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O episódio seis de "Não fica bem falar de..." começa com a explicação da nutricicionista sobre a relação das pessoas com o peso. “Começamos logo na adolescência, por causa da pressão social para caber num determinado tamanho, mais tarde para “recuperar o corpo” depois de um parto. São muitas condicionantes e a maioria das mulheres vive em conflito com esta questão.”

Ao contrário da ideia de que o peso deveria ser estável, a realidade biológica diz o oposto. “O nosso peso vai variando ao longo do tempo”, sublinha Marta. “Aos 40 anos, ter o mesmo peso que aos 20 não é realista nem necessariamente saudável. O corpo já passou por uma série de transformações.”

Essas mudanças acontecem até dentro de um único mês. “Durante um ciclo menstrual, o corpo flutua”, lembra Carmo Sousa Lara. “É normal.”

No caso de Carmo Sousa Lara, a relação com o corpo e o peso tornou-se particularmente difícil nos seus 20 anos. “Foi um ponto muito escuro da minha vida, em relação ao peso, ao corpo e à comida”, conta. “Ganhei uma compulsão alimentar. Tanta transformação, tantos problemas, e eu não estava a saber gerir. Isto não acontece de um dia para o outro.”

A adolescência foi o início desse processo. “Foi aí que começaram as comparações”, recorda. “Eu sentia que destoava das minhas amigas, que era mais larga, que tinha mais peso. Vieram as dietas, o efeito ioiô… e nada funcionava.”

Mesmo seguindo planos alimentares rigorosos, os resultados não apareciam. “Fazia tudo certo e nem assim chegava aos objetivos. Sentia que respirava e engordava”, diz. Foi nesse momento que começou a questionar não o corpo, mas o discurso à volta dele. “O problema não era falta de força de vontade. Era preciso um olhar mais próximo da saúde mental e física.”

Curiosamente, foi durante a gravidez que Carmo Sousa Lara sentiu, pela primeira vez, uma espécie de alívio. “Ao contrário de outros momentos da vida, na gravidez senti que havia permissão. “Agora podes, ninguém te vai julgar.” Para quem tem um distúrbio alimentar, isso foi decisivo.”

Essa ausência de restrição teve um efeito inesperado. “Quando me permiti, parei”, explica. “A compulsão está muito ligada ao cérebro. Quando tudo é “não podes”, vive-se em constante restrição.”A nutricionista Marta Magriço reforça que o aumento de peso na gravidez não só é normal como necessário. “É um ganho fundamental para permitir que o bebé cresça. Parte é para o bebé, parte para a placenta, parte para a amamentação. Não é realista achar que aquilo que se ganhou em nove meses vai desaparecer em três semanas.”

Se durante a gravidez o julgamento parece suspenso, no pós-parto ele regressa, muitas vezes com mais força. “Um ano depois é que comecei a sentir pressão”, conta a criadora de conteúdos digitais. “Uma preocupação transforma-se em obsessão. Volta a restrição, volta o desequilíbrio, volta a compulsão… e volta o peso.”

Para Marta Magriço, este é um dos períodos mais delicados da vida de uma mulher. “A nutrição no pós-parto é fundamental”, explica. “Ajuda na cicatrização, no equilíbrio emocional, no cansaço extremo. Nutrientes como hidratos de carbono, zinco e selénio são essenciais.”

A alimentação tem impacto direto na fertilidade, no ciclo menstrual e em patologias como a endometriose ou a síndrome dos ovários poliquísticos. “Utilizamos os nutrientes de forma diferente ao longo do ciclo”, explica Marta. “Na fase menstrual, o ferro é essencial; na ovulatória, os hidratos de carbono. Um ciclo equilibrado ajuda não só a engravidar, mas também a reduzir sintomas.”

Por isso, defende um acompanhamento que vá além do peso. “Não se deve isolar o peso do resto. Há uma riqueza enorme num acompanhamento multidisciplinar, que olhe para o sono, o stress, a saúde mental.”

Carmo Sousa Lara lembra um momento marcante numa consulta médica. “A minha endocrinologista não me pesava. Um dia perguntei porquê e ela respondeu: “Mas tu queres?” Disse-me que o peso não era o marcador mais importante para avaliar a minha saúde.”

Apesar de avanços no discurso público, o preconceito continua presente. “É o mais clássico para quem tem excesso de peso”, diz Carmo Sousa Lara. “Em consultas, em lojas. “Perca 20 quilos e depois volte.” “Não há roupa para si.’”

Muitas mulheres sentem que as suas queixas médicas não são levadas a sério. “Tudo é condicionado pelo peso”, acrescenta.

Ativa nas redes sociais sobre o tema, Carmo Sousa Lara também lida com críticas. “Já me acusaram de promover a obesidade”, revela. “Mas o que promovo é literacia física e mental. A obesidade é uma doença e tem tratamento. Isso não significa que eu vá odiar o meu corpo enquanto estou doente.”

Paz com o corpo: parar uma guerra interna

Hoje, Carmo Sousa Lara descreve a sua relação com a comida como algo finalmente pacificado, com ajuda médica. “Há uma desregulação cerebral do apetite. Não tem a ver com força de vontade nem com “comer menos”. Quando não estava medicada, pensava em comida o tempo todo.”

Questionado sobre qual o caminho para uma alimentação equilibrada, Marta Margriço afirma:: “O melhor conselho é parar esta batalha com o corpo e aprender a respeitar os sinais que ele dá.”

Carmo Sousa Lara concorda. “Parar a guerra que levamos connosco uma vida inteira é o maior gatilho para conseguirmos encontrar o resto..”

Sobre o que “fica bem falar sobre peso”, Marta Magriço responde que “não é só um número na balança, é muito mais. Não nos define enquanto pessoa e não define o que merecemos enquanto pessoas.

Carmo Sousa Lara sublinha tudo e reforça acrescentando que “ não somos um peso na balança, uma etiqueta ou um rótulo. Somos válidas e merecemos tudo aquilo que somos. Fica bem dizer que não está num tamanho”.

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