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É sob o sol quente das praias da Costa da Caparica que Caio Santos caminha todos os dias, de saco às costas, para adoçar as tardes e manhãs de quem visita. Foi nas bolas de Berlim, um bolo tão europeu, que encontrou uma visão de negócio longe das ruas cariocas onde cresceu.
Caio tem 28 anos, e há três atrás decidiu mudar de vida e atravessar o oceano, em busca de oportunidades na Europa. Nascido e criado na comunidade de Rio das Pedras, Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, conta ao 24notícias que sempre teve uma visão mais além da realidade que conhecia.
"O Rio de Janeiro está muito perigoso e o custo de vida está muito alto. Então, como a moeda é um pouco mais forte aqui, achei que tinha a possibilidade de fazer um investimento futuro lá, sem ter um gasto maior", explicou.
Veio com objetivos definidos, que passam por tirar a família da favela e começar um negócio, e desde que chegou a Portugal nunca teve "medo" de trabalhar. Aliás, há mesmo quem diga que já chegou a trabalhar demasiado.
"Cheguei a trabalhar, em média, 18 horas por dia, sem folgas".
Antes de se tornar vendedor de bolas de Berlim, Caio trabalhou nas obras, em hotelaria, como motorista e também nas limpezas. No entanto, em 2024, tomou a decisão profissional mais arrojada até à data e decidiu juntar-se à Legião Estrangeira Francesa — uma unidade militar de elite do Exército Francês, aberta a estrangeiros.
"Tive boas experiências na Legião. Fiz amigos que tenho até hoje", conta.
"Olhá bolinha!"
No ano passado, um amigo, que vendia bolas de Berlim nas praias da Costa da Caparica, pediu-lhe ajuda.
"Graças a Deus, correu muito bem e vendemos bastante. Então, este ano acabei por tirar a licença e agora trabalhamos juntos", conta.
Apesar do sabor doce, vender bolos na praia pode ser um trabalho amargo. Entre o stress do dia-a-dia, os longos quilómetros percorridos e as altas temperaturas do verão, Caio partilha os desafios que a profissão traz.
"É puxado. Não é fácil alimentarmo-nos bem e muitas vezes não conseguimos beber a quantidade de água que é adequada. Para não falar no estado dos meus pés, que já têm bolhas de sangue", conta, entre risos nervosos.
"Atendemos alguns clientes que não entendem o preço da mercadoria e o sacrifício que fazemos para ali estar. Andamos muito, debaixo do sol, durante muitas horas. É difícil, mas no final, tudo vale a pena".
A juntar ao esforço físico, há ainda o fator social. Segundo o vendedor, o preconceito ainda percorre as praias portuguesas.
"Há pessoas que olham de lado. Acham que não é um trabalho digno, mas mal sabem elas que nós ganhamos, pelo menos durante o verão, melhor do que muitos médicos em Portugal".
Caio tem orgulho nas suas raízes brasileiras, e faz questão de demonstrá-lo nos pequenos detalhes. Por exemplo, a mala onde transporta os bolos tem as cores da bandeira do Brasil. O sotaque carioca também não engana, e segundo Caio, a sua nacionalidade aparenta ser um problema para alguns.
"Existe alguma xenofobia. Só por eu falar já percebem que sou brasileiro e há sempre bocas como: 'Fogo, tinha que ser zuca para vender as nossas bolinhas tão caras'. Os jovens nem tanto, normalmente são as pessoas mais velhas e patriotas".
Face a este obstáculo, Caio diz que tenta contornar as situações e não levar nada muito a sério.
"Nós estamos cientes que o nosso objetivo aqui é faturar dinheiro, deixar a nossa família bem e voltar para o nosso país. Não nos podemos perder por pouca coisa."
Admite que o salário em Portugal é baixo, e que a lucratividade das bolas de Berlim, durante o verão, é alta. Tendo isto em consideração, o carioca diz não abrir mão desta oportunidade, mesmo com todo o sacrifício.
A mala que carrega pesa, em média, 30 quilos. Lá dentro, carrega 100 bolos de cada vez e volta a enchê-la duas a três vezes por dia.
Felizmente para uns, e infelizmente para outros, o verão não dura para sempre. Questionado sobre o que iria fazer durante o resto do ano, Caio conta que já tem tudo delineado.
"Quando acabar o verão, o meu plano é tirar a carta de pesados e começar a trabalhar nas firmas de camiões internacionais", diz.
Olhando ainda mais para a frente, admite que, um dia, pretende voltar para o Brasil.
"Tenho alguns investimentos em vista aqui em Portugal, que futuramente vão me render um bom dinheiro. Com isso, quero voltar para o Brasil e viver lá", conta.
Até lá, o caminho continua e às duas da tarde, o areal da praia ainda parece não ter fim. De sino e buzina na mão, e o famoso "Olhá bolinha" na voz, Caio segue para mais um dia de trabalho. Amanhã, fará tudo de novo, e assim sucessivamente, até os dias deixarem de ser tão longos e o sol do verão partir para o hemisfério que chama de casa.
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