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O mesmo hotel, Marriot, em Lisboa, junto à Universidade Católica, as mesmas salas, Mediterranean 1 e Mediterranean 2, que testemunhou, por duas vezes, no espaço de pouco mais de um ano (legislativas de 2024 e 2025), as vitórias do Chega, acompanhou a passagem à segunda volta das eleições presidenciais, no passado dia 18 de janeiro, assistiu à primeira “derrota” de André Ventura.

Um ato eleitoral do qual saiu vencido, mas com o balão de mais de 1,7 milhões de votos e áurea de vencedor, líder da direita em Portugal e futuro primeiro-ministro.

Este foi o discurso oficial no “dia do tudo ou nada”, conforme Ventura considerou ser a segunda volta da eleições para Presidente da República.

A sala era a mesma da noite eleitoral da primeira ida às urnas de onde saíram os dois candidatos, António José Seguro e André Ventura. Lá dentro, e fora, os mesmos jotinhas vestidos a rigor, de gravata, e apoiantes, de pin na lapela, casando a bandeira do Chega com a de Portugal.

Não faltaram deputados ao desfile da glorificação, de Pedro Pinto, a Felipe Melo, passando por Diogo Pacheco Amorim, Cristina Rodrigues, Rodrigo Taxa, Rui Paulo Sousa, Bruno Nunes ou João Aleixo, obrigações partidárias assim oblige.

Todos tiveram direito a ocupar os lugares reservados aos representantes do povo no Parlamento. Uma reserva de lugares nas filas da frente da plateia e próximo do púlpito, numa eleição apelidada de apartidária, mas com o apoio claro, desde a primeira hora, do partido e do grupo parlamentar do Chega ao seu líder.

“A mudança que os portugueses não quiserem hoje, mas vão querer”

Desta vez, foram distribuídas, em mão, mais bandeiras de Portugal. As do partido jaziam, desde o meio da invernosa tarde, nas cadeiras das salas. De forma salpicada e nem sempre intervalada.

O painel instado por detrás do púlpito mudou em relação à primeira volta.

O branco e as cores da bandeira nacional foi substituído por um monocromático verde, deixando o branco para o desenho do escudo das Quinas e as repetentes frases “Portugueses primeiro” e “Ventura Presidente”.

Não percetível a olho nu, a perscrutava-se a letra do Hino de Portugal, incluindo “Heróis do Mar, nobre povo”, terminando “que há-de guiar-te à vitória” que recebia o olhar de quem entrava na sala dos discursos.

Às 19h00, Rui Paulo Sousa faria o comentário à abstenção. Da leitura o “povo português” foi o “vencedor” do dia/noite.

As projeções chegaram ao tradicional bater das 20 badaladas, horário coincidente com o fecho das urnas nos Açores.

Os números nacionais são avançados. O silêncio de quem olhava fixamente o grande ecrã, situado ao lado do enorme painel verde e à entrada da sala, permaneceu por longos dois minutos. Uma ausência de som interrompida pela distribuição avulso de abraços ao estilo do litúrgico “Saudai-vos na paz de Cristo”.

Comentários de Pedro Pinto. O presidente do grupo parlamentar do Chega, extrapolou: o partido é o “grande vencedor da direita em Portugal”, disse.

Num discurso curto de palavras, entre um “André Ventura merecia mais” e um “os portugueses perderam uma oportunidade”, o secretário-geral e adjunto da direção nacional do partido dos 60 deputados, promete, para o futuro, a “mudança que os portugueses não quiserem hoje, mas vai querer”, prometeu.

Atenções viradas para André Ventura, cuja chegada foi anunciada ao longo do dia para pouco depois das 20h00. As primeiras declarações deveriam ser feitas não na rua, aos pés da porta giratória, mas no hall de entrada, bem perto do bar de receção da unidade hoteleira de cinco estrelas. Não seria assim.

Consolidar para governar. A estratégia militar do Chega e Ventura

Na rua, a coberto da chuva, em declarações ao 24noticias, Diogo Pacheco Amorim, chegado ao hotel pouco depois dos primeiros números referentes ao duelo Ventura-Seguro, reforçou a ideia de que a segunda volta da eleição presidencial foi a demonstração de um sistema político contra um homem só.

“Basta ver a cobertura da comunicação social durante a campanha toda, convenhamos que foi parcial” começou por referir, antes de avançar, rápido e em força, contra os alvos políticos, “todos os pequenos e médios notáveis que se autointitulam de direita, mas estão longe de ser direita”, atirou o deputado.

“Quando dizemos que queremos afrontar o sistema e resolver as questões, sabemos que isso levantará bastantes objeções e uma resistência grande”, avançou. “E levantou, como esperávamos”, disparou aquele que é considerado o ideólogo do partido CHEGA. “Mas cá estamos, e cá estaremos para continuar”, garantiu Pacheco Amorim.

Vencido, a “grande vitória” de André Ventura, candidato apoiado pelo CHEGA, “foi a passagem à segunda volta”, referiu. “Todos os outros candidatos de direita, ou de suposta direita, ficaram para trás”, recordou. “E foi o doutor André Ventura que passou à frente, e, isso é inquestionável”, sentenciou Diogo Pacheco Amorim.

Um dado de não somenos importância que, de acordo com o deputado e membro da direção nacional do partido, serve para colocar o rótulo de líder da direita em André Ventura, candidato derrotado nas eleições presidenciais.

