Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
Em junho de 1976 andava por Lisboa a vender porta-a-porta cabides "Manequim", a marca fundada pelo bisavô, João Pinto Figueiredo, e que depois passou para o pai. É alfacinha, mas foi pequeno para o Alentejo, onde viveu até entrar para a escola. Estudou na Escola Alemã de Lisboa, formou-se em Economia na London School of Economics, em Londres, e de regresso fez um MBA em Administração, Negócios e Marketing, na Universidade Nova de Lisboa.
Enquanto andou por Inglaterra, teve vários empregos, como muitos estudantes estrangeiros, e chegou a servir cocktails na Serpentine Gallery, uma prestigiada galeria de arte contemporânea fundada em 1970, situada em Kensington Gardens, um espaço público dedicado à exposição de artistas emergentes e projetos inovadores.
Lembra que nesse tempo comeu muitas couves-de-bruxelas, um vegetal barato e que podia confecionar de todas as maneiras e feitios. Não é de extravagâncias, diz, mas certo dia, numa fase em que contava o dinheiro para comer, comprou um gira-discos com umas colunas "péssimas". Nos dias a seguir passou alguma fome à conta do gira-discos, mas não se arrependeu.
Ainda hoje gosta de cozinhar, embora tenha dificuldade em fazer duas vezes a mesma coisa. Como na vida, arrisca — é impaciente e considera a prudência sobrevalorizada. Tem muitas comidas de conforto, mas gosta sempre de voltar ao "Toucinho", em Almeirim, para uma sopa da pedra, "toda a beleza da cozinha num prato".
Filho de peixe sabe nadar: o pai era economista e empresário, ligado a empresas do Grupo Mello uma parte da vida; a mãe uma funcionária pública, "das primeiras mulheres em muitos dos serviços por onde passou". Em Portugal, João Cotrim de Figueiredo liderou a Compal e a Nutricafés, passou pela Privado Holding, dona do Banco Privado Português (já depois da intervenção do Estado), foi diretor-geral da TVI e presidente do Turismo de Portugal.
No setor privado, a passagem pela TVI foi um desafio de que gostou, apesar de não ter "o melhor acionista do mundo, porque estava em situação financeira difícil e olhava para a Media Capital como um porquinho mealheiro. Por isso ou por escolha, tinha uma visão pragmática e pouco imaginativa do que era o negócio da comunicação, que me surpreendeu muito", o que lhe valeu diversas decisões polémicas.
Faz parte do grupo dos que defendem a privatização da RTP. "A posição sobre a venda da RTP é de princípio, as minhas anteriores responsabilidades que tive não têm qualquer relevância para essa opinião". De resto, acredita que se devia privatizar não só a RTP, mas também a TAP e a Caixa Geral de Depósitos.
No caso da RTP, afirma que "não faz sentido gastar 200 milhões por ano — pagos em faturas da eletricidade, mais ou menos às escondidas — numa licença de televisão para produzir aquilo que os canais privados também produzem". O mesmo com a CGD, "que acaba por ser igual a qualquer banco privado, com a diferença que nem sequer é mais barato, nem sequer dá mais apoio às pequenas e médias empresas".
Em relação à TAP, "não faz sentido o governo ter uma companhia aérea, já lá vai o tempo em que havia companhias de bandeira, uma coisa estratégica, não sei bem porquê — se para transportar armamento ou medicamentos ou tropas ou para evacuação de portugueses refugiados", ironiza.
Por oposição, há áreas das quais o Estado não se deve demitir, como o investimento nas infraestruturas para a energia, as telecomunicações ou transportes. "Ao contrário do que muitos querem fazer crer, defender menos Estado não é atacar o Estado. O Estado estará sempre lá também como regulador e nunca perderá o seu papel de garante".
No setor público, Cotrim de Figueiredo foi presidente do Turismo de Portugal entre 2013 e 2016. Critica um Estado com "intervenção em sítios que não devia", mas diz que a AICEP e o Turismo de Portugal, ou seja, a captação de investimento e promoção do turismo, são "exceções".
Passou pelo crivo da Cresap, a Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública, mas nem por isso acredita que esta é uma boa solução para as contratações públicas. Sabe que era quem o ministério gostaria de ter recrutado; se foi sorte ter ficado na shortlist ou se já estava tudo combinado, admite, não sabe.
