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Henrique Gouveia e Melo nasceu em Quelimane, Moçambique, em 1960, e por ali passou os primeiros anos de vida, numa liberdade que também considera trazer responsabilidades. "Era um espaço muito mais amplo, lembro-me que os meus pais largavam-nos de manhã e de tarde nós recolhíamos a casa, sempre com horários", recorda em entrevista no programa Primeira Pessoa.

"A minha mãe nunca gostou muito de nos dar brinquedos, sempre achou que tínhamos de fazer os nossos brinquedos. Isso desenvolveu, quer em mim, quer no meu irmão, uma grande apetência para fazermos coisas com as mãos e desenvolvemos muito essas habilidades manuais. Quando nos davam um brinquedo queríamos destruí-lo para usar o motor noutra coisa qualquer", conta sobre os tempos da primeira infância.

Pelas raízes e pelo sítio onde nasceu, Gouveia e Melo diz-se constituído por duas partes. "Tenho uma dupla alma. A paisagem africana, os cheiros, os sons, as savanas são coisas que nunca saem da nossa memória".

A essa experiência juntou ainda uma temporada no Brasil, mas depressa os pais perceberam que o caminho era em Portugal. "Quando se é emigrante sente-se uma paixão pelo país. Começamos a desenvolver o saudosismo pelo nosso país e pelas nossas coisas. Eu fui desenvolvendo um saudosismo por um país que ainda não tinha conhecido bem mas que, de alguma forma, era o meu país, o meu lugar, a minha terra.

Desde cedo, teve ligação à água, tendo praticado natação de competição. Depois, passou para o mar sem fim: ingressou na Escola Naval em setembro 1979 e navegou nos submarinos Albacora, Barracuda e Delfim, exercendo diversas funções operacionais como oficial de guarnição e de comando.

"Queria ser militar. De alguma forma senti esse apelo de participar na vida portuguesa, de fazer parte de uma nova reconstrução e achei que ser militar era a coisa mais digna que eu podia fazer", nota.

Na Marinha, tem ainda vários cursos de especialização, entre os quais de comunicações e de guerra eletrónica, o que o torna uma autoridade na matéria no ramo, sendo também especialista em informações.

Foi porta-voz da Marinha e, antes de ser chamado para o Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA), era, desde janeiro de 2017, Comandante Naval na Marinha e, antes disso, chefe de gabinete do então Chefe de Estado-Maior da Marinha, almirante Macieira Fragoso.

Como comandante naval da Marinha, foi o responsável pelos trabalhos de recuperação pelo seu ramo em Pedrógão, na altura dos fogos, em 2017. "Nós militares, muitas vezes, servimos para coisas abstractas, segurança, etc., mas há momentos em que servimos a nossa população direta e sentimos o sofrimento deles, sentimos também a sinceridade quando nos agradecem. Foi uma experiência única, ainda tenho algumas marcas desse período. O sofrimento era único, o sofrimento alheio era muito".

No percurso da sua carreira, Gouveia e Melo foi ainda distinguido com diversas condecorações, como a Ordem Militar de Avis – Grau Comendador, oito Medalhas Militares de Serviços Distintos, a Medalha de Mérito Militar de 1.ª, 2.ª e 3.ª Classe, a Medalha da Defesa Nacional de 1.ª Classe, a Medalha Militar de Cruz Naval de 3.ª Classe, a Medalha Militar de Comportamento Exemplar – ouro e, mais recentemente, a Ordem de Mérito Marítimo por parte da Marinha Francesa e a Medalha da Ordem do Mérito Naval – Grau Grande Oficial, atribuída pela Marinha do Brasil.

Vestir o camuflado para a "guerra"

Contudo, foi durante a pandemia da Covid-19 que o país prestou mais atenção a Gouveia e Melo. Em fevereiro de 2021, foi nomeado coordenador do plano de vacinação.

"Há muita coisa para fazer, a lista é sempre grande. Imaginem o que é vacinar, de grosso modo, uma população por duas vezes de 10 milhões de habitantes", referiu na altura Henrique Gouveia e Melo, realçando que "as Forças Armadas apoiam o processo de vacinação e o o Ministério da Saúde", sem assumir "um controlo específico".

"A minha posição, agora como coordenador da 'task force', é mais um sinal do apoio das Forças Armadas a este processo", frisou.

Sob a sua liderança — sempre de camuflado vestido, em sinal da "guerra" que estava a travar contra a Covid-19 —, Portugal tornou-se um dos países com melhores taxas de vacinação — um feito que lhe valeu visibilidade mediática e prestígio junto da opinião pública.

Esse papel conferiu-lhe uma imagem de seriedade, responsabilidade e competência em contextos de crise — atributos que serviram de base ao seu apelo à presidência.

Militar ou presidente?

De farda militar ou vestido à civil, Gouveia e Melo diz ser o mesmo. "Sou a mesma pessoa, a casaca exterior muda mas a pessoa interior é a mesma. A própria função também me foi moldando ao longo do tempo. Somos o resultado do que éramos há muitos anos e do que a experiência nos trouxe", disse no programa Primeira Pessoa.

Por isso, não se estranhou quando surgiram, em setembro de 2021, os primeiros sinais de uma possível envolvência de Gouveia e Melo na política nacional, quando questionado sobre o tema — mesmo que tenha recusado a ideia numa fase inicial.

“Não sinto necessidade de dar [o meu contributo] enquanto político, primeiro porque não estou preparado para isso, acho que daria um péssimo político e também acho que devemos separar o que é militar do que é político, porque são campos de atuação completamente diferentes”, afirmou o vice-almirante Gouveia e Melo à Lusa, numa entrevista de balanço sobre o processo de vacinação.

