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Há grande contraste entre as visões dentro e fora de Espanha sobre Pedro Sánchez: fora, em especial entre quem está ideologicamente à esquerda, o presidente do governo espanhol é elogiado pela apego ao direito internacional, pelo empenho no acolhimento dos migrantes, pela defesa do povo da Palestina e em especial o mais martirizado de Gaza, também pela veemência das criticas às práticas políticas de Trump e de Netanyah; dentro de Espanha, onde a atmosfera politica está irrespirável, Saánchez é visto pelas direitas como “chefe de um governo mafioso, mergulhado na corrupção”, e mesmo entre as forças progressistas e as nacionalistas da Catalunha e do País Basco que o sustentam no poder, há quem entenda que a exigência moral obriga a convocar eleições antecipadas. É facto que também há muita gente a pensar que a justiça espanhola se tornou política e tem juízes que atuam, em modo de estrategos e pontas de lança das direitas espanholistas, PP e Vox.
Há uma Espanha que ganha, é por exemplo a que já está na final do mundial de futebol, depois de um banho de bola à França de Mbappé.
Também na economia, a de Espanha é das mais robustas, das que mais cresce e está com melhores números na Europa. Ainda que a realidade também nos mostre grandes problemas: os jovens espanhóis não conseguem emancipar-se porque, tal como em vários outros países europeus, a habitação está insuportavelmente cara. E há muita desigualdade na sociedade espanhola, com muita gente nas fronteiras da pobreza.
Pedro Sánchez chefia o governo de Espanha há oito anos, depois de ter derrubado no parlamento o governo do PP Mariano Rajoy, que estava enredado em múltiplas histórias de corrupção.
Agora é Sánchez quem está cercado por escândalos de corrupção ou outra prevaricação, seja no partido ou até entre a família mais próxima.
David, o irmão do chefe do governo, foi ontem banido por nove anos, por um tribunal de Badajoz, de exercício de funções públicas, acusado de má conduta administrativa, no caso, por “ter beneficiado da influência por ser irmão de Pedro Sánchez” (que ainda não era presidente do governo) para ser nomeado diretor de artes em Badajoz.
Num outro caso, Begoña, a mulher de Pedro Sánchez, não pode sair de Espanha, um juiz proibiu-a e obrigou-a mesmo, como medida cautelar, a entregar o passaporte. Foi acusada por um auto-denominado sindicato mãos limpas, ligado à extrema-direita, de peculato, tráfico de influências, corrupção em negócios e apropriação indevida de fundos. O hipermobilizado e polémico juiz Peinado agarrou o caso que se tornou causa contra o poder dos socialistas. Mas grande parte de Espanha à esquerda acompanha o argumento dos socialistas de que o juiz está a atuar com motivação política, servindo-se de acusações judiciais para conseguir o que as direitas não têm força parlamentar para conseguir..
Tanto neste caso de Begoña como no de David Sánchez, não há provas evidentes de delito de corrupção, e estes casos fazem pairar a dúvida sobre se a justiça está a cumprir o dever de ser imparcial, sendo que as direitas clamam “sim, eles fazem parte da mafia de corruptos no governo” e as esquerdas gritam que muita gente na justiça espanhola está a manobrar de modo indevido para desgastar as forças progressistas no governo.
Mas se estes são casos que, por falta de evidencias, suscitam dúvidas, outros há em que a prática criminosa é óbvia e envolve gente que passou pelo topo do poder nos governos de Pedro Sánchez.
É o caso de José Luis Ábalos, ex-número dois de sanchez no Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e ex-ministro dos Transportes, que já neste ano foi condenado a 24 anos de prisão por – lê-se na sentença – “participação em organização criminosa, corrupção, peculato e tráfico de influências”, em ligação com subornos recebidos durante a compra de máscaras no período da pandemia de Covid-19.
Também há agora o caso do antecessor de Sánchez na liderança socialista, José Luis Zapatero, investigado por corrupção e tráfico de influencias.
O ambiente político em Espanha está envenenado. A luta política entre as direitas e as esquerdas não é combate entre adversários, é guerra entre inimigos que se odeiam e para quem, por isso, vale tudo.
Seja como for, a atmosfera de abusos do poder que há oito anos fez cair o governo PP de Rajoy, repete-se agora com o governo das esquerdas encabeçado pelo socialista Pedro Sánchez.
A diferença entre os dois cenários é a de que há oito anos, Sánchez, com o apoio da heteróclita convergência entre partidos nacionalistas bascos e catalães, conseguiu maioria para derrubar o governo do PP e fazer-se automaticamente eleger presidente do governo. Agora, as direitas PP e Vox, gritam estridentemente todos os dias a exigir eleições antecipadas “para que acabe a governação mafiosa encabeçada por Sánchez” mas não têm a força parlamentar necessária para apresentar uma moção de censura ganhadora.
Há uma evolução, nos últimos dias, perante novas suspeições e acusações, neste cenário; entre os diferentes aliados de Sánchez há crescente incómodo e impaciência perante o descrédito que contamina toda a área progressista envolvida com o PSOE. Aparecem as denúncias em voz alta desse descrédito que os escândalos envolvendo o PSOE estão a trazer à democracia e, especialmente, às esquerdas em Espanha.
A política é muito uma batalha moral.
Há em Espanha muita gente, conforme o setor ideológico, a interpretar os mesmos factos com visões morais distintas.
É evidente que as histórias que se sucedem, tanto no governo de Rajoy, derrubado em julho de 2018, como no atual de Sánchez causam dano enorme à democracia.
Pelas redes sociais espanholas correm torrentes de intriga ódio, com absoluta falta de respeito pelos adversários colocados como inimigos políticos.
É grande o contraste entre as visões sobre Sánchez, elogiado pelas esquerdas europeias, enquanto em Espanha é odiado pelas direitas (agora maioritárias em todas as sondagens) e posto em causa por muita da esquerda que o levou ao poder.
Não há harmonia à vista nesta Espanha tão fraturada, as eleições gerais, provavelmente só no ano que vem, parecem destinadas a dar o governo às direitas do PP, possivelmente em aliança com o Vox, mas a funda crispação não está para parar. E é de esperar o ressurgir de tensões inflamadas entre as autonomias, especialmente a catalã e a basca, e o centralismo intransigentemente nacionalista de Madrid.
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