Apesar da nomeação, não teve direito de escolher nenhum dos seus colegas, uma regra que considera "pouco eficiente". No caso, "acabou por não funcionar mal, mas podia ter funcionado melhor".
Quando chegou ao turismo, não se sabia quanto valia na economia. Impôs uma conta satélite e sabe-se agora que vale cerca de 16,6% do PIB, qualquer coisa como 34 mil milhões de euros.
O primeiro deputado liberal dos tempos modernos
Quando soube que tinha sido eleito deputado, João Cotrim de Figueiredo e a Iniciativa Liberal seguiam com muita atenção os resultados das legislativas de 2019 que as televisões iam anunciando; já sabiam que tinham ultrapassado os 60 mil votos. "De repente, tive a visão do Estádio da Luz com mais de 60 mil pessoas a olhar para mim com expectativa. A responsabilidade que isso dá fez-me sentir muito pequenino", descreveu na altura.
A imagem do Estádio da Luz não representa uma afinidade com António Costa — "nunca misturamos política com futebol". Aquilo que um e outro defendem para o país, aliás, não podia estar mais afastado, pelo menos que diz respeito à forma de o atingir.
"Portugal ainda está muito no lado racional e analítico, que provoca aversão ao risco, medo de errar e, até, o estigma do falhanço", diz. "Faltam políticas liberais" — "as pessoas estão hoje mais preocupadas em manter o que têm do que a ambicionar algo mais. Mas o que têm é muito, muito pouco. Continuamos com um salário médio base a rondar os mil euros 45 anos depois do 25 de Abril, é uma vergonha".
Lembra que os países que nos ultrapassaram ao longo dos anos têm políticas marcadamente liberais, enquanto nós "fazemos o contrário, infantilizamos os portugueses, tratamo-los como se não soubessem escolher sozinhos ou como se fossem malfeitores, exigindo quase o registo criminal para poder comprar o passe social".
Na Iniciativa Liberal encontrou pessoas que, como ele, acreditam que Portugal e os portugueses merecem e são capazes de mais. Basta "que os deixem ser livres e autónomos, que o Estado não lhes tolha os passos, que os poderes políticos e todos os outros não os impeçam de procurar o melhor para si e para as suas famílias". É isto um Portugal mais liberal.
Pai de quatro filhos, divorciado desde 2010, aos 58 anos aceitou entrar na política porque não conseguia "ficar sentado enquanto o país marca passo e não dá à geração dos filhos metade das oportunidades" que a sua geração teve. Passaram seis anos e, aos 64, prepara mais uma mudança e candidata-se à Presidência da República por não se "sentir representado por nenhum dos restantes candidatos".
"Não estou disponível para estar na política até aos 70 anos. Não estou"
O tempo em que a IL não tinha sede e a campanha funcionava a partir da casa de Cotrim de Figueiredo já vai longe, tão longe como o pequeno-almoço com Carlos Magalhães Pinto na Versailles, o número um, em Lisboa. De lá para cá, foi e deixou de ser presidente da Iniciativa Liberal, trocou a Assembleia da República pelo Parlamento Europeu e agora quer deixar Bruxelas e Estrasburgo para ser presidente da República, um cargo não executivo.
Atirou a toalha ao chão depois de António Costa, então primeiro-ministro, chamar aos liberais "queques que guincham". Sentiu-se atingido e, semanas depois, admitiu que, tristemente, "esta limitação é tão verdadeira que as luminárias do Partido Socialista já a tinham detetado. Eles sabem que se nos conseguirem colar a uma certa imagem de elitismo, estabelecem um teto no crescimento da Iniciativa Liberal que nos impede de fazer aquilo que queremos".
Numa entrevista ao 24notícias, no dia em que Rui Rocha assumiu as rédeas do partido, acreditava além do mais que a IL teria, no novo ciclo eleitoral, "responsabilidades governativas ou importantes a nível do governo do país, um acordo parlamentar" que fosse.
Isso, pensava, iria obrigá-lo, "a partir de 2026, a ter um compromisso até 2030. E em 2030 terei 70 anos, basicamente. Não estou disponível para estar na política até aos 70 anos. Não estou. Lamento muito, podem pedir-me muita coisa, e há muita coisa que eu dou ao partido sem ninguém me pedir, mas só entrei na política ao 58, não vou ficar na política até aos 70".