“Já diversas vezes me perguntaram e eu tenho a certeza absoluta que há dentro do quadro democrático e da sociedade civil pessoas muito mais capazes para desempenhar esse papel”, sublinhou. “A política é uma arte de negociação permanente, nós [militares] somos menos negociadores, na nossa maneira de estar a rapidez da ação não exige de nós grandes capacidades de negociação, exige grandes capacidades de decisão e de decisão sob stresse”.

Para Gouveia e Melo, essa é uma das razões pela qual daria “um péssimo político”: “Falta-nos essa capacidade de negociar de forma muito aberta com todos os setores da sociedade e todos os interesses da sociedade e isso é uma coisa que os militares não estão habituados a fazer”.

“Temos preparações diferentes, são maneiras de estar diferentes e não devemos misturar isso. Se no passado houve essas misturas, ou houve necessidade dessas misturas, isso é o passado”, frisou.

E destacou: “Acho que não há necessidade de nenhum militar vir para a política, nós temos uma classe política muito desenvolvida e estruturada, a democracia está estruturada e terá os seus caminhos e encontrará sempre as suas soluções”.

Já em novembro de 2024, Gouveia e Melo anunciou estar indisponível para continuar mais dois anos na chefia do Estado-Maior da Armada, terminando o mandato em dezembro.

Contactado na altura pela agência Lusa, recusou fazer qualquer comentário sobre o processo e salientou que as reuniões do Conselho do Almirantado “são secretas”.

Depois, em dezembro, prometeu "nunca mais falar da Marinha" após terminar 45 anos de funções militares e passar a uma "nova fase" da sua vida.

"É altura de fechar um capítulo da minha vida e começar outro. Eu há 45 anos que sou militar. É a altura de deixar a Marinha em mãos mais jovens, mais capazes de continuar um futuro que é um futuro que todos nós desejamos", afirmou.

"A Marinha vai ter um novo chefe, vai ter um novo líder, tem todo o direito de fazer as opções que quer. E eu, no dia em que sair da Marinha, nunca mais vou falar da Marinha, porque isso é um assunto de quem está no ativo. Há muita gente que sai e que nós dizemos que era muito reservado no ativo e muito ativo na reserva. Eu vou tentar não fazer isso", antecipou.

Nesse momento, estavam dados os primeiros passos para o que viria a ser o anúncio da sua candidatura a presidente da República, mas ainda sem o afirmar diretamente.

Perante a insistência dos jornalistas sobre o seu futuro, Gouveia e Melo respondeu com ironia: "Os senhores veem em todos os meus atos qualquer coisa extraordinária. Eu não sei se posso piscar os olhos, porque se piscar os olhos também pode ter algum significado".

"A única coisa que vos posso dizer é que vou terminar 45 anos de serviço. É a altura de fechar um capítulo da minha vida e começar outro", insistiu.

O oficializar da candidatura

Henrique Gouveia e Melo revelou que a sua decisão de avançar para a candidatura à Presidência da República surgiu depois de ler uma notícia no Expresso, em outubro de 2024, que dava conta de que Marcelo Rebelo de Sousa pretendia travar a sua candidatura reconduzindo-o como chefe do Estado-Maior da Armada. Segundo o candidato, o artigo deixou-o “mesmo danado” e foi determinante para definir o rumo da sua entrada na política, apesar do que tinha dito anteriormente.

Para o candidato presidencial, que apresentou a sua candidatura em maio, o país precisa de um chefe de Estado “capaz de unir, motivar, dar sentido à esperança, capaz de ser consciência e exemplo, capaz de ajudar a mudar aquilo que precisa de ser mudado estável, confiável e atento”.

Em outubro, reforçou essa ideia. "Precisamos de um presidente que compreenda o mundo, que tenha uma visão clara, que domine os assuntos da defesa e que saiba orientar o país com segurança e confiança. Sem alarmismos, sem demagogia, mas, acima de tudo, com total transparência. O presidente não pode ser hesitante, nem um cata-vento, muito menos um demagogo ou populista", declarou.

"O presidente não pode ser o Cavalo de Troia de qualquer partido. Não está na Presidência para dizer sim a tudo, nem para derrubar governos à primeira oportunidade. Está lá para defender os interesses dos portugueses, para exigir em nome do povo uma governação responsável, que resolva os problemas das pessoas e sirva o bem comum", completou.

Pela sua parte, a Presidência da República não é encarada "como uma reforma dourada de uma carreira política, nem como um palco de vaidades e muito menos como palco de intrigas".

"Vejo-a como missão ao serviço de Portugal. A política não é o diz que disse. A política verdadeira é servir, é lutar pelos altos desígnios da nossa pátria", contrapôs.

Já este mês, em entrevista o Observador, admitiu a possibilidade de cumprir apenas um mandato caso seja eleito, explicando que o segundo "por norma corre menos bem".

Além disso, o militar reformado disse ainda ter a "impressão" de que houve uma tentativa por parte do Governo para o afastar, com o objetivo de proteger Luís Marques Mendes.

"Acho que é óbvio. Não é preciso ser um grande analista para se perceber que havia essa resistência à minha candidatura", afirmou.

"No outro dia, perguntaram-me quem era verdadeiramente o meu adversário e eu disse: ‘O meu adversário não está nestas eleições; o meu adversário está numa tentativa de olhar para a democracia ainda com os complexos do PREC, demonizar um militar que já não é militar, que se candidata como outro cidadão qualquer. E uma tentativa que reduz a democracia. Uma democracia madura não deve ter esses problemas.'"

Gouveia e Melo abordou também a hipótese de não passar à segunda volta, afirmando que a sua candidatura "morreu nesse dia" e sugerindo que, caso Ventura avance, o seu voto será no outro candidato: "Todos nós, os que pugnamos pela democracia, não temos nenhuma dúvida se for esse o cenário."

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