O livro de Lewis contava a história de Berzelius “Buzz” Windrop que, depois de ser legitimamente eleito Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), consegue transformar o país numa ditadura. A história era uma distopia baseada em Hitler e Mussolini – a mulher de Lewis, Doroty Thompson, foi a primeira jornalista estrangeira a ser expulsa da Alemanha nazi, em 1934.

A narrativa é ficcional, mas mostra todos os passos necessários para passar dum regime democrático para um ditatorial, com a sua polícia política, colaboradores, opositores e a maioria da população que não percebe ou não se interessa pelo processo em andamento. Não dá para considerar se Lewis quis dizer que a evolução política não era possível numa democracia cheia de controles, os tais “checks and balances” para que tal não pudesse acontecer, ou se os controles constitucionais eram insuficientes.

No final, a democracia vence, mas o que interessa para o caso é que no presente, em que o país está a meio-caminho da autocracia, podemos ver claramente que afinal “pode acontecer aqui”. Não admira que o livro esteja a vender mais do que quando foi publicado.

Mas então, baseando-se nos pressupostos para a mudança de 1935, a equipa do The New York Times estabeleceu 18 categorias de erosão democrática, cada uma com uma pontuação que vai de zero (completamente democrático) a dez (completamente autocrático).

Independentemente do índice, tenho notado com preocupação a maneira como os media falam do governo; ao princípio (isto é, há um ano) havia um certo pudor em chamar autocrata a Trump, depois passou a ser normal, e agora já há muitos jornalistas, tanto da chamada “legacy media” (jornais, televisão) como na imprensa alternativa (certas revistas e os novíssimos substacks a dizer que ele é um ditador ou um “rei”.

À medida que o ambiente se torna mais assustador, a auto-censura espalha-se, e a incredibilidade esvanece-se, e torna-se evidente que o que se está a passar é diferente de tudo o que tínhamos visto acontecer na política norte-americana. Aquilo que todos gostam de falar, “a nossa experiência democrática”, parece que está a falhar, ou pelo menos a não conseguir prevalecer.

Reproduzo aqui o índice do The New York Times, com comentários de comparação com a nossa realidade: zero representa a situação nos EUA antes da eleição de Trump e os outros valores referem-se a Outubro de 2025, dez meses depois da eleição.

1 - Restrições a comentários e opiniões negativas (4/10)

A principal subida desta pontuação deve-se aos recentes distúrbios em Minneapolis, onde o Governo Trump está a conduzir uma operação militar sob pretextos duvidosos. O objectivo anunciado é procurar imigrantes ilegais, mas há muito poucos neste Estado. O objectivo real é criar medo nas pessoas que se opõem a Trump. As forças do ICE (já lá vamos ao ICE) e do Departamento de Segurança da Pátria tem partido vidros de carros, assaltado os motoristas, entrado em prédios inteiros sem qualquer mandato de busca e assassinou dois cidadãos – brancos e americanos natos. As agressões e fatalidades foram consuzidas de uma maneira muito pouco profissional pelos agentes, que batiam primeiro e depois é que perguntavam pelos documentos. Certas pessoas consideradas por Trump como seus inimigos são levadas a tribunal (caso de Jerome Powell, Director da Reserva Federal (um órgão que tem várias funções, como manter a estabilidade dos preços, controlar a inflação e regular o sistema bancário, algumas dessas funções equivalentes ao nosso banco de Portugal).

Também foi o caso de Procuradores Gerais, como Jack Smith, Alvin Bragg e Tanya Chutkan que fizeram parte de vários casos federais contra Trump. Muitos outros membros do judiciário e polícias do FBI também foram destituídos por estarem a fazer o seu trabalho, que por acaso era contra o Presidente.

2 – Perseguição de oponentes políticos (5/10)

O Presidente tem acusado, troçado e diminuido vários oponentes políticos, muitos dos quais já nem estão no activo. O seu alvo preferido é Joe Biden, que ele tem chamado de criminoso (“The Biden Crime Family”), desatento (“Slippy Joe”) e senil. Os Obama também têm sido tratados de forma negativa e racista. Ainda esta semana Trump publicou na sua plataforma “True Social” uma foto tratada com IA que mostra um casal de macacos com a cara deles. Também não se poupa a insultos institucionalmente impróprios a governadores, senadores e deputados.

3 – Contornar o legislativo (4/10)

O Governo Trump tem violado constantemente a Lei que o obriga a pedir autorização ao Congresso para certas despesas. Também esvaziou várias agências autorizadas pelo Congresso, incluindo a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional, que era a principal forma de soft power dos EUA no mundo e tratava e alimentava milhões de crianças. As famosas taxas (tarifas alfandegárias) que tem vindo a impor a todos os países do mundo também não teve aprovação do Congresso

4 – Desafio aos tribunais (2/10)

Trump tem vindo sistematicamente a ignorar ordens judiciais, mesmo desafiando algumas, numa tentativa e enfraquecer o poder judicial. Para essa situação contribui o Supremo Tribunal de Justiça, que chegou ao ponto de colocar na Lei que Trump não pode ser julgado, nem sequer indiciado, em processos como Presidente – haverá algum processo que possa ser feito contra ele como não-Presidente?

5 - Declaração de falsas emergências (5/10)

O Governo Trump tem declarado falsas emergências – como a de que o país está a ser invadido por “traficantes e violadores” para afundar barcos em águas internacionais, assassinando os tripulantes, sem qualque evidência legal que o sejam. Com a mesma lógica tem pretendido chamar a Guarda Nacional e o ICE para cidades que considera “ninhos de criminosos”. A Guarda Nacional, que é o exército regular do país, é tutelada pelos governadores dos Estados e só eles a podem mobilizar.

