Liberdade pode ser isto – nenhum peso nas mãos.

Comecemos pela ladra. Deixou a janela aberta e a luz acesa toda a noite. No teto contou oito mosquitos. Antes de se deitar, atirou as meias de vidro rasgadas ao lixo. Descolou os brilhantes da testa. Isso de querer limpar os glitters mas ser só capaz de arrastá-los para outros pontos do rosto causa frustração. E aquela miúda a impingir-lhe a maquilhagem na casa de banho da discoteca, o som tão alto, o corpo tão cansado, os olhos ardendo do azul elétrico, um azul gritando sem cessar, não houve energia alguma para impedi-la, um losango de pontos de luz entre os dois olhos, no Ajna, sussurrou-lhe a miúda – parecia saída de uma floresta –, sobrevivente, umas tiras de couro a tapar mamas, púbis e metade do rabo, os cabelos molhados, lá fora chove, descalça, coisa absurda olhando-se os cacos dos copos espalhados em vários pontos. Explicando-lhe, tão doce, que era aquele o terceiro olho, a cor índigo. A visão extrassensorial, a intuição, alimenta a tua intuição. Falo de outros níveis de consciência, falo do que há para lá da matéria. Transcendência, clarividência, imaginação. Crescia a vontade de bofeteá-la. A estranha – uma mais querendo ligar-se na noite, a noite faz e desfaz intimidades – alertava para os perigos do bloqueio desse chakra, o sentido perdido, a desconexão, a frustração, a dificuldade em tomar decisões, uma tensão que não se solta, não se solta, solta-te, o sussurro no ouvido. Terminara a aplicação dos brilhantes, abriu-se num grande sorriso, saiu pela porta tocando no ombro de todos com quem se cruzava. E eu olhando-me no espelho, fixa, séria, logo empurrada por uma bêbeda que queria retocar os lábios, marcar melhor o beijo seguinte.

Rui Miguel Pinto junta-se ao É Desta Que Leio Isto no próximo encontro, marcado para dia 23 de março, uma segunda-feirapelas 21h00. Consigo traz "O Segredo de Tomar", publicado pela Porto Editora.

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Saiu dali entediada, uma espécie de náusea pelo excesso de tudo, tudo é demasiado, mas nada não é suficiente, sabe-se que saiu dali cansada. E a impaciência. Sou impaciente. Alguém me está a ligar. Olho o ecrã e não respondo. Este equipamento tem obsolescência programada, como eu. Sorria para a câmera que vigia a pista de dança. Não sorrio para os humanos. Ali estava demasiado calor, a mente derretia. Ali proibiu-se o silêncio – suspeito. Apagou-se a palavra silêncio. Se a não podemos nomear, não existe. A contemplação do vazio? Ali – proibida. Horror ao vazio! Proibido o vazio. A sua aversão pelo espaço, pelas conversas, pelas pessoas a afirmar-se. Passou pelos corpos dançando, onde é que se compra um punhado de dinamite?, mantém-te em movimento, alegre e mortal, a placa da saída, onde está a placa de saída, ao aproximar-se dela, viu uma mala abandonada numa mesa. Não fiz esforço algum para vê-la, estava mesmo ali. Pegou-a descontraidamente. É uma mulher que rouba todas as carteiras que encontra. Não por necessidade, ou pelo dinheiro contido no interior, não por cobiça de qualquer objeto, não por cobiça da própria mala. Com rigor, é uma mulher que rouba todas as malas que tendem a ser vendidas na categoria senhora. Não todas, somente as que têm uma pega para uma ou para duas mãos. Não lhe interessavam, por exemplo, as malas de tiracolo. Só essas com a peguinha pequena para ser segurada. Sou essa mulher. Despejou o interior da mala em cima da mesa, como sempre o fazia, e levou-a. Levei-a. Não para venda, não para contrafação. Um gajo barrou-me. E aquele sorriso de parvo.

– Levas isso porquê?

– Porque me apetece.

– OK.

«Entre os animais selvagens não se encontra nenhum mais nocivo do que a mulher.» S. João Crisóstomo. «Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem; e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher.» Pitágoras. «Quando eu entro eu viro o jogo/ Incendeio, eu ponho o fogo/ Eu sou perigo, muito prazer.» Anitta a tocar lá dentro. Dançar foi bom para descomprimir, tenho acordado com o maxilar tenso, parece que durmo de dentes cerrados. Será que durmo de dentes cerrados?

Folhas voam em círculos na estrada, parecem compreender o estímulo sonoro, a fonte sonora. Não as quero manietadas. O caixote de lixo mais próximo demasiado próximo, atirou a carteira para o seguinte que encontrou. Ainda ouvia o estrondo da música dentro da cabeça, flashes dentro dos ouvidos. Preferia mergulhar fundo. E a que propósito? O que me assusta muito é estar sempre à tona, superficial. A vida é demasiado vaga e o medo é a maior fronteira, espécie de morte mascarada. Como não perder o encanto? Ora, ouve bem, afastando-te do desencanto. Ter um certo jeito de fazer as coisas de um certo jeito. Subiu o pescoço, procurou identificar no céu constelações. Levar essa imagem para a cama. Qualquer coisa que passe pelos interstícios da respiração. Mas o dia começa a raiar, quão bonita é uma manhã nebulosa. Árvores agredidas pelo vento curvavam-se. Pelo menos, se possível, que não derrubem as árvores. A cabeça a martelar e a noite tão noite, apesar da luz cambiante. Ali vivem-se histórias de centro e periferia, visibilidade e invisibilidade. Ou o seu contrário – não sei. Guarda algum silêncio, diz a si própria, não caias no erro fatal de não ter nenhum à mão, num esconderijo a que sabes chegar quando necessário. Conservar o bom de conservar, progredir no que quero largar. Tocou o ponto entre os dois olhos, os pequenos diamantes ali colocados. Alguém assobiou. Saí dali sem olhar para trás. Como se completasse a escalada para fintar a finitude. É que me calhou a ruína e a beleza de viver ao acaso. Darei corpo ao meu sonho: um sonho incorpóreo entristece-me muito. Uma amazona à garupa, aí vou eu, cantam os querubins aleluia, aleluia. Durante todo esse tempo, uma pessoa esteve sempre a apontar.