“Que ninguém tenha dúvidas, pode haver quem finja que tenha dúvidas, mas acho que não restam dúvidas nenhumas a ninguém”, avançou, disparando uma bicada no primeiro-ministro. “Basta ver o ar comprometido do dr.º Luís Montenegro para perceber que está bastante fragilizado”, disse. “Bastante fragilizado”, repetiu.

A eleição para Chefe de Estado terminou e com ela, à primeira vista, encerra-se período de seis anos de efervescente participação cívica e múltiplas idas dos portugueses às urnas.

Espera-se, de acordo com a comunicação ao país do primeiro-ministro, Luís Montenegro, “três anos e meio” sem eleições, “tempo” para o Chega e André Ventura “consolidar os avanços que tivemos”, explicou Pacheco Amorim.

“Há um tempo para avançar e um tempo para consolidar os avanços, qualquer estratega militar ou engenheiro lhe dirá isso. Chegou a altura de consolidar e de fazer o trabalho para dar um passo mais em frente, que é governar”, perspetivou.

“País político contra um homem só”

Antes, enquanto jornalistas, apoiantes e deputados esperavam a chegada de André Ventura, o representante eleito pelo círculo de Braga, Filipe Melo, reforçara a ideia de um “país político contra um homem só”, exaltou, um sistema político mobilizado, PS, PSD e IL, contra André Ventura e o Chega”, frisou.

“Uma direita a mobilizar-se a favor de um candidato e termos 30 por cento não é um mau resultado”, considerou.

“O André Ventura e o Chega são os líderes da direita em Portugal”, disparou Filipe Melo. “Vocês jornalistas, o país já percebeu que André Ventura será o próximo primeiro-ministro”, futurologia transformada realidade “nas eleições, sejam elas quando forem, esperemos que o sejam quanto antes”, rematou.

“Onde é que ele andará”

Pouco mais de uma hora passada das projeções - consideraram António José Seguro como sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa -, Ventura trocou as voltas a quem o esperava, jornalistas, apoiantes, militantes e deputados.

Não entrou pela porta do hotel (fê-lo nas anteriores três visitas ao quartel-general), e optou por ir direto ao parque de estacionamento.

“Onde é que ele andará”, perguntava uma apoiante ao espreitar a escadaria vinda do piso -1. Outros comentavam os resultados. “Ouvi na rádio, 33 por cento”, anunciou um, chegado de fresco. “Não é nada mau”, respondeu o outro.

O tempo passado à espera do discurso final do candidato André Ventura era passado entre conversas à volta do bar e os olhares pelos ecrãs de televisão, divididos um olho no futebol (jogo Benfica-Alverca), outro na batalha da noite eleitoral, acompanhado pelas estações televisivas com as contagens ao segundo.

Duas horas e meia depois do fecho das urnas e fechada a contabilidade, ouviu-se o speaker de serviço. “Minhas senhoras e meus senhores, vamos receber o nosso líder, André Ventura”, exclamou.

Ele ai estava. Vindo do subterrâneo piso -1, fez uma entrada em palco como subisse a um ringue. Aclamado pelos seus com gritos de “Ventura”, entrou em forma de cordeiro, despejando fair-play.

"We Built This City" e o sonho de uma maioria do povo

“O sucesso de António Seguro à frente de Portugal, será o sucesso de todos”, soletrou, para rapidamente vestir a pele de animal feroz e com vontade indómita de comer todo o terreno da direita portuguesa.

“Mesmo não vencendo, este movimento, este partido, esta força, teve o seu melhor resultado sempre na nossa história”, exaltou, frase terminada debaixo de aclamações de “Ventura, Ventura, Ventura”.

A ultrapassagem da “percentagem da Aliança Democrática nas últimas eleições”, confere-lhe o desígnio: “É justo dizer que os portugueses nos colocaram no caminho para governar este país”, elevou a fasquia.

Cânticos de “Ventura segue em frente, tens aqui a tua gente”, servem de sandálias da caminhada do líder parlamentar do Chega.

Se hoje o Chega lidera a direita e o espaço da direita em Portugal, vai “em breve governar este país”, prometeu André Ventura recorrendo a linguagem belicista para descrever o combate travado.

“Com uma grande parte do país, da Europa e do mundo contra nós, com Bruxelas contra nós, com todos contra nós, conseguimos ainda assim o melhor resultado de sempre”, glorificou.

O resultado serve para cristalizar o “Nós” e o “Eles”, a luta de “um povo inteiro” formado por “homens e mulheres comuns” contra as “elites incrustadas neste país” que procuram “atacar” e “destruir” o partido liderado por André Ventura.

Uma “luta” que continua a partir doravante de forma a concretizar o “sonho de Sá Carneiro” de conseguir a tão desejada maioria, “não em nome das elites, mas em nome do povo”, disparou, segundos antes de repetir a palavra “Viva Portugal”.

O resto, é a história do partido que quer mudar o país e tem habituado o seu e outros públicos. Subida ao palco da direção nacional, “A portuguesa” cantada e André Ventura de bandeira nacional enrolada ao pescoço.

E a alma lusa dá lugar a um hit comercial. "We Built This City", música do grupo norte-americano Starship, baixou o pano da noite eleitoral em que Ventura mesmo perdendo, transformou a passagem à segunda volta e os números de votos numa vitória. Que não vai ficar por aqui.

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