingido o objetivo mais pragmático a que qualquer partido se propõe: aumentar o número de votos em eleições.
O mundo (mais desenvolvido, para ser justo) tem-se emaranhado cada vez mais no que há muito tempo foi cunhado como a economia da atenção. Já não se coloca tanto a questão do acesso à informação, mas sim que informação se consegue destacar e captar a atenção de quem caminha numa selva informativa. A atenção tornou-se num recurso valioso e escasso. Todas as organizações foram entendendo isso mesmo e, inevitavelmente, a tendência acabou por também aterrar na política forçando mudanças.
A meu ver, as mudanças não foram maioritariamente positivas, apesar de muito eficazes para quem souber sobreviver. O interesse dos eleitores e o poder que estes conferem, deslocam-se para quem controla a atenção. Os políticos e os partidos mais radicais assumem essa missão com empenho. Tentam estar em todo o lado ao mesmo tempo, não necessariamente para convencer, mas para provocar reações, forçar posicionamentos e impor temas. A lógica da captação de atenção é muito melhor entendida por estes.
Esse sim foi o grande choque do qual os partidos tradicionais demoraram a reagir. Basta estarmos atentos, por exemplo, aos últimos debates de André Ventura, e percebe-se que este não quer debater ideias, mas criar conteúdo para as suas redes sociais. É preciso ser excêntrico, bombardear o adversário com catchphrases, pouco importa se têm ou não conexão à realidade e com sorte consegue-se uma expressão facial do oponente, que ficará ótima na edição do vídeo para o Instagram ou para o TikTok, com o título “Fulano X arrasado por Ventura”.
Se analisarmos os perfis de António José Seguro e de André Ventura, torna-se evidente que estamos a assistir a um duelo de dois universos distintos. A realpolitik a que Seguro estava habituado antes de sair da política ativa, enfrenta a reelpolitik de Ventura, carregada de memes, danças, vídeos satíricos com inteligência artificial a diminuir os oponentes e reacts constantes a notícias e a intervenções de outras personalidades. Nas redes sociais de António José Seguro, observa-se um esforço tímido para acompanhar algumas tendências, mas mantendo sempre um tom clássico de campanha de partido de poder. Este esforço para incluir alguns trechos que revelem humor, tem sido comum neste género de políticos. Os protagonistas mais radicais sentem que não têm nada a perder, e em vista disso arriscam muito mais nos conteúdos e no comportamento.
As mal afamadas sondagens dão como certo que teremos em São Bento, António José Seguro. O clássico político “aborrecido”, como diria Nigel Farage (o Ventura do Reino Unido), da época da política de consensos e da previsibilidade. Mas mesmo assim, a campanha que faz demonstra que há uma necessidade de se apresentar mais descontraído, para conseguir circular a maior velocidade nos ecrãs dos telemóveis.
Estará a criar-se uma geração de eleitores que só confiam o voto em quem os entretém? E de políticos cuja maior qualidade que apresentam ao eleitorado é ter piada? A reelpolitik veio para ficar e vamos ter de nos habituar a um mundo em que todas as instituições estão em modo caricatura? Espero que não.
O que este confronto traz à tona novamente não é apenas uma mudança de estilos, mas uma transformação das condições de funcionamento da democracia, em que se caminha para a substituição do debate político por competições de entretenimento. Quando o poder passar a depender da capacidade de “render bem em vídeo”, as instituições deixarão de ser espaços de decisão e tornando-se palcos.
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