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Podia gastar esta coluna inteira e mais algumas a tentar explicar porque é que Nova Iorque é uma cidade diferente dos Estados Unidos e diferente das outras megapolis deste mundo – mas não conseguiria, com certeza.

Digamos, para simplificar, que Paris é uma cidade francesa com milhões de estrangeiros, ou Londres uma cidade inglesa com quatro milhões de pessoas vindas dos quatro quadrantes do planeta; mas Nova Iorque, que tem apenas três milhões vindos de fora (38%) não se pode dizer que é uma cidade norte-americana. Não há nenhuma outra cidade dos Estados Unidos que tenha a mesma mística, ambiente igual e oportunidades parecidas. Talvez se assemelhe mais à “Cidade dos Mil Planetas” da banda desenhada “Valerian”, levada ao cinema por Luc Besson, (Se não leu ou viu, vá a correr comprar.)

Basicamente, num espaço relativamente pequeno, Manhattan e mais quatro bairros, milhões de pessoas de 190 nacionalidades vivem em inteira liberdade de falarem o idioma que conhecem, vestir como lhes apetece e fazer o que lhes dá na gana. Antes – isto é, antes de Hollywood e Silicon Valey – não havia nos conservadores Estados Unidos nada parecido. Não é por acaso que reza a música de Sinatra, “quem vence em Nova Iorque, vence em qualquer parte do mundo.” A competição é imensa, em todas as áreas – mas quem não quer competir, pode dormir no passeio, que ninguém o chateia. Bryan Ferry, dos Roxy Music (se não sabe quem é, vive no século XIX, com certeza) disse-me: “O que eu gosto em Nova Iorque é que posso andar à vontade que ninguém me conhece.” Conhecem com certeza, mas faz parte do espírito nova-iorquino considerar tudo normal.

Como é que uma cidade assim pode ser governada? Ao longo dos seus 250 anos conheceu de tudo, presidentes de Câmara corruptos, cleptocratas no poder, visionários e homens práticos, milionários e de classe média. Ainda, é claro, republicanos e democratas. Aliás, entre os mais carismáticos, Fiorello LaGuardia, Nelson Rockfeller, Blomberg e Giuliani eram republicanos. Parece estranho, numa cidade ultra-liberal, mas o facto é que NYC foi a cidade predileta dos muito ricos e os muito pobres, ou não cidadãos, não votam.

O que nunca tinha acontecido, em nenhuma cidade dos Estados Unidos, foi a eleição ser ganha por um “democrata-socialista”. (Como nunca ocorrera um Presidente da República negro...)

Tenham paciência, mas preciso de dar outra explicação prévia: “socialismo”, para os norte-americanos, é um insulto. O mesmo que chamar alguém de comunista. Traz logo à mente Estaline, os goulags, a fome da população, polícia política e, sobretudo, um Estado que não ouve a vontade dos seus cidadãos. Os Estados Unidos são o oposto: uma meritocracia que faz os ricos pagar a inércia dos pobres. Já houve partidos comunistas, socialistas, nazistas, etc. mas nunca chegaram a parte nenhuma.

No meu tempo, isto é, pós-II Grande Guerra, a única pessoa que se atreveu a declarar-se socialista e sobreviveu politicamente, foi o Senador Bernie Sanders, honra lhe seja feita pela coragem.

E agora, de repente, no cenário fascizante da Dinastia Trump, surge este jovem de 34 anos, que tem tudo o que os norte-americanos detestam – indiano, muçulmano, revolucionário, socialista – a fazer-se eleger Presidente da Câmara de Nova Iorque. Para 95% dos americanos e apenas 35% dos nova-iorquinos, este sacrilégio mostra que estamos a chegar ao fim dos tempos e o mundo está perdido. Além disso, Mamdani tem a garantia de uma perseguição total pelo vingador-mor do reino, o “big beautiful” Donald. Trump já não gostava dos nova-iorquinos (porque nunca o aceitaram nas altas esferas) e agora vai ter oportunidade de lançar o fogo dos céus sobre a cidade. Como, saberemos oportunamente, mas não vai ser bonito.

Agora, poucos dias depois da eleição, o que não faltam são opiniões, mapas pormenorizados das zonas que votaram em quem e mil justificações para a vitória de Mamdani – que ainda por cima promete um programa realmente socialista, com taxas sobre os ricos, escola a transportes públicos gratuitos, rendas controladas e outros pecados para o país do empreendedorismo, anti-segurança social universal e salve-se quem for mais esperto.

O que parece ter acabado definitivamente é a aristocracia italo-americana que durante décadas fez todas as aldrabices conhecidas da bíblia municipal. Cuomo, muito velha guarda, não abandonou os seus jogos de influência ancestrais. Curtis Sliwa nunca representou nada – ainda me lembro dele, na década de 1980, a percorrer as linhas do metro com um grupo com pinta fascista, os “Guardian Angels”, a chatear toda a gente. O preferido de Trump, Eric Adams, está comprometido nos vários esquemas de corrupção, nem o Rei o conseguiu safar, embora com certeza o vá amnistiar.

Pela terceira (ou quinta?) vez na vida, a cidade muda de rumo. Andar na rua a apreciar a fauna, frequentar os milhares de espectáculos de todo o tipo, desde o amador sem talento até à Broadway, isso não vai mudar.

A cidade que muda constantemente não vai mudar só por termos um estrangeiro legalizado a injectar-lhe vida nova.

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