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Introdução
Weimar é uma história tão viva que ressuscita os mortos e não cessa de interrogar a Alemanha e, além dela, todas as democracias que, com a sequência de 1932–1933, com Von Papen e Hitler, mas também com Schleicher, Hindenburg, Hugenberg e Thyssen, se confrontam com a sua finitude. Tal como a Primeira Guerra Mundial ensinou às civilizações que elas são mortais, o fim da República de Weimar mostrou que a democracia é perecível.
Weimar é um significante inesgotável. É, antes de mais, a cidade dos poetas e dos pensadores, dos mecenas e dos músicos, onde viveram Lutero, Bach, Wieland, Goethe, Schiller, Liszt, Wagner, Nietzsche — e esquecemos isso. Esta foi, em inícios de 1919, uma das três razões que levaram à escolha desta pequena cidade da Turíngia, pouco mais populosa do que Fontainebleau e situada a 300 quilómetros de Berlim, para acolher a Assembleia Constituinte eleita em 19 de janeiro por sufrágio finalmente universal — masculino e feminino. Os deputados ficaram alojados em hotéis, estalagens e casas particulares, enquanto o governo provisório ficou no castelo, a dois passos da Biblioteca Duquesa Anna Amalia, esplendor rococó hoje classificado como património mundial da UNESCO, e do parque onde Goethe estudava plantas na sua Parkhaus, residên- cia secundária situada a apenas um quilómetro da sua casa citadina, em Frauenplan. A Alemanha mostrava assim ao mundo a sua outra face: a da Weltliteratur, das artes e da filosofia, longe de Berlim e de Potsdam, dos capacetes de espigão e dos quartéis; a Alemanha do Aufklärung e da Weimarer Klassik, não a do militarismo, dos desfiles ao som do pífaro e dos canhões. Longe, também, das fábricas e dos operários: Berlim, cidade de esquerda, era demasiado agitada, como demonstrou a «semana sangrenta» de 6 a 13 de janeiro de 1919, em que vários milhares de insurgentes perderam a vida, entre eles Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, assassinados com selvajaria e cobardia consumadas pelos mercenários dos corpos francos, os do general Groener e do ministro Noske, o «cão sangrento», como gostava de se apelidar.
Poder-se-ia dedicar um livro inteiro ao que Weimar significa. O melhor da Alemanha, com a inteligência das letras e das artes, com esta Constituição, votada em 31 de julho, e com esta República, nascida em 11 de agosto de 1919, que nunca se separariam deste topónimo. Odiada pela extrema-direita, que assimilava Weimar ao System, que vilipendiava a Systemrepublik dos sociais-democratas e do «bolchevismo cultural» — o pânico moral da época —, Weimar era também uma cidade burguesa e conservadora que, desde os anos 20, dava maiorias aos nazis. Como que para lavar a mancha democrática e exorcizar essa Constituição maldita, Hitler, que gostava da cidade, organizou aí os primeiros congressos do partido, antes de optar por Nuremberga. Fazia várias estadas na cidade, hospedando-se no hotel Elephant, que foi remodelado ao seu gosto em 1938, e que ainda ostenta o Führerbalkon da nova fachada, em estilo neodórico. Nesse mesmo ano, a SS inaugurou, em Ettersberg, apreciado por Goethe, que aí tinha o seu carvalho, o campo de concentração de Buchenwald, situado a poucas dezenas de metros das livrarias, museus e cafés.
O significante inesgotável tornou-se, após 1945, um espectro que pairava sobre a República Federal da Alemanha. Por mais que a Turíngia se encontrasse na SBZ (a zona de ocupação soviética), e depois na RDA, «Bona» tinha pesadelos constantes com «Weimar». Perguntou-se várias vezes, em Bona, e depois, após a mudança em 1999 para Berlim, se se estavam a reviver as «circunstâncias de Weimar», nomeadamente, em inícios dos anos 80, quando a recessão e a estagflação fizeram ressurgir o espectro do desemprego em massa e do «fracasso de uma democracia», depois em inícios dos anos 2000, quando a Alemanha se viu como o «homem doente da Europa», e, por fim, mais recentemente desde que em 2014 o movimento Pegida, esses «patriotas contra a islamização do Ocidente», tomou as ruas e depois a AfD, a Alternativa para a Alemanha, conquistou as urnas.