6 - Utilização dos militares dentro do país (3/10)

Trump colocou a Guarda Nacional nas ruas de Los Angeles e Washingon para reprimir manifestações, trata as forças armadas como se fossem tuteladas por ele, despediu oficiais de alta patente sem dar razões, tem feito discursos políticos para assembleias militares que ele convoca – tudo isto é contra a lei e o costume estabelecidos desde sempre. Há mesmo uma lei, chamada “posse comitatus, de 1878 que restringe o uso de forças militares federais para aplicação da lei civil sem autorização do Congresso. Transformou o ICE (Serviço de Imigração e Controlo de Alfândegas) numa força paramilitar com um orçamento superior a todas as polícias e deu-lhe poderes que não existem na lei, como entrar em casa das pessoas sem mandato de busca, deter pessoas na via pública sem ordem judicial e aterrorizar não só os imigrantes como também a população em geral. Criado em 2003 pelo Presidente Bush em seguida ao 11 de Setembro, o ICE cresceu exponencialmente em número de agentes, orçamento e isenção de restrições legais. Na realidade tornou-se uma polícia política, que muitos comentadores comparam à Gestapo.

7 – Vilificação de grupos marginalizados (7/10)

O Governo tem mantido uma retórica e uma acção extremamente violentas contra grupos específicos, alguns dos quais nem sequer organizados, como os imigrantes, os transgénero, os muçulmanos, judeus e negros. Sobre os somalis disse: “Não contribuem com nada. Não os quero no nosso país.”

O grupo Black Lifes Matter nem sequer existe oficiosamente, não tem sede nem dirigentes. Quando um negro é linchado, as pessoas espontaneamente manifestam-se usando cartazes com o slogan, que poderíamos traduzir por “As vidas dos negros têm importância”, mas depois de se manifestarem voltam à vida normal.

Convém lembrar que na extrema direita, entre os chamados “ultranacionalistas brancos” há dezenas de grupos organizados e armados, mas a lei não lhes toca – nem sequer quando atacaram o Capitólio. Aliás, foram todos indultados por Trump.

8 – Controlo da informação (3/10)

O Governo, por um lado, tanta manipular a informação, sem considerar, por exemplo, os cientistas especializados. Por outro lado, tem facilitado a compra ou fusão de empresas de informação, cinema e televisão, pagas pelos arqui-miliónarios tecnológicos, para controlar os conteúdos. (Desde o ano passado que os mega-milionários das empresas tecnológica tornaram-se trumpistas e tem oferecido grandes somas para projectos pessoais de Trump.

9 – Controlo das Universidades (2/10)

Desde o dia um na Presidência que Trump se tem dedicado a uma guerra aberta contra a independência das Universidades e Instituições de Ensino. Como todas elas vivem de subsídios federais, é necessário impor certos temas e despedir certas pessoas para que o Governo não elimine os fundos.Ou seja, uma politização da academia.

10 – Culto da personalidade (7/10)

Não há personalidade mais conhecida do que Trump, não só porque está sempre a aparecer e a usar as redes sociais, mas também por incluir o seu nome em instituições que não têm nada a ver com ele como ele também pouco se interessa por elas. Foi o caso do muito prestigiado Kennedy Center, onde ele se declarou presidente da assembleia gestora, como mudou o nome para Kennedy/Trump Center. O Instituto para a Paz em Gaza vai ficar num edifício com o seu nome. Criou uma nota de Ouro de um milhão de dólares, cuja compra dá direito de residência. A nota é de ouro e mostra perfil de Trump.

11 – Uso do governo para proveito próprio (6/10)

Favorece os governos estrangeiros que lhe dão presentes, como o Boeing 747 oferecido e aprova negócios entre esses países e as empresas da sua família – ele, os dois filhos mais velhos e o genro. Calcula-se que só em 2025 o “Grupo Trump” tenha ganho quatro mil milhões de dólares.

12 - Manipulação da Lei para se manter no poder (2/10)

No seu segundo mandato deu sinais assustadores de querer manter o poder na mão dos Republicanos. Em Fevereiro mandou o Governo Federal tomar conta das próximas eleições, que sempre foram organizadas pelos Estados. Quer proibir o voto antecipado, porque se provou que é o preferido dos Democratas e exclui muitas minorias, especialmente os negros.

A divisão destas doze áreas e a classificação de cada uma foram a escolha do The New York Times, mas poderíamos facilmente escolher outras áreas e aumentar o número de pontos entre Democracia (0) e Autocracia (10).

Não está aqui incluído, por exemplo, a aliança entre Trump que os grandes patrões das empresas tecnológicas, que é declarada abertamente por todos - Larry Elison, da Oracle da Antropic, Elon Musk da Starlink, Spacex e Tesla, Jeff Bezzos da Amazon, Tim Cook da Apple, Bill Gates da Microsoft e outros.

Também não está incluída a expansão territorial exigida por Trump, que inclui a Gronelândia, o Canadá e México, para não falar no surreal ataque à Venezuela, que tem o Presidente preso nos EUA, para onde foi raptado à força, e o mesmo governo chavista nas mãos da antiga vice-Presidente, que está disposta a criar um novo tipo de Estado, autogovernado autocraticamente e subordinado a Trump. E a história do Prémio Nobel...

A lista não acaba aqui, mas a excessiva exposição a Trump não faz bem à saúde. Toda a história do Mundo está a ser reescrita por este narciso mórbido, que não devia sequer dirigir uma pequena empresa. Não é a primeira vez que acontece. Mas espero, sem muita esperança, que seja a última.

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