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A vitória de António José Seguro, ontem, foi "estrondosa", mas "os problemas com que se confronta quem trabalha uma vida inteira estão lá". As aspas são do advogado Garcia Pereira, mas resumem bem as opiniões recolhidas pelo 24notícias sobre o estado anémico da esquerda, os desafios do novo presidente e a possibilidade de Portugal vir a ter André Ventura como primeiro-ministro.
"A vitória de António José Seguro é, no essencial, uma vitória pessoal. Avançou sozinho e resistiu às pressões de setores de dentro do PS para aceitar desistir em favor de António Vitorino. Este trajeto solitário confere-lhe uma autonomia única", considera o embaixador Francisco Seixas da Costa, antigo membro dos governos de António Guterres.
Miguel Poiares Maduro, ex-ministro de Pedro Passos Coelho, concorda: "A vitória de António José Seguro é sua e apenas sua, como aliás bem deu a entender no seu discurso. Iniciou a campanha sem ter praticamente apoios, com 6% nas sondagens e até a ser acusado de rejeitar o seu passado (por ter recusado ser classificado de esquerda)".
"Foi sempre consistente com a imagem de alguém moderado, de centro, institucional. Os eleitores recompensaram-no com uma vitória sem paralelo na nossa história democrática", justifica Miguel Piares Maduro. São 3.482.481 votos, um número recorde na democracia portuguesa, e ainda faltam as 16 freguesias onde as eleições foram adiadas para o próximo domingo, bem como uma parte da emigração.
A consequência é clara: "Isso dá-lhe uma forte autoridade política, que, pela sua amplitude e transversalidade também o liberta de qualquer tipo de dependência", diz o ex-ministro. Francisco Seixas da Costa é da mesma opinião: "Entra em Belém com as mãos completamente livres. De certo modo, repete Marcelo há dez anos, embora este não tivesse encontrado as resistências com que Seguro se confrontou no seu próprio campo político".
Apesar disso, o embaixador acredita que esta também acaba por ser uma vitória do PS. "Seguro teve ao seu lado, a partir de um certo momento, a máquina do partido. Fica a dever isso ao PS, mas este fica a dever-lhe bastante mais: ter um dos seus em Belém é muito simbólico para os socialistas, em especial num tempo muito sombrio na sua prestação nas legislativas. A "chama" da esperança dos socialistas, para um seu futuro regresso ao poder, fica agora acesa".
"É um erro estatístico extrapolar de uma segunda volta de presidenciais para outras eleições. Mesmo assim é evidente que o PS teve uma vitória relevante", diz o economista João César das Neves.
Carlos Guimarães Pinto, deputado da Iniciativa Liberal, também não vê que estas eleições possam ter "consequências para vida partidária. António José Seguro não foi eleito por eleitores do PS, mas por eleitores de muitos partidos. Isto não é o renascimento do PS".
Desafios? "Ser ponderado num sistema político em revolução"
"O próximo Presidente da República terá dois grandes desafios resultantes da transformação do nosso regime político. Primeiro, num contexto crescente de polarização e fragmentação vai ser fundamental construir uma cultura política de compromisso e negociação. Segundo, é fundamental repor a confiança no sistema e elites políticas, o que exige transformações difíceis para os partidos", afirma Miguel Poiares Maduro.
Luís Aguiar-Conraria, professor catedrático na Universidade do Minho, diz o mesmo. O maior desafio para Seguro é "ser um presidente discreto e ponderado numa altura em que o sistema político pode estar a sofrer uma revolução e também numa altura em que um dos principais líderes é extraordinariamente histriónico".
Mas André Ventura é apenas uma parte da equação. "Seguro vai confrontar-se, desde muito cedo, com um Montenegro arrogante, como se revelou logo na noite eleitoral, que vai querer blindar o terreno próprio do governo e evitar que o novo presidente, utilizando a sua pressão e influência, seja uma espécie de "provedor do povo", junto de um executivo ineficaz e incapaz de produzir resultados", acrescenta Francisco Seixas da Costa.