Com a ascensão da extrema-direita, e também com as suas vitórias, nos Estados Unidos em 2016, no Brasil em 2018, na Argentina em 2023, na Áustria desde 2000, na Hungria, na Polónia, nos Países Baixos, Weimar torna-se ainda mais presente, assim como, de uma forma mais geral, os anos 30 — não é a atualidade política francesa de 2024, com a constituição de uma «nova Front populaire», que nos desmentirá.
Convém dizer que, para lá do carácter perecível das nossas democracias, Weimar interroga-nos sobre o nazismo, a guerra e o Holocausto. À luz do fim da História, a República de Weimar tornou-se como que uma metonímia do período entre as guerras e dos seus traumas. Depois de dezembro de 1932, tudo se desmorona na Europa Central e Oriental, mas também no Sul: a Áustria cai em 1933, com a instauração de uma ditadura nacional católico-corporativista; depois Espanha entre 1936 e 1939, ao preço de uma guerra civil atroz desencadeada pela extrema-direita e pelos militares contra a República da Frente Popular; e, por fim, no contexto da derrota, França, que renuncia ao que Alfred Rosenberg chama «150 anos de erros», confiando o poder a um velho marechal que, fazendo-se de Joana d’Arc e de salvador supremo, traiu o seu país com a assinatura do armistício em 22 de junho de 1940, ao aceitar entregar aos nazis aqueles que haviam depositado a sua confiança no país dos direitos do Homem.
O fim da República de Weimar é um acontecimento-monstro e, ao mesmo tempo, um acontecimento-mundo, que tende, aliás, a esmagar tudo, nomeadamente, a interpretação geral da História alemã e a sua cronologia a longo prazo. Weimar e, ainda mais, as circunstâncias dramáticas do seu fim parecem ser o vórtice que absorve tudo, um terminus ad quem que dita toda a leitura e toda a hermenêutica da História de um país, reduzida a ser apenas o prólogo do nazismo. Para compreender o seu fracasso, teorizou-se um «caminho particular» que, de Bismarck a Hitler, só podia levar um país, pouco inclinado para o liberalismo e para o universalismo, na direção da pior das ditaduras.
Há, portanto, algum escrúpulo em voltar ao «fim da República de Weimar». Com efeito, esta infeliz democracia encontra-se geral- mente sob os holofotes do debate público pelas circunstâncias do seu desmantelamento, o que adiciona sempre mais uma pitada de sal na ferida aberta da História alemã, ou melhor, na forma como se considera, lê, escreve e ensina essa História: a teleologia, o finalismo. Tudo seria orientado para esse buraco negro da História do país, o ano de 1933.
É metodologicamente falso e historicamente injusto, pois a República de Weimar, para aquelas e aqueles que a criaram e a sus- tentaram, soube juntar História e esperança.
A atenção historiográfica tem-se concentrado, há cerca de vinte anos, nos «futuros de Weimar», esse universo de possibilidades tão fértil aberto pela Revolução de 1918–1919 e pela redação, em apenas seis meses, de uma Constituição liberal, democrática e parlamentar, mas também social, que cumpria finalmente, setenta anos depois, as promessas de 1848 e da Primavera dos Povos. O ano 1919 como Primavera do Povo alemão? Seguramente, pois os contemporâneos conhecem, por definição, o que vem antes, e não o que vem depois, esse grande inverno de 1933, ao qual se reduz sempre, aplanando as perspetivas, mutilando os olhares, a História da Alemanha. Vitória da democracia alemã, desse outro «caminho particular» que liga Kant e o Iluminismo, as «guerras de libertação» de 1813–1815, a Paulskirche de Frankfurt, a «lei fundamental» de 1949 e a «reunificação» de 1990? A causa é defensável e suscitou releituras e reinterpretações de um longo século XX alemão (1848–1990) que, por força da mutação das sensibilidades historiográficas, passou a ser considerado do ponto de vista dos próprios atores. O fim da Primeira Guerra Mundial é, assim, esse «tempo dos cometas» que permitiu, em condições unanimemente desfavoráveis (guerra civil, guerra no Leste, conferência da «Paz» — cartaginesa — de Versalhes, tratado de paz leonino...), a edificação de uma democracia social inédita. Os historiadores reconheceram