Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
Muito do pessoal hospitalar e das morgues que era fonte está na prisão. As atrocidades da brutal repressão, cujos relatos fragmentados nos chegam através de sobreviventes, graças a uma internet instável, são como mensagens dispersas em garrafas lançadas num mar de crimes. Um mês depois, a repressão conseguiu, por agora, calar grande parte da rua. Nem a crise ficou fechada, nem a ameaça de Donald Trump de poderosa intervenção armada dão tranquilidade à aliança de poder formada pelo guia supremo, Ali Khamenei e pela guarda revolucionária.
Muitos milhares de iranianos desafiaram no último mês um regime que abriu fogo sobre eles até com mais crueldade que nos anteriores protestos que se sucedem há mais de uma década. O poder da ditadura recusa sempre recuar.
Trump incitou os manifestantes a que continuassem na rua, prometeu-lhes que a ajuda “estava a caminho”. Uma “imponente armada” já chegou ao Golfo Pérsico, mas os objetivos do possível ataque anunciado por Trump são militares: o que está na linha de mira são os lugares dedicados pelo Irão ao desenvolvimento de energia nuclear e de mísseis balísticos.
O protesto dos estudantes, das mulheres, dos comerciantes, de facto, de muito do sofredor povo iraniano fica esquecido.
É reconhecido que a intervenção militar terrestre dos americanos no Irão é impensável. Os fantasmas da ocupação do Iraque seguem vivos. Os influentes países da região repetem avisos aos EUA para os altos riscos da abertura de uma guerra com o Irão. A Arábia Saudita, sunita, opõe-se ao regime xiita do Irão, mas não quer uma guerra na região. O poder no Qatar ou na Turquia pensa o mesmo. Não gostam do regime iraniano mas não querem mais instabilidade na região.
O que fazer, então, para mudar o regime iraniano? As manifestações não bastam para derrubar uma ditadura, mesmo que debilitada, embora sejam alento para a mudança política. Falta um empurrão mais forte. Em modo ideal, um empurrão vindo de dentro, mesmo que orquestrado do exterior.
Há indícios de clivagens na atual cúpula de poder. Não serão ainda significativas para levar à queda do regime, mas a contínua deterioração das condições de vida pode acelerar tudo.
Alguns analistas pensam que um ataque militar cirúrgico a posições de comando da guarda revolucionária poderia impulsionar a transição pacífica para novos dirigentes. Mas o Irão não é a Venezuela, o regime continua muito escudado.
O topo da atual ditadura, cujo sistema emergiu de uma revolução popular em 1979 (a revolução Khomeini), ainda se lembra do golpe contra Mossadegh promovido pelos EUA e pelo Reino Unido em 1953 (deu o poder ao Xá Reza Palhavi). É assim que os líderes da atual teocracia, até agora, lidaram com os protestos sem ceder um milímetro às exigências da rua.
Os que com valentia protestam nas ruas lembram o que aconteceu no Iraque para concluir que Washington não tem a boa receita para a liberdade.
A Nobel da Paz Narges Mohammadí defende a transição pacífica sem interferência externa. Mas entre a diáspora (mais de seis milhões dos 90 milhões de iranianos) há muita gente a desejar a intervenção dos Estados Unidos para mudar o regime.
É muito ampla a recusa da República Islâmica, mas também é muito grande o temor de caos, violência e de guerra civil. É reconhecido que o regime ainda conserva muito apoio.
Os iranianos, vítimas da opressão, ainda têm pela frente muito sofrimento.
__
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários