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Nos Estados Unidos, as ofertas de emprego para cargos de gestão intermédia caíram cerca de 42% no final do ano passado comparativamente ao pico de abril de 2022, segundo dados da Revelio Labs. Estarão os middle managers a ser gradualmente eliminados do mundo corporativo?

A resposta, segundo um recente artigo da Quartz, é não. A gestão intermédia não está a desaparecer mas a ser reinventada. Com as empresas a achatar as suas estruturas organizacionais para reduzir custos e acelerar a tomada de decisão, a pressão económica e a automação de tarefas administrativas pela IA estão a transformar, mas não a eliminar, estas funções.

Em Portugal, o cenário parece ecoar esta realidade global, mas com uma perspetiva própria. Várias empresas e startups nacionais partilham uma visão comum: os middle managers continuam essenciais, mas o seu papel está em plena transformação.

A evolução dos perfis de gestão

Na BIGhub, a transformação é já visível no terreno. Rúben Lamy, CEO da empresa, é direto sobre a questão: “No nosso caso, temos vindo a notar uma clara evolução dos perfis, nomeadamente dos middle managers, e reparamos que os que mais crescem são os que melhor se estão a adaptar à adoção de IA.”

Esta adaptação não significa, porém, uma substituição. Pelo contrário. A IA não vem retirar lugar aos gestores intermédios, mas sim redefinir o que se espera deles.

“Acreditamos que deverá haver uma redefinição dos papéis dentro das organizações, mas não perspetivamos eliminar funções”, sublinha o CEO da BIGhub.

O fator humano insubstituível

Na Shakers, Nico de Luis, co-founder e COO, partilha desta visão de complementaridade. “Cargos ligados a liderança, tomada de decisão, gestão de pessoas, relacionamento com o cliente ou pensamento estratégico não estão a desaparecer nem a ser substituídos, mas podem sim, ser potenciados pela IA”, explica.
Para Nico, a questão central está em perceber o que a IA pode e não pode fazer.

“Estes tipos de funções continuam a exigir contexto e enorme empatia, áreas onde a IA funciona como uma poderosa ferramenta de suporte, mas não como substituta”, refere Nico de Luis, co-founder da Shakers.

Estratégia, tecnologia e pessoas

Na Opensoft, Rui Cruz, CEO, identifica precisamente este papel de ponte como fundamental. “Existem funções que manterão um papel predominantemente humano, em particular aquelas que asseguram a ligação entre estratégia, tecnologia e pessoas”, afirma. Rui Cruz destaca o papel de supervisão que permanece insubstituível.

“Consideramos que a IA não deverá atuar de forma autónoma em contextos complexos ou cenários de incerteza, pelo que a supervisão humana continua a ser indispensável, sobretudo em decisões com impacto no negócio”, afirma Rui Cruz, CEO da Opensoft.

Onde a tecnologia não entra

Na JUNITEC, Margarida Loureiro, presidente da júnior empresa do Instituto Superior Técnico, é clara sobre os limites da tecnologia: “A gestão de equipas e o contacto com clientes são áreas onde a tecnologia não entra. No contexto de consultoria, gerir pessoas e clientes exige competências interpessoais que vão muito além de processar dados.”

No KuantoKusta, Rita Faria, diretora geral, traz a perspetiva do e-commerce onde, paradoxalmente, a automação convive com a necessidade premente do toque humano, alerta que há domínios que têm de permanecer n
E por isso, Rita Faria deixa explícito o que permanece no domínio humano.

“A tomada de decisões estratégicas, a mediação de conflitos, a adaptação às necessidades individuais de clientes e colaboradores, a criatividade e a inovação continuam a depender do julgamento humano”, sublinha Rita Faria, diretora geral da Kuanto Kusta.

Reinvenção, não extinção

O padrão que emerge destas vozes do ecossistema empresarial português é consistente: os middle managers não estão em vias de extinção, mas em profunda transformação. A IA liberta-os de tarefas administrativas e repetitivas, permitindo-lhes concentrar-se no que realmente importa e no que as máquinas ainda não conseguem replicar.

Estratégia, empatia, gestão de pessoas, tomada de decisão em contextos complexos, mediação de conflitos e liderança permanecem firmemente no território humano. A diferença está em que, agora, estes gestores intermédios têm ferramentas mais poderosas ao seu dispor.

Tal como o artigo da Quartz sugere para o mercado americano, também em Portugal a gestão intermédia está a ser reinventada, não eliminada. E os que prosperam são, como nota Rúben Lamy da BIGhub, precisamente aqueles que melhor se adaptam a esta nova realidade tecnológica.

O trabalho que a IA ainda não consegue fazer não desapareceu. Apenas se tornou mais evidente, mais estratégico e, paradoxalmente, mais humano.

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