finalmente que, antes de ser uma história trágica, uma síndrome ou um trauma, «Weimar» foi uma história viva, aberta a um futuro promissor, um quase milagre; e os jubileus de 2009, e depois os de 2019, para o centenário da Assembleia Constituinte de 1919, foram ocasião para redescobrir as «oportunidades de uma República». Na Universidade de Jena, vizinha da cidade de Weimar, analisou-se, num centro de investigação criado para o efeito, o modelo democrático weimariano, feito de alianças democráticas e progressistas (1919–1920), de alternâncias bem-sucedidas entre direita e esquerda, de grandes coligações (1928–1930), enfim, o «quotidiano de uma República» e uma «normalidade» política surpreendente num país que aprendia, em tempo real, o sufrágio verdadeiramente universal, a liberdade e a democracia social. Contra o retrato em tons sombrios de um edifício instável, quase nado-morto e condenado ao precipício, existem estudos que mostram a dialética subtil, em plena tormenta — e nunca se insistirá o suficiente na impressionante sucessão de choques exógenos que, de Versalhes à Grande Depressão, passando pela ocupação do Ruhr, conspiraram para a destruição da experiência weimariana —, entre consenso e conflito, num contexto em que a violência da extrema-direita se exprimia de forma crua, enquanto os comunistas, inspirados pela experiência próxima da revolução bolchevique, sonhavam em voz alta com uma Alemanha soviética, e a jovem República conseguia, apesar de tudo, criar um espaço democrático pacificado ao impor o seu monopólio da violência legítima. Desde que nos previnamos contra o efeito deprimente da teleologia, esse desmancha-prazeres da reflexão histórica que leva a traduzir o anódino Weimar Culture de Peter Gay (1968) com o título O Suicídio de Uma República, é possível, e até recomendável, «repensar a República de Weimar» para apreender melhor a sua abertura, a sua liberdade e a sua esperança, e compreender melhor que «Weimar» foi menos prenhe do monstro nazi do que dessa «República dos marginais», esses outsiders tornados, segundo Peter Gay, os insiders da Szene berlinense, dos cabarés satíricos, da noite homossexual, da criatividade literária e cinematográfica — tudo o que, de Brecht a Marlene Dietrich, passando por Fritz Lang, Alfred Döblin e os irmãos Mann, «Weimar» também significa.
Em História, a etiologia — a interrogação sobre as causas — nunca se confunde impunemente com a teleologia. Dito de outro modo, as causas nunca são causas finais. Para lá deste princípio de método, devemos evitar o efeito deslumbrante, por vezes mesmo alucinatório, da palavra «nazismo». Em 1932, os nazis são uma das duas grandes famílias da extrema-direita alemã, juntamente com o Partido Nacional do Povo Alemão (DNVP), e um dos múltiplos ramos das extremas-direitas europeias, então muito presentes em democracias fortemente contestadas, como França, a Bélgica ou o Reino Unido, mas também já no poder em muitos países (Itália, Polónia, Hungria, Áustria, Portugal...). São racistas e antissemitas, pretendem regenerar a nação alemã e imitam um discurso de justiça social bastante conveniente para ganhar votos. Mantêm duas milícias políticas (SA e SS), como praticamente todos os outros parti- dos alemães, e consideram que a violência é a parteira da História, ao mesmo tempo que juram respeito e fidelidade à Constituição do país — até ao exercício do poder, que os nazis não escondiam que seria violento. Bem integrados nos meios patronais, financeiros, nas elites patrimoniais, na burguesia e na aristocracia, até ao príncipe-herdeiro do Império, souberam conquistar os favores dos poderosos, da polícia e do exército. Eram, de resto, considerados parceiros de coligação perfeitamente aceitáveis pelo DNVP, naturalmente, mas também pelo Zentrum, quando o SPD não entendia, como acontecia cada vez mais frequentemente depois de 1930, que se devia dar-lhes uma oportunidade, já que nunca tinham sido experimentados, para se ver como se sairiam — mal, segundo toda a probabilidade, o que permitiria levantar a hipoteca.
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