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A primeira vez que Madrid entrou na agenda deste que escreve remonta ao primeiro ano da última década do século XX. À época, a capital espanhola vivia mergulhada na bolha do “Madrid me mata”, um vibrante slogan que batizou um movimento agitador cultural, gastronómico, artístico e, acima de tudo, lúdico e noctívago iniciado nos anos 80.
O lento e doloroso assassinato do corpo até altas horas da noite, prolongado por longas horas do dia de frenética ocupação cultural e puro ócio não deixava marcas numa idade própria para aceitar a natureza insana da capital espanhola.
Cidade de contrastes, ancestral e inovadora, serena e acelerada, era o sítio obrigatório para estar. Fosse pela música, arte, cultura, lazer, boa vida, comida e bebida.
A frase “Madrid me mata”, resumo da Movida madrilena, carrega a nostalgia de uma revista de culto, foi editada em 318 páginas de livro, de Alfredo Hervías e Mendizábal, espanhol que escreveu para o “Independente” e revista “Caras”, inspirada na sua vivência em Madrid (esteve à frente de um restaurante) e está viva num bar. No final de 2025, a expressão ressuscitou num grupo de WhatsApp criado a propósito de uma viagem de jornalistas Madrid, na companhia da guia turística e historiadora Mayte Embuena.
Sobram sempre motivos para viajar ao centro da Península Ibérica e à capital com séculos de história (Filipe II estabeleceu a corte em 1561), cidade edificada no século IX. Madrid sempre transportou boas memórias. Fosse pelas exposições no triângulo das artes, Museu do Prado, Reina Sofia e Thyssen-Bornemisza, gastronomia, o mercado de San Miguel, passeios até à Puerta del Sol e de Alcalá, Plaza Mayor, Paseo del Prado, Gran Via, Parque do Retiro ou compras no bairro de Salamanca.
Um quarteirão de luxo. Lojas, hotel e a casa do Ronaldo
Aterrámos, sentámo-nos à mesa, puxámos da cadeira, pegámos no prato e nos talheres e viajámos ao passado, à mais antiga loja de ferragens da capital, la Ferretería. Aberta em 1888, manteve o nome, só mudou de função. Transformou-se num restaurante, em 2015, e foi o local escolhido para a celebração do 55.º aniversário do Rei Felipe VI.
Se as ferragens, pregos, talheres e mobiliário original da loja e uma peculiar máquina registadora decoram o piso superior, a prova gastronómica recomendada pelo Guia Michelin e Guia Repsol decorre no subsolo, debaixo de abóbadas de tijolo do século XVI, terrenos outrora ocupados pelas caves do Real Colégio de Nossa Senhora de Loreto.
Estômago saciado, tempo de espreitar compras. Aviso: não é para todas as bolsas.
O Centro Canalejas ergue-se na confluência entre a Calle Alcala e Calle Sevilla, antigo coração financeiro de Madrid, propriedade de seguradoras e bancos, Palacio de la Equitativa, casa do Banco Español de Crédito, Banco de Espanha, Banco Hispano-Americano, Banco Zaragozano e Santander, último a sair, em 2024, (edifício vendido em 2012).
O quarteirão composto por sete edifícios monumentais de elevado valor histórico, arquitetónico e cultural, onde pouco se mexe no que está à vista, é propriedade de duas empresas, OHLA (construtora) e Mohari Hospitality (imobiliário de luxo).
Hoje, o dinheiro, que não jaz depositado, circula entre o luxo puro. No mesmo teto coabitam a luxuosa Galeria Canalejas, abrigo de boutiques, joalharias e relojarias - Hermés, Cartier, Aquazzura, Rolex, Saint Laurent, Armani, Valentino, Zegna, Jimmy Choo, Louis Vuitton, Tom Ford –, onde muitos mortais arriscam “deixar um rim”, o luxo supremo do primeiro Four Seasons de Espanha (a suite ocupa parte do antigo Casino) e 22 residências cuja compra está ao alcance, não de uma qualquer lotaria da vida, mas da bolsa de um Ronaldo, por acaso, um dos inquilinos.
