Não vou contar aqui a longa história da Companhia Emissora Inglesa (British Broadcasting Company), que em 1927 passou a empresa pública e começou mesmo antes da II Guerra Mundial com emissões experimentais de televisão. Actualmente a BBC tem muitos serviços de rádio e várias emissões de televisão, além de estar presente na Internet.
O modelo de negócio também é de 1927: as receitas vêm de uma “taxa de televisão” paga pelos utilizadores ingleses e, no resto do mundo, pelos contratos da BBC Internacional com milhares de operadoras. (Em Portugal, só a NOS é que não renovou o seu contrato, por razões misteriosas.)
Desde sempre que a BBC, como empresa pública e órgão de comunicação social, considerou-se obrigada a manter a imparcialidade em relação ao governo vigente e conforme a ética editorial jornalística. Estas duas obrigações têm sido objecto de incontáveis disputas, uma vez que a imparcialidade é um valor sempre discutível. Os temas escolhidos e os esquecidos, e a abordagem aos acontecimentos implicam forçosamente numa opinião; por mais imparcial que um órgão de comunicação social queira ser, é impossível sê-lo. Mas pode-se dizer que o padrão da BBC é cuidadosamente verificado diariamente. Quando, em 1966, o Qatar decidiu fazer uma televisão muçulmana em vários idiomas, foi buscar à BBC dezenas de funcionários, tentando assim ser o melhor canal do mundo árabe.
Os “escândalos” começaram logo na rádio e depois passaram para a tv, com parlamentares, figuras públicas e espectadores a queixar-se de parcialidade nesta ou naquela matéria. Mesmo assim, a BBC conseguiu passar incólume, em raras instâncias retratando-se de não ser 100% equitativa, seja lá o que isso for.
A atual crise começou com a publicação no jornal de direita “The Telegraph” de um “relatório devastador” de Michael Prescott, o jornalista de política que passou três anos como conselheiro externo da estação. O documento alega que o programa “BBC Panorama” editou um discurso de Trump para parecer que ele defendia os revoltosos de 6 de Janeiro no ataque ao Capitólio, que a cobertura da situação em Gaza favoreceu sempre o ponto de vista do Hamas, e que um grupo de funcionários LGBTQ tinha uma influência excessiva na cobertura de questões de sexo e género.
Como a emissora não respondeu imediatamente às acusações (como aliás muito olimpicamente costuma não responder), o “Telegraph” atirou logo que o silêncio provava a seriedade do problema e o famigerado ex-primeiro ministro Boris Johnson meteu-se no barulho, atacando Nick Robinson, o único da BBC a falar publicamente das acusações.
É claro que os tabloides ingleses aproveitam tudo o que é espremido e possa fazer sangue, prolongaram os ataques à direção da BBC, (o “Mail on Sunday”, por exemplo) e a secretária de imprensa de Trump disse que o vídeo dele (que existe e fala por si) tratava-se de “100% fake news”.
Tim Davie, o Diretor da BBC apresentou a sua resignação, especificando que era uma decisão pessoal – aliás, uma especificação muito infeliz, porque vinha de certo modo reforçar as acusações. Ou as considerava pertinentes, ou estava farto de aturar os tabloides, não sei.
Logo a seguir a CEO da BBC News, Deborah Turness, também se demitiu, reforçando o ponto de vista dos jornais de direita.
Na verdade, as demissões foram um sinal de fraqueza, independentemente de serem verdadeiras ou falsas, mas vêm do ataque constante que os tabloides (todos de direita) fazem à BBC por não ser “imparcial”.
Michael Prescott, o acusador original, declarou que nunca teve partido e não estava a seguir nenhuma agenda política. Segundo ele, o programa sobre Trump devia ser seguido por outro sobre Kamala Harris.
Ora, isto é uma lógica da batata, perdoem-me a vulgaridade; a candidata democrata não fez nunca nada que se assemelhe nem de perto nem de longe ao discurso de Trump naquele fatídico 6 Janeiro, quando tentou virar do avesso o voto popular com um grupo de fanáticos.
Prescott também foi buscar mais exemplos, como quatro programas que, segundo ele, apresentavam de uma forma simplista e distorcida do racismo colonial inglês. Este é um tema que causa sempre ondas de choque no Reino Unido, como aliás acontece em qualquer país colonialista no passado e “woke” na atualidade.
Todas estas polémicas – Trump, racismo, LGBT, conflito Israel-hamas – são hoje debatidas com pouca equidade; a direita acusa sempre a comunicação social de ser de esquerda, e a comunicação social responde que não é. Isto está a acontecer no mundo inteiro – quer dizer, no mundo que tem comunicação social livre. Por exemplo, o apoio aos muçulmanos no Serviço Árabe da BBC, deixou os judeus, como de costume, “incomodados.
O que é chocante, na minha opinião, e de muita gente, é que figuras dirigentes da BBC não tenham tido estômago para ir à luta. Prescott, sendo conhecido pelo seu trabalho a favor de várias causas conservadoras, é amigo de várias figuras da direita inglesa, como Robbie Gibb, que lançou o canal de direita GB News.
Estas polémicas entre a direita e a esquerda sempre existiram, e agora existem ainda mais; não fossem as duas demissões na BBC, os ataques de Prescott e companhia – Nigel Farrage também salta à vista – em breve seriam sepultados por outras acusações.
Tim Davie, um jornalista experiente, devia ter pensado nos efeitos maléficos da sua demissão antes de pensar na sua saúde...
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