O actual abade de Priscos (Braga), padre João Torres, não ignora o fascínio que ainda hoje cativa um sem-número de historiadores, cozinheiros e gastrónomos na busca do incerto livro de receitas do padre Manuel Joaquim Machado Rebelo, que durante mais de três décadas, entre os séculos XIX e XX, surpreendeu eminentes comensais – o rei D. Luís, diversa nobreza, arcebispos bracarenses, um reitor da Universidade de Coimbra e um núncio apostólico, entre outros –, com sumptuosos e inéditos repastos. O mais notório é o “pudim abade de Priscos”, até agora replicado em sítios tão longínquos como a Austrália ou o Japão.

Não renegando o legado cultural e social de uma paróquia já citada como unidade eclesial de Braga e sítio de passagem do Caminho de Santiago de Compostela, antes do século XI, o «património de Priscos» que mereceu a atenção do padre João Torres, logo após a sua nomeação como pároco em Julho de 2006, foi «uma comunidade dispersa» com a qual assumiu «o compromisso de a congregar e estimular para o acolhimento solidário».

Para isso não encontrou melhor decisão do que a de «convidar todos, jovens e adultos, para idealizarem um presépio vivo». «É que para as pessoas se conhecerem, nada melhor do que uma convivência capaz de promover um diálogo a partir do verdadeiro sentido da mensagem do Natal», reconhece ao 7MARGENS duas décadas depois do que identifica como «experiência humanizadora».

Considerado o maior presépio vivo da Europa, João Torres salienta que «a ideia do presépio nunca foi a do sucesso, mas a comunhão de um relacionamento fraterno, de uns com os outros, capaz de dar um sentido à vida, e provocar abertura ao exterior, aos mais necessitados e a todos os credos». A confirmar estas palavras há a assinalar a convivência com pessoas que, não habitando em Priscos, se disponibilizam a apoiar na preparação e a fazerem parte dos cerca de 800 figurantes que dão vida aos mais de 90 cenários que constituem o presépio, “exposto” normalmente entre meados de dezembro e janeiro.

Uma pergunta

Presépio Vivo de Priscos (Braga): a ideia do pároco foi “congregar uma comunidade que deveria ser uma escola de líderes. Foto © Hugo-Delgado/Wide Angle Photographic Agency via Ecclesia.

Mas foi a necessidade da reparação dos cenários e todos os artefactos que reconstituem esta “viagem ao tempo de Jesus”, que colocou uma interrogação ao pároco, logo partilhada com quem que já se havia “convertido” à mensagem deste projecto: «Quem, na sociedade actual, seriam os pastores que foram visitar Jesus? Quem são, como aqueles eram, os excluídos da nossa sociedade, os que ninguém quer ter por companhia?». Doze anos depois, João Torres sintetiza: «Foi necessário reinventar a mentalidade cristã», porque nem todos se reviam na sua proposta…

Depois, «convencidos os corações», houve que mobilizar não só a direcção da cadeia de Braga (onde o pároco faz acompanhamento espiritual), mas igualmente a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais para permitirem a participação de reclusos na manutenção e conservação dos cerca dos 30 mil metros quadrados que ocupa o presépio de Priscos. Durante o ano, «são aqueles ‘pastores’ quem, todos os dias, preserva o espaço e cuida dos animais que ali se mantêm, para enquadrarem as diferentes cenas do presépio». E se inicialmente viajavam num carro celular, acompanhados por um guarda, em breve os responsáveis dos Serviços Prisionais se deixaram persuadir pelo pároco que «aquelas pessoas seriam capazes de viajar, sozinhas, sem a supervisão de um guarda em transporte público», desde Braga à “aldeia dos abades”. Muitos deles ainda hoje visitam o presépio. «Alguns já trazem os netos… vêm de Barcelos, Fafe, Guimarães e do Porto, para se encontrarem com as pessoas com quem aqui conviveram», diz João Torres com satisfação incontida.

