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Criadas no Brasil nos anos 60, as Havaianas nasceram como um produto simples e acessível, inspirado nas sandálias tradicionais japonesas zori, feitas de palha de arroz. Nasceram em 1962, com a missão de serem práticas, duradouras e acessíveis. Durante décadas, foram talvez o calçado mais democrático do Brasil, usado indistintamente por trabalhadores, artistas e socialites, tanto na praia como no quotidiano urbano.

A grande viragem aconteceu nos anos 90, quando a marca deixou de ser apenas funcional e passou a investir em moda, comunicação e distribuição estratégica. As campanhas com figuras mediáticas como Daniella Cicarelli e Fernanda Lima deram um novo estatuto ao produto, enquanto novos modelos, cores e formatos alargaram o público-alvo.

A partir dos anos 2000, as Havaianas ultrapassaram definitivamente o rótulo de beachwear, e entraram no universo da moda global através de colaborações com marcas como Missoni, Valentino, Dolce & Gabbana e Swarovski.

Estavam nos pés de celebridades como Jennifer Aniston, Angelina Jolie ou Hailey Bieber, apareceram em editoriais da Vogue, desfilaram em passadeiras vermelhas (incluindo Cannes) e ganharam flagship stores em Paris, Nova Iorque e Tóquio. Um produto que custava poucos reais no Brasil passou a valer centenas de dólares no mercado internacional, sem abdicar da sua identidade “very Brazilian”.

Porque é que voltaram a estar no centro da conversa?

O capital simbólico foi recentemente posto à prova com uma campanha de fim de ano protagonizada pela atriz Fernanda Torres, que desencadeou uma onda de críticas e apelos ao boicote por parte de partidos à direita no Brasil. Provavelmente, há uns dias saltaram com o “pé direito” como manda a tradição, e o problema começa precisamente aí.

“Não comece 2026 com o pé direito”. No anúncio, Fernanda Torres afirma não desejar que as pessoas entrem em 2026 “com o pé direito”, preferindo desejar que comecem o ano “com os dois pés”, numa mensagem de incentivo à ação plena. A frase, interpretada por muitos como um apelo motivacional genérico, foi lida por políticos, influencers e militantes conservadores como uma mensagem política de esquerda.

Deputados bolsonaristas como Nikolas Ferreira, Eduardo Bolsonaro e Rodrigo Valadares acusaram a marca de misturar publicidade com ideologia e incentivaram a substituição das Havaianas por produtos concorrentes. Nas redes sociais, multiplicaram-se críticas ao alegado viés político da empresa, enquanto influencers alinhadas à direita reforçavam o boicote.

Segundo a imprensa brasileira, a polémica teve impacto imediato no mercado financeiro, com perdas significativas em bolsa. A Alpargatas, dona da Havaianas terá perdido 23 milhões euros em bolsa após anúncio que provocou boicote da direita. Até à data, nem a marca nem a atriz comentaram oficialmente a situação.

Embora a empresa tenha procurado, nos bastidores, distanciar-se de leituras políticas ou ideológicas, o episódio reacendeu o debate sobre o papel das marcas globais em temas sensíveis e sobre o risco reputacional num contexto de consumo cada vez mais consciente e polarizado. Para uma marca construída em torno de valores como leveza, diversidade e inclusão, a polémica ilustra como a perceção pública pode mudar rapidamente e como o silêncio ou a ambiguidade podem ser interpretados como uma forma de posicionamento.

Copenhaga descobriu o que o Brasil sempre fez

Enquanto enfrenta contestação ideológica no Brasil, as Havaianas continuam a consolidar-se em mercados internacionais, com destaque para os países nórdicos e, em particular, para a Dinamarca.

Durante a Copenhagen Fashion Week, as sandálias surgiram combinadas com alfaiataria oversized, vestidos fluidos e sobreposições minimalistas, sendo rapidamente rotuladas como parte do chamado Copenhagen Way. O conceito descreve a estética escandinava que transforma conforto em fashion statement, misturando peças simples com cortes sofisticados e tons neutros.

No fundo, trata-se de uma releitura daquilo que o Brasil faz há décadas: elevar o casual sem esforço, com naturalidade e confiança. A diferença é que, em Copenhaga, isto surge como tendência; no Brasil, sempre foi rotina. O sucesso das Havaianas nos países nórdicos mostra como a marca conseguiu traduzir um ADN cultural próprio para diferentes geografias e como, mesmo em meio de polémicas políticas no país de origem, o produto continua a caminhar firme no mercado global.

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