Foram restaurados oito mil metros de fachada (destaque para a torre do Relógio, as cabeças de elefantes, estátuas, vidros art deco) e 17 mil peças históricas, mármores, portões de cobre e outros artefactos testemunhas de um passado faustoso.
No interior, há tapetes de leopardo, mármores italianos, papéis de parede de seda e colunas de casca de ovo. Os antigos cofres, resgatadas dos subterrâneos bancários, vazios e à vista de todos, desperta-nos ímpetos de personagens da “Casa de Papel”.
Toda a pedra à volta deste enclave de arte, cultura e história, vizinho da Puerta del Sol, está a mudar, cumprindo o sonho antigo de uma, então, jovem Filipina.
“Há muitos anos trabalhava nesta zona, passava aqui e ficava triste, com estes prédios lindos que estavam fechados”, lamentou aos jornalistas, na visita às Galerias, Leslee Jabola, a responsável pela promoção desta mina de ouro e centro de luxo internacional.
Terá, em breve, razões de sobra para regozijo pessoal. Informa-nos estar em marcha a renovação de mais três edifícios históricos, sendo um deles o Teatro Reina Victória, e construção de um hotel-teatro (Music Hotel), com a assinatura da Universal, a nascer na Plaza de Canalejas.
Entre a passagem pela turística taberna, Alberto, datada de 1827, notada pela cor vermelha como manda as regras de decoração (a tonalidade é visível independentemente do grau de alcoolemia, explica a guia), há um passeio pelo bairro das Letras e as suas lojas de artesãos, o check-list visual do Villa-Rosa, casa flamenga de 1911, reconhecida pelos seus azulejos, fecha-se o dia e abre-se a noite para o jantar no El Jardin de Arzabal plantado num jardim inserido num dos mais visitados museus de Madrid, o Reina Sofia.
Arte contemporânea de quem não quer estar no Instagram e chegará a Lisboa
Espaço para a arte. Museu do Prado, Reina Sofia e Thyssen-Bornemisza, albergam Picasso, Degas, El Grego, Caravaggio, Rembrandt, Dalí, Pollock, Bacon, Kandinsky entre muitos outros nomes que atravessam séculos de arte e pintura.
Para além da mostra dos grandes mestres e do diálogo entre o clássico e o avant-garde, ancorados no triângulo dourado da artes, Madrid começa também a dar passos na ilustre e desconhecida contemporaneidade. No centro dessa transformação está o projeto Solo, apresentado ao segundo dia de visita.
Em 2018, na Plaza de la Independencia, o casal Ana Gervás (empresária e diretora do grupo cervejeiro espanhol, Mahou-San Miguel) e David Cantolla (designer criador do Pocoyó) tinha timidamente começado por mostrar, mediante marcação, parte da sua coleção de arte contemporânea, espólio reunido ao longo de 10 anos.
No verão de 2025, abre portas o SOLO CSV (CSV é a redução da Calle San Vicente), um dos hotspots da nova arte a ter em conta, embora o prédio situado na vizinhança da Puerta Alcala passe despercebido a quem ali passe.
Numa antiga gráfica (A Semana, revista del corazón foi uma das arrendatárias) com 170 anos de história, de forma silenciosa, este novo hub labiríntico apresenta novos artistas e as novas aquisições do casal filantropo.
Espalhados por mais de quatro mil metros quadrados de arquitetura industrial, entre bobines e paredes nada retilíneas, há música a sair de máquinas, peças de mobiliário, quadros, esculturas e projeções multimédia.
Paradoxalmente, nesta galeria de restrições fotográficas, nada é mostrado com a pressa turística e tudo é pouco “instagramável”, conforme frisou a diretora de comunicação, Milena Fernández Eresta.
Tudo secreto como o albergue de trabalho, Solo Castanedo, “antiga vacaria na Cantábria”, onde artistas “podem trabalhar durantes três meses”. Ou como a abertura prevista para Lisboa cujo local está no “segredo dos deuses”. Sabe-se, apenas ser um “espaço expositivo e residencial para artistas”, desvendou. Sem pressas de abertura, “é uma cozinha em fogo lento”, comparou. Tal como o conceito expresso no Solo.
Coches, armaduras e joias reais num museu “centenário”
Madrid já tinha museus suficientes e foi contra este facto não consumado que a Galería de Colecciones Reales teve de batalhar.