Dia 1
Teoria do caos ‐ tudo não previsível, na prática, a longo prazo.

Sigamos com o roubo do dia seguinte. Hoje passei dois traços contínuos, não havia ninguém na estrada, era tarde, sei que ali não há câmeras fotográficas, cantei uma música mental enquanto falavam comigo, transgressões possíveis num tempo muito tempo controlado pelos outros, sair de qualquer condenação leva uma vida, tentei encestar um papel amarrotado, caiu fora, não o apanhei, deixei-o ali, fora de sítio, descasquei uma banana e não a comi, deixei-a assim, nua, a oxidar. Porque posso. A escurecer, como escurece o que levo dentro. Na verdade, já ninguém controla o seu dia. Mas ter vivido tanto tempo sob esse jugo, bem, uma pessoa habitua-se à coisa, é difícil perceber que a portinha da gaiola foi aberta. É muito difícil. Não cabiam as pernas e os pés em lado nenhum. Viveu muito tempo em apertos e apertões. Nos transportes públicos, no cubículo do trabalho, até mesmo na casa pequena, tinha sempre de passar com o corpo rente aos móveis e as ideias a roçar o teto. O tédio de repetir os mesmos compromissos. Esse sem sentido porque alguém disse que deve ser feito. Fazer algo contrariado é o princípio do desastre, não se duvide um segundo desta máxima. Mas ninguém te dita nada agora, sussurra uma voz na sua cabeça. Mas dito eu, sussurra outra. O medo curva os ombros, leva neblinas aos olhos. Ombros curvados, olhos nublados vivem mais pelo ímpeto dos outros, não pelo próprio. E eu ainda sei pouco sobre mim, estrangula-se a voz. No entanto, cada vez vivo mais.

Livro: "Como Caminhar num Pântano"

Autor: Marta Pais Oliveira

Editora: Gradiva

Data de lançamento: 10 de março de 2026

Preço: € 16,50

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Sentou-se numa esplanada, não havia sol. Uma mulher estava sentada na mesa do lado, a carteira pousada a meio metro de si.

À exceção das duas, não havia ali mais ninguém. Bebia um café longo, e na outra mesa não se bebia nada, restavam as migalhas de um bolo devorado. O telemóvel começou a tocar. Era um mil-folhas. A outra mulher atendeu, estridente. Ainda mastigava o pedaço final do bolo. Não ouviu nada do que disse. Fixou-se na carteira pousada numa cadeira. Com aquela asinha para se segurar com uma ou com as duas mãos, com o antebraço. Fez sinal de quem escreve no ar, trouxeram- -lhe a conta, o valor do café, da vista que não era deslumbrante, o valor de poder ocupar aquela cadeira e aquela mesa, aquele espaço, aquele tempo, tudo se paga, atirou o dinheiro para cima da mesa, levantou-se energicamente, deu um encontrão na cadeira onde estava a carteira, fingiu que massajava o joelho do embate, a outra mulher nem olhou, toda metida dentro da chamada, em confidências e risos, era uma criatura cheia de sol e sardas, parecia ter franzido o sobrolho, indignada, eu já tinha a carteira entre as mãos, tendo virado costas, fazia aquela careta porque do outro lado da linha lhe diziam algo com que não concordava, nem pensar nisso, quão difícil é estarmos de acordo, eu afastava-me dali tranquila, na cabeça levava ondinhas do mar, nenhum passo apressado, a carteira segura pelas minhas duas mãos contra o ventre, a mulher só veria as minhas costas e ainda a ouvi pedir ao equipamento explica‐me tintim por tintim. Quando saí do campo de visão, despejei os objetos do interior num muro, com sorte seriam encontrados por quem os detinha, com azar seriam roubados, o mais provável seria o que tinha valor ser levado, era o que era, ã, o que é isto?, uma fotografia de casal a preto e branco num relógio antigo, dessas preciosidades de abrir, fotografia minúscula. Havia ali uma grandeza qualquer, caminhou mais uns passos, ao primeiro avistamento de um contentor acelerei, em sentido inverso passou um ciclista, todo licra e suor, um rasto de batida ritmada a saltar dos auscultado- res, atirei a carteira ao lixo. Uma mais.

Queremos sempre justificar os gestos. Rapidinho, se fizer favor. Vivemos o tempo do fragmento. Tudo é capturado num segundo, adiante, sem fruição. Somos consumidores e consumidores devem consumir e deitar fora. Seria bom haver por aí mais fruidores. Imaginemos a imensidão de possibilidades de diálogos.

– Roubas porquê?

– Porque estou só.

– Roubas porquê?

– Porque os outros merecem.

– Roubas porquê?

– Porque me faz sentir viva.

– Roubas porquê?

– Porque preciso.

– Roubas porquê?

– Não sei.

– Roubas porquê?

– Porque não preciso.

– Roubas porquê? – Porque é errado.

– Roubas porquê? – Tu nunca roubas?

Dia 2
Há muita gente amedrontada, não há?

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