"Montenegro já percebeu que o governo que conseguiu "produzir" está sem capacidade para apresentar resultados concretos nas áreas mais sensíveis das políticas públicas. Vai tentar usar o novo presidente para pressionar o PS para o deixar governar. Seguro tem de saber resistir à chantagem de ter de ser ele a pedir ao PS para salvar Montenegro e adiar a crise que uma eleição antecipada provocaria. Não vão ser nada fáceis os dias de Seguro em Belém".
Também Garcia Pereira também tece críticas ao governo atual. "Neste momento, temos um governo que chegou ao poder com um programa eleitoral que não mostrou em campanha, desde logo o pacote laboral, e, por isso, despojado de legitimidade democrática".
Para o jurista especialista em direito do trabalho, "a situação atual coloca desafios às forças políticas de esquerda, que foram abandoando e desvalorizando aquilo que sempre foram as bandeiras da esquerda: a saúde, a educação, a justiça e os direitos sociais. Não assumindo estas bandeiras, o que fazem é deixa-las a cargo dos outros, mesmo daqueles que não sabem resolver os problemas".
João César das Neves resume: "Os principais desafios são a defesa do regime, que é crescentemente atacado, e a operacionalização de um governo minoritário, resolvendo problemas reais sem abusar do frágil poder que o governo realmente tem. Tudo passa por conseguir diálogo e acordos efetivos entre as forças democráticas dirigidos a questões prementes".
Primeiro-ministro André Ventura para breve?
"O que explica o crescimento contínuo do Chega é a perda de confiança de uma parte cada vez maior dos portugueses na capacidade dos partidos tradicionais os representarem", considera Miguel Poiares Maduro.
"Há alguns anos, apresentei uma moção no Congresso do meu partido em que afirmava que se não fizéssemos reformas significativas, os portugueses iriam mandar-nos para a reforma. Isso é cada vez mais claro: toda a preocupação com o Chega tem-se focado em como devem PSD e PS lidar com o Chega, quando é tão ou mais importante que PSD e PS reflitam sobre si mesmos", justifica.
André Ventura reuniu 1.729.371 votos, o que significa que mobilizou mais de mais 400 mil votos do que na primeira volta. Se é verdade que foi derrotado e não atingiu os objetivos a que se propôs — ser presidente da República e ter mais votos do que a AD (que ultrapassou os dois milhões nas últimas legislativas) —, também é possível que quisesse apenas "reter eleitorado", como diz Carlos Guimarães Pinto, da Iniciativa Liberal, e fazer uma demonstração de força.
Daí a ser escolhido como primeiro-ministro vai um passo, mais curto ou mais largo, dependendo das interpretações. Garcia Pereira acredita que "há muita água para correr" antes que isso aconteça. "A primeira coisa que devemos ter presente é que se trata de forças fascistas. Não podemos esquecer que André Ventura defende Deus, pátria e família, preconiza os três salazares, disse que se a polícia atirasse mais a matar, o país estaria melhor. Além disso, o Chega tem ligações umbilicais a movimentos de extrema-direita. Depois da "operação irmandade", nem uma palavra sobre os movimentos Reconquista ou 1143 — mesmo depois de ser conhecido o vídeo em que Pedro Frazão [vice-presidente do Chega] diz que tem orgulho em ter o Reconquista como aliado".
Embora por outros motivos, Carlos Guimarães Pinto também tem dúvidas em relação à ascensão de André Ventura ao poder, pelo menos antes do fim da atual legislatura: "Para cair o governo, os interesses do Chega e do PS teriam de estar alinhados, essa seria a única combinação para derrubar a AD. E parece-me que nem um nem outro têm interesse em mostrar ao seu eleitores esse alinhamento".
Também João César das Neves tem dúvidas: "Sinceramente, acho pouco provável, simplesmente por lhe faltar substância política. Para isso acontecer, o Chega teria de deixar de ser um partido de protesto e, como em França, passar a um credível partido de governo, que agrade às classes médias, algo que ainda não se vê. O Chega, por enquanto, é só um caudilho".
Mas nem todos estão tão seguros de que André Ventura não venha a ter o poder na mão, até antes do previsto. Francisco Seixas da Costa é um deles: "Acho que a probabilidade de António José Seguro ter de dar posse a Ventura como primeiro-ministro é elevada — e antes de decorridos três anos".
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