Quase 100 anos depois da primeira ideia, entre interrupções derivadas da Guerra Civil, mudanças de regimes, República, Ditadura e Democracia, quase 20 anos (2006) e 170 milhões de euros depois, o projeto arquitetónico de Emilio Tuñón e Luis Moreno Mansilla viu a luz do dia, em 2023.
Nas proximidades do Palácio Real e da Catedral de Almudena, este importante edificado museológico de linhas estreitas mostra, no seu interior, 650 obras ilustrativas de cinco séculos de história e pertences reais, das dinastias das Asturias, Habsburgo e Bourbon, dos Reis Católicos a Afonso XIII.
Pintura de mestres como Velázquez, Goya, Caravaggio, El Greco, esculturas, tapetes, livros, documentos, instrumentos musicais, carruagens e joias reais, armas e armaduras estão alinhados ao olhar de um qualquer plebeu.
Nesta viagem pelo mundo da realeza católica, Mayte puxa dos galões de historiadora e leva-nos até aos envidraçados vestígios do nascimento de Madrid, uma “muralha muçulmana” do emir Maomé I de Córdova, durante a segunda metade do século IX.
As ocupações são tantas que nem nos apercebemos da aceleração temporal. Para o jantar, mesa marcada no La Bodega dos Secretos. Uma catacumba que esconde 400 anos de história da bodega mais antiga de Madrid, onde repousou vinho Crianza. Os seus túneis foram usados durante as guerras napoleónicas e na Guerra Civil Espanhola, relembrado num revólver.
Fábrica Real estende tapetes para a despedida
Terceiro e último dia. Tempo para um jogging no Parque del Retiro. A corrida termina numa zona que liga séculos de história, como mais tarde viria a explicar a guia.
Refere-se à “Paisagem da Luz" (Património Mundial da UNESCO), um raio em que entra em ação o Passeio do Prado e Jardins do Retiro (1600), Jardim Botânico (1700), Museu do Prado (1800) e Jardim Vertical (2000).
Para o final, um tapete leva-nos até um museu que poucos ousam ou pensam visitar. A Real Fábrica de Tapices, fundada por Felipe I (1721), é o local de restauro artesanal e manual de tapeçarias, porta-estandartes e bandeiras.
Reservada à Corte Espanhola, alargou-se, a outras casas reais, museus, representações diplomáticas, empresas e instituições de todo o mundo. Portugal incluído.
“A Casa de Bragança (Paço dos Duques de Bragança) tem quatro tapetes (cópias) feitos nos anos 50 (adquiridas pelo Estado Português)” saídos da Real Fábrica de Tapices (RFT), explicou Patrícia Martins, uma portuguesa que contrariou o ditado “de Espanha nem bom vento, nem bom casamento”.
Duas réplicas da tapeçarias de Pastrana, obra que pinta a conquista do Norte de África por Afonso V, suspeita-se de autoria de Nuno Gonçalves (Painéis de São Vicente), “estão na Embaixada de Portugal”, em Madrid, continua a historiadora de arte, a quem o amor transportou-a para o marketing da Fundação privada sem fins lucrativos.
Na visita não foi possível pisar alguns tapetes ou fotografar a manufatura à nossa frente. O olhar captou as mãos de artesãos e mestres, entre o nó turco e nó espanhol, seguindo tradições trazidas pela antiguidade dos teares, de forma vertical, alinhadas pelo desenho em reverso, em conjunto com a aplicação de novas técnicas de restauro.
Há quem se dedique à tecelagem, a recuperar, a tingir peças, à limpeza e à lavagem numa grande piscina “criada especificamente”, descreve Patrícia Martins, antes nos guiar pelo jardim que dá vida a tintas e despedir-se.
Fim do tour proposto, mas uma visita a Madrid não seria a mesma se não contemplasse uma passagem, ainda que breve, num dos tridentes das Artes. Do hotel Radisson Red (C/Atocha, 123), o 24noticias atravessou a estrada e foi ao Reina Sofia espreitar, pela enésima vez, Guernica, de Picasso.
Madrid (ainda) me mata. E surpreende.
* O 24noticias viajou a convite do Turismo de Espanha
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