Sem nunca perder de vista o compromisso assumido com a população, o padre João Torres nunca impôs nenhuma proposta. Por isso, como refere, a sua liderança bastava-se ao conseguir «congregar uma comunidade que deveria ser uma escola de líderes». Primeiro, cada ideia era comunicada em pequenos grupos – como os conselhos económico e pastoral –, e que passando «a ser um objectivo comum, tornava a convivência num desígnio de conversão de cada pessoa».

E o horizonte alargava-se. Em 2013, a comunidade assentou em receber um primeiro grupo de figurantes do exterior, vindos de Loures, distrito de Lisboa, para integrarem as diferentes cenas do presépio; no ano seguinte, perante o anúncio feito pela ONU, a 23 de julho, de que mais de 650 civis palestinianos haviam sido mortos no conflito iniciado por Israel contra o governo do Hamas, na Faixa de Gaza, Priscos decidiu, oito dias depois, no espaço onde em cada ano celebra o nascimento de Jesus, realizar uma “Oração pela Paz em Israel e Palestina”. E em 2015, uma muçulmana já integrava o grupo de figurantes do presépio… Estava consolidado o projecto do “Presépio de Priscos” que, no ano seguinte, e nas palavras do pároco, «reinventou o seu desígnio do acolhimento», passando a transferir, anualmente, a partir daquele Natal, «a sua solidariedade para projectos humanitários em Moçambique», país onde João Torres vivera, durante dois anos, uma experiência pastoral.

Desígnio de acolhimento vs. supremacia do populismo

O Presépio Vivo de Priscos já acolheu várias experiências de diálogo com culturas e religiões diferentes. Foto © Hugo-Delgado/Wide Angle Photographic Agency via Ecclesia.

Inaugurava-se um novo período da «escola de líderes». Surgiam os primeiros resultados da não desistência do padre João Torres «em procurar aqueles que não vinham ao culto». «Não vens à missa, mas vens para nos conhecermos», relembra, para assegurar que sempre acreditou que a «mensagem do nascimento de Jesus» só tinha sentido «quando nos déssemos conta que quando nascemos, nascemos todos juntos…». Então, havia que olhar mais além, «derrubar fronteiras», expressão tão grata a João Torres para reaver a memória dos acontecimentos que se foram sucedendo, por forma a consolidar a identidade do projecto: «Foi a ocasião de exercermos o acolhimento, o sofrimento de alguém, do outro que ‘era de fora’».

Foi assim que o bombeiro Rui Rosinha, bombeiro voluntário que, em 2017, sofrera um acidente grave no combate ao fogo em Pedrógão Grande, foi recebido no dia 12 de Dezembro de 2018; um ano depois, o drama da guerra civil na Síria levou ao convite de 14 refugiados. Em 2021, Filomena Teixeira testemunhava a dor pelo filho Rui Pedro, desaparecido em 1998; e no ano seguinte, Marta Nogueira era homenageada a 11 de dezembro: respirava um ânimo incomum, desde 2015, convivendo com duas balas na cabeça, disparadas por um ex-namorado. E o último «acolhimento», no Natal de 2025, foi dedicado às pessoas portadoras de deficiência…

Entretanto, por ocasião desta última época natalícia, em 22 de Dezembro, o Tribunal Cível de Lisboa condenava o líder do Chega, André Ventura, a retirar os cartazes que, no mês anterior, havia colocado por todo o país, no âmbito da pré-campanha para as eleições presidenciais. Em causa estava uma frase inscrita num dos cartazes – «Os ciganos têm de cumprir a lei» –, que fora objecto de queixa por parte de uma organização representante daquela etnia. Outros dois cartazes tinham como alvo os imigrantes. E sobre eles já se havia pronunciado desfavoravelmente o episcopado católico português, quer na sua assembleia plenária anual, como no Fórum Migrações, em Fátima, e de igual modo a Obra Nacional das Pastoral dos Ciganos, organismo da Conferência Episcopal Portuguesa, sobre o cartaz referente à população de etnia cigana.

