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Todos os anos, na véspera e no dia de Natal, repetimos um gesto que atravessa épocas e gerações: oferecer e receber presentes. Fazemo-lo em família, entre amigos, com crianças, mas raramente paramos para pensar porquê.

A resposta não é simples nem única. A tradição de trocar presentes no Natal cruza antropologia, religião, história e psicologia, e tem raízes muito mais antigas do que o próprio Natal cristão.

O que diz a antropologia?

Para o antropólogo Chip Colwell, professor na Universidade do Colorado Denver, o ato de dar presentes serve muitos propósitos. Psicólogos falam num "brilho no olhar", um prazer intrínseco associado a dar algo a outra pessoa. Teólogos veem o presente como uma forma de expressar valores morais, como amor, bondade e gratidão, em várias religiões, do cristianismo ao budismo e ao islamismo. Já filósofos, como Séneca ou Friedrich Nietzsche, consideravam o ato de presentear uma das mais puras expressões de altruísmo.

No entanto, a explicação mais influente vem da antropologia. Em 1925, o francês Marcel Mauss publicou o "Ensaio sobre a dádiva", onde defendeu que os presentes não são simples objetos: são instrumentos que criam e mantêm relações sociais.

Mauss baseou-se em práticas como os "potlatch", cerimónias realizadas por povos indígenas da costa noroeste do Canadá e dos Estados Unidos. Nestes eventos, que duravam vários dias, os anfitriões ofereciam quantidades impressionantes de bens à comunidade — desde cobertores e sacos de farinha até canoas, barcos e móveis.

Segundo Mauss, todo o presente envolve três atos inseparáveis: dar, receber e retribuir. Dar demonstra generosidade e honra, receber mostra abertura para aceitar essa homenagem e retribuir cria um ciclo contínuo de reciprocidade. É esta expectativa, implícita ou explícita, de retribuição que torna o presente diferente de uma simples compra. Enquanto uma transação comercial termina no momento do pagamento, o presente prolonga a relação.

Para Mauss, presentear é também um ato moral: envolve justiça, porque se procura retribuir com algo de valor semelhante, e respeito, porque reconhece a importância do outro. Quanto mais pessoal e significativo for o presente, maior é a honra demonstrada.

As raízes romanas da troca de prendas

Muito antes do Natal cristão, os romanos já trocavam presentes no inverno. Durante a Saturnália, um festival pagão celebrado entre 17 e 23 de dezembro em honra ao deus da agricultura, Saturno, havia banquetes, convívio e a oferta de pequenos presentes. Eram raminhos simbólicos, figos, nozes, moedas, velas, ou figuras de terracota, que simbolizavam boa sorte para o novo ano.

Esta é uma das primeiras tradições documentadas de troca de presentes nesta época do ano. Quando o cristianismo começou a expandir-se no Império Romano, muitas destas práticas pagãs foram reinterpretadas e integradas na nova religião.

Os Reis Magos e o significado cristão

Na tradição judaico-cristã, o gesto de oferecer presentes ganha um significado central com a história dos Reis Magos. Segundo a Bíblia, Belchior, Baltasar e Gaspar viajaram até Belém para homenagear o nascimento do menino Jesus, oferecendo-lhe ouro, incenso e mirra — presentes simbólicos que representavam realeza, divindade e mortalidade.

A escolha das datas de 24 e 25 de dezembro não foi aleatória, de acordo com o History Hit. Estas coincidiam com celebrações pagãs do solstício de inverno, a 21 de dezembro, um momento associado ao regresso da luz e à renovação. Numa época em que o cristianismo ainda se afirmava, a Igreja Católica aproveitou festas já populares, com comida, convívio e troca de presentes, para facilitar a aceitação do novo culto.

Com o tempo, a oferta dos Reis Magos passou a inspirar a troca de presentes entre famílias como forma de recordar esse momento fundacional do Natal cristão.

De São Nicolau ao Natal moderno

Antes do Pai Natal como o conhecemos hoje, a figura que mais marcou a tradição foi São Nicolau, um bispo conhecido por ajudar crianças pobres, oferecendo moedas e pequenas prendas de forma discreta. A sua história espalhou-se pela Europa e ajudou a consolidar a associação entre Natal, generosidade e dádiva.

O grande impulso moderno à troca de presentes chegou no século XIX. Foi nessa altura que a árvore de Natal se popularizou, surgiram os primeiros cartões de Natal e a família real britânica, liderada pela rainha Vitória e pelo príncipe Alberto, começou a celebrar o Natal com árvores decoradas, doces e presentes. Tudo o que a realeza fazia tornava-se moda e a tradição espalhou-se rapidamente pela Europa, chegando também a Portugal.

Porque continuamos a dar presentes?

Hoje, trocar presentes no Natal pode parecer um hábito óbvio, mas continua a cumprir a mesma função essencial identificada por Mauss há um século: ligar pessoas. Mais do que o valor material, o presente carrega intenção, reconhecimento e vínculo.

Num tempo marcado pelo consumo, a antropologia lembra que o gesto em si não precisa de ser excessivo. Pelo contrário: quanto mais pessoal, pensado e significativo for o presente, mais forte é a mensagem que transmite. No fundo, oferecer um presente no Natal é reafirmar uma relação — dizer ao outro que importa, que é lembrado e que faz parte de um laço que se quer manter.

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