Mas é exatamente a isso que se candidata agora, a ficar na política até ao 70 anos, já que o primeiro mandato na Presidência da República (e em democracia têm sido sempre dois) terminará quando tiver 69 anos — a menos que nunca tenha acreditado que pode vir a ser o próximo presidente. Mas, neste caso, também não teria aceitado ser cabeça-de-lista da IL na lista para a europeias, que o levaram ao Parlamento Europeu, onde é deputado (2024-2029).
Quando se afastou da liderança da IL, e na entrevista já mencionada, João Cotrim de Figueiredo respondeu assim a uma das perguntas: "O Parlamento Europeu está fora de questão?" "Se eu já acho que o parlamento português está relativamente longe da mão na massa e das mudanças concretas, o Parlamento Europeu ainda mais". Ou seja, Bruxelas não era um objetivo. Mais tarde, viria a justificar que foi pressionado para isso e mudou de ideias.
Sofre de curiosidade crónica e tem cabeça de economista. E uma certeza: "É possível criar estímulos e mudar as coisas". "Portugal é, há demasiados anos, um dos recordistas europeus no consumo de ansiolíticos. A cada momento, 40% da população acabou de tomar, está a tomar ou vai tomar ansiolíticos, uma coisa para a depressão, para a angústia, para o mal-estar geral e a tristeza. Que raio de sociedade criámos em que a única maneira que as pessoas têm de conseguir funcionar, de passar de dia para dia é com ansiolíticos? Não é normal".
O melhor presidente da República em democracia foi, na sua opinião, Ramalho Eanes. Candidata-se ao cargo porque "os outros candidatos são uma chatice, não excitam ninguém". O facto de Gouveia e Melo "ter sido militar não era um problema, mas achei-o tão chato como Seguro e Marques Mendes, disse num podcast. "Seguro não entusiasma ninguém" e "Marques Mendes é o Marcelo da Temu, há 40 anos na vida política e na advocacia de negócios, não vai pôr nada em causa".
Viu um buraco no panorama. Admite que não vai ser "um paladino do liberalismo", mas não esconde as suas ideias. E quer "um país moderno", "que funciona no dia a dia", "aberto à mudança": "Olho para este país e gostava que fosse mais avançado, menos cinzento, menos bafiento, mais arejado e muito mais moderno", afirmou numa entrevista ao Porto Canal.
Se fosse uma personagem de ficção, seria MacGyver
Admira muita gente, "toda a gente que faz coisas melhor do que eu", pessoas que conhece apenas de vista ou mesmo que nunca viu pessoalmente, mas de quem conhece a obra. É o caso de Stephen Fry, "pela erudição, pelo humor, pelo espírito".
Se fosse uma personagem de ficção, seria MacGyver: "Sou muito mais de fazer do que de ficar a pensar e gosto de soluções expeditas e imaginativas". Embora o cargo de presidente não seja executivo, garante que uma das coisas que faz bem é "ir buscar pepitas de ouro, gente escondida nos feitios mais difíceis, pessoas muitas vezes um pouco à parte". Na Presidência da República pode ser uma vantagem.
Poucas coisas tiram João Cotrim de Figueiredo do sério; perde a cabeça quando vê alguém maltratar outra pessoa, sobretudo se for alguém indefeso. "Sou daquelas pessoas que se mete nas discussões alheias — e sei que não devia, provavelmente, mas como se trata de perder a cabeça, não tem de fazer sentido". Também o irrita a falta de lealdade, "a quebra de compromisso com um laivozinho de desrespeito pessoal".
O facto de ter ocupado diversos cargos de topo, diz-lhe que "o exercício do poder é bastante solitário, quando não se pode confessar as fraquezas, as dúvidas. Quando as pessoas não têm a tal formação, o caráter, acabam por contrair uma carapaça de certezas e de omnipotência por não ter uma zona de equilíbrio, e isso torna-as muito permeáveis".
Mas não acredita que razão e emoção sejam duas coisas separadas. "Penso que quando uma pessoa tenta dividir o mundo, a forma de gerir, de discutir política nessas duas dimensões, está propositadamente a querer diminuir a outra - ou porque não sabe ou não quer saber ou não lhe dá jeito. Eu abraço as duas com igual vigor: sou incapaz de tomar uma decisão se não a "sentir" e sou incapaz de fazer uma coisa sem pensar se não estarei a ser enganado por alguma emoção menos útil. São duas faces da mesma moeda, a pessoa é feita disto, a vida é feita disto e a política é feita disto".