Atento a toda esta circunstância estava o presidente da Junta de Freguesia de Priscos, Israel Pinto, que havia sido reconduzido no cargo, numa lista independente, para cumprir o seu terceiro mandato. Nas eleições de 12 de Outubro de 2025, o Chega conseguira fazer eleger um membro para a Assembleia de Freguesia. Pela primeira vez, André Ventura tinha agora uma “correia de transmissão” na “aldeia do presépio”, conhecida pela sua vocação ecuménica e universalista, e que na documentação pública se apresenta enquanto «projeto aberto a todos os credos, porque todo o ser humano anda à procura da sua estrada, do seu caminho, de si próprio, da sua felicidade e sentido de vida».

Uma população “resistente”

Abertura da edição de 2025 do Presépio Vivo de Priscos, com a presença dos bispos: há “uma tensão que não pode ser ignorada” na sociedade portuguesa, diz o padre e sociólogo Eduardo Duque. Foto © Arquidiocese de Braga.

Israel Pinto não desvaloriza a entrada de um elemento do Chega. Todavia, reconhece «maturidade cívica» a uma população que ele próprio designa «de resistentes, com o seu pároco, na concretização de um ambiente, não só comunitário, mas que se pode considerar de fraternidade». E diante do facto de o candidato presidencial André Ventura ter conseguido mais votos (29,63%) na primeira volta das presidenciais deste ano, do que António José Seguro (25,88%), não fica indiferente, como não ficou o próprio episcopado católico que, no final de Janeiro, após terem sido conhecidos os resultados daquela votação, alertou para os «riscos da instrumentalização dos valores cristãos para fins políticos», promovendo «discriminação e discursos de ódio». Preocupação, todavia, partilhada pelo autarca que não deixa de sublinhar o fenómeno de «nos últimos anos, a dificuldade de conseguir habitação a preços acessíveis em Braga», a aldeia começou a ser habitada por uma população que não tinha ali «raízes familiares».

Não querendo, porém, retirar do facto qualquer ilação, Israel Pinto afirma-se «confiante no ambiente que, em torno da iniciativa do presépio, se tem criado entre a população». Além do mais, confidencia, «é na qualidade da liderança do pade João Torres, capaz de sentar à mesma mesa pessoas distintas, promovendo sempre um sentido comunitário aberto, que as pessoas se reconhecem». Por sua vez, o pároco de Priscos, que não vê necessidade de se pronunciar sobre o assunto, não deixa de recordar que «dos candidatos à Presidência da República, o único que não visitou o presépio foi o candidato líder do Chega».

Mas do interior da Igreja bracarense surge uma voz que se tem dedicado ao estudo do desenvolvimento social, no âmbito dos valores religiosos. Eduardo Duque, cónego e doutorado em Ciências Políticas e Sociais, pela Universidade Complutense de Madrid, refere o ambiente gerado «no mundo marcado pela aceleração, pelo individualismo e pelo relativismo» como propício à busca de «líderes fortes ou discursos que prometam segurança à custa da exclusão». Sendo «esta atitude fatalista», adverte para o facto de «o cristianismo ser incompatível com qualquer lógica de exclusão, de segmentação ou de hierarquização moral das pessoas».

Não desejando comentar factos concretos, não se exime em considerar a existência de «uma tensão que não pode ser ignorada» na sociedade portuguesa: «Figuras públicas que se afirmam católicas, que frequentam as celebrações religiosas e usam até uma linguagem identitária, mas as suas práticas políticas contradizem frontalmente o núcleo do Evangelho». Daí conclui que «discursos baseados no medo, na exclusão, na culpabilização de grupos vulneráveis ou na negação de direitos fundamentais, não são compatíveis com a mensagem de Cristo».

«Este é o desafio que Priscos aceitou trilhar», reafirma o presidente da autarquia, recordando «os dois encontros de diversas confissões, em 2012 e 2024, que o padre João, numa atitude de audácia fraterna, promoveu nesta terra». Israel Pinto referia-se à iniciativa “Aldeia das Religiões” que reuniu, durante uma semana, 40 líderes religiosos. E João Torres, que afirma desejar dar continuidade à iniciativa, recorda com estima «o diálogo e momentos de oração comuns, capazes de estabelecerem um relacionamento fraterno com a população e com quantos, que nessa ocasião, nos visitaram».