Defender a União Europeia a partir da Presidência da República
Portugal já recebeu mais de 160 mil milhões de euros em ajudas da União Europeia desde a adesão, em 1986. "O país que temos não reflete isso, não tirámos o máximo benefício que poderíamos desses fundos. Não estamos preparados para viver com menos fundos e um dia até sem fundos".
O que é que para si é estratégico na Europa? "A autonomia na Defesa, por exemplo, é estratégica. Não posso depender dos humores ou interesses dos meus aliados para defender os meus. A capacidade de reação a catástrofes também, não posso estar dependente de terceiros para reagir rápida e eficazmente. A energia também tem aspetos muito estratégicos, sobretudo na distribuição, porque a geração de energia vai-se tornando cada vez mais fácil, mas a distribuição tem de ser muito mais fluida".
Lembra que a União Europeia vai ter de começar a pagar o empréstimo de 806,9 mil milhões de euros que contraiu para responder à Covid-19 e para se modernizar [PRR] já em 2028. Diz que a Europa tem de se reformar e os políticos precisam de ter coragem para correr riscos, mesmo quando à primeira vista as medidas podem parecer impopulares e é preciso enfrentar a opinião pública do momento.
"Há muitas outras coisas em que a Europa precisa de coragem para se reformar. Mais do que a estatura política de quem possa estar a ocupar cargos de responsabilidade na União Europeia, preocupa-me a capacidade dessas pessoas de correrem riscos, a capacidade de estar à frente do ar do tempo, da opinião pública do momento, de saber inspirar as pessoas para dar um passo que eles próprios não estariam a pensar tomar, mas que é para um bem maior".
No Parlamento Europeu, está no grupo Renovar a Europa, mas depressa percebeu que dificilmente um eurodeputado consegue fazer alguma coisa verdadeiramente importante para a reforma da Europa, "é um mastodonte difícil de mexer". "Percebi que o que queria ia emperrar no Conselho Europeu, onde estão os primeiros-ministros e presidentes executivos dos diversos países".
Não é à toa que considera que a pior profissão do mundo é a de um burocrata,"estar sentado a uma secretária a enviar regulamentos para outros, acho que me suicidava". Por isso, reconsiderou e propõe agora defender o projecto europeu a partir do país. "Como não tenho hipótese de o fazer como primeiro-ministro, a maneira é fazê-lo com presidente da República". "Se a Europa não for mexida, implode".
Não tem mais medo da extrema-direita do que da extrema-esquerda. O exemplo mais clássico "são os fundamentalistas climáticos, que estão todos reunidos à volta dos grupos mais à esquerda do Parlamento Europeu", ou aqueles que querem acabar com a UE ou a NATO.
Mas "nunca foi através de imposições ou proibições que qualquer política se conseguiu impor", recorda. É contra as cercas sanitárias, "a história recente prova que não funcionam. Tem havido várias cercas sanitárias e o resultado tem sido sempre o crescimento sustentado desses partidos". Prefere "tirar-lhes o oxigénio", leia-se "as razões de queixa em que baseiam uma série de teorias, algumas da conspiração, que colam o suficiente para lhes dar tração e audiência".
"Esta geração europeia vai ser a primeira que vai viver pior do que os pais, não sei se alguém dorme com esta noção. Eu não durmo. Já sou da geração que beneficiou com esta circunstância e sinto-me responsável por ela", afirma João Cotrim de Figueiredo.
E dá o exemplo de algumas dessas políticas ou da ausência delas: "Quando se deixa as migrações serem uma coutada exclusiva dos partidos de extrema-direita, está-se a dar oportunidade a esses partidos". "As migrações são algo positivo para as pessoas que procuram outras oportunidade e para as economias que as recebem. Por isso, é algo que encaramos com a maior das naturalidades e com apreço. Mas percebemos que esta perceção de descontrolo, que é um misto de falta de organização e falta de fiscalização, que conduz à falta de integração, é altamente nociva. No mínimo, devíamos estar a exigir que as regras que já existem sejam cumpridas".
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários