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Revê-se na firmeza de Ramalho Eanes, na visão de Mário Soares, no humanismo de Jorge Sampaio, no institucionalismo de Cavaco Silva, no contributo de Marcelo Rebelo de Sousa para descrispar a sociedade portuguesa. Mas quer ser outra coisa e ajudar a resolver os problemas de Portugal. Se o país deixar.

António José Seguro, Tó Zé para os mais próximos, só pede "uma oportunidade" para mostrar o que vale. Ao 63 anos, está "cheio de energia e com muitas ideias para o país", garante. É a parte da energia que muitos têm dificuldade em ver: o candidato mostra-se apagado frente a uma concorrência de megafone. Foi assim que antes se deixou ultrapassar.

Tó Zé junta-se à Juventude Socialista em 1980 e chega à liderança do PS em 2011. Retira-se em 2014, depois de um golpe que muitos continuam a considerar baixo: António Costa tira-lhe o tapete depois das eleições europeias, vai a votos internamente e é eleito secretário-geral do partido. Passa automaticamente a candidato a primeiro-ministro nas legislativas do ano seguinte.

Nunca antes a liderança de um secretário-geral tinha sido tripudiada desta forma. Em dois anos, Seguro é escrutinado duas vezes pelos socialistas e das duas vezes vence sem margem para dúvidas: 67,98% (23.903 votos) em 2011, 96,53% (24.843 votos) em 2013.

Sob a sua liderança, o PS vence as autárquicas de 2013 — 36,26% (1.812.029 votos), contra 37,67% (2.084.382 votos) quatro anos antes — e vence também as europeias, conseguindo oito eurodeputados em vez dos sete que tinha na legislatura anterior. Recorde-se que António José Seguro herda um partido traumatizado pela derrota eleitoral de José Sócrates e mergulhado numa crise económica sem precedentes.

A estratégia de Seguro é reerguer o Partido Socialista com prudência e estabilidade, as mesmas que quer para o país, mas acaba por se ver enredado numa teia interna que ambiciona o poder e revela um choque de estilos: urgência e espetáculo versus método e discrição.

Muitos acreditam que o regresso de Seguro é uma espécie de vingança, um ajuste de contas com o partido. António José Seguro diz que não: "Sou um homem livre, independente e ajo segundo as minhas convicções. Saí quando podia dividir, regresso para unir", disse numa entrevista à SIC. "O meu foco é Portugal, que tem imensos problemas; problemas de criação de riqueza, de envelhecimento, do Sistema Nacional de Saúde. Podia gozar a praia em Foz do Arelho ou as vinhas em Penamacor, continuar a dar as minhas aulas. Mas acredito que posso dar um contributo ao país".

Da vila de 9.500 habitantes para Lisboa

António José Seguro não é apenas cordato na política e a sua vida pessoal ajuda a perceber a personagem. Casado, pais de dois filhos, Maria e António, sempre foi tido como um homem de diálogo e de compromissos. Não são só os seus que lhe reconhecem integridade e transparência, é também a oposição. Separa o espaço público do privado, mas que em qualquer dos casos é avesso a protagonismos e não gosta do culto do poder.

É o mais novo de três irmãos, Alberto, o mais velho, e Luís, o do meio. Nasceu em casa, com a ajuda de uma parteira, em Penamacor, a 11 de Março de 1962. A mãe, Maria do Céu Martins, morreu em 2011, dias depois de Tó Zé ter ido eleito secretário-geral do PS.

O pai, Domingos Seguro, começou a trabalhar com nove anos e "reformou-se" aos 81. Morreu em 2017, poucos dias depois de ter completado 91 anos. De origem humilde, subiu a pulso: foi dono do café Beirão, da Papelaria Seguro e de uma tipografia durante 60 anos, além de se ter envolvido na fundação dos Bombeiros Voluntários da terra, tudo referências no concelho. Domingos Seguro foi ainda vereador da Câmara Municipal de Penamacor entre 1982 e 1989.

Penamacor, uma vila tradicional, agrícola (agricultura de subsistência — cereais, olival, vinha) e comunitária, no coração da Beira Baixa, tinha na década de 60 uma população de cerca de 14.500 pessoas, mas em declínio devido à emigração, reflexo da realidade da época. Nos anos 80, tinha já perdido cerca de 5.000 habitantes. Hoje, o poder de compra do concelho ainda está 40% abaixo da média do país.

De acordo com testemunhos do próprio, em miúdo, António José Seguro brincava ao peão, jogava com berlindes e praticava futebol de pino. Futebol, teatro e atletismo foram, mais tarde, alguns dos seus hobbies. Não havia muito para fazer na terra.

Tinha 15 anos quando com um pequeno grupo de amigos fundou o jornal "A Verdade". Que, na realidade, era uma folha que passava de mão em mão mediante uma contribuição para pagar as despesas. A ideia correu bem e, para poderem continuar — já incomodavam algumas personalidades da região — foram obrigados a fazer tudo como manda o figurino, o que incluiu mudar o nome para "A Verdade de Penamacor", uma vez que o título anterior estava ocupado, e registar o jornal. Viveu cinco anos, até 1982, e chegou a tirar mil exemplares.

Se for eleito presidente, continuará a viver em Caldas da Rainha

Filia-se na Juventude Socialista dois meses depois da derrota do PS frente à AD de Sá Carneiro, que obtém maioria absoluta no final de 1979. Forma um núcleo da JS em Penamacor. A frequência do ensino superior leva-o para Lisboa, onde se sente "estrangeiro".

Talvez por isso, hoje diga que se for eleito, vai continuar nas Caldas da Rainha, onde reside, "e quando precisar de dormir em Lisboa" recorrerá ao apartamento que possui na capital. De resto, fazer quilómetros não é coisa que assuste o candidato e a prática já vai longa, é professor auxiliar convidado na Universidade Autónoma de Lisboa (UAL) e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).

A entrada na política significou, num primeiro momento, a saída do ISCTE, onde frequentava o terceiro ano de Gestão de Empresas. Mais tarde optou pela licenciatura em Relações Internacionais, na Universidade Autónoma de Lisboa, e teve de conciliar as aulas com o cargo de ministro-adjunto de António Guterres (Julho de 2001 a Abril de 2002).

Fez história o dia em que uma professora propôs ao então ministro realizar o exame num dos gabinetes particulares da UAL, sob a vigilância de um professor, para lhe poupar embaraços. António José Seguro nem hesitou: "Agradeço a atenção, mas faço o exame com os meus colegas". E fez.

Seguro regressa ao ISCTE no final de 2015 para concluir o mestrado em Ciência Política. O tema da dissertação é "A Reforma do parlamento português, 2007-2014. Análise organizacional da função de controlo político", com base na experiência do grupo de trabalho que liderou a reforma do Regimento da Assembleia da República. Recebe 18 valores.

A tese de doutoramento, "A função de controlo político do parlamento português (2000-2021)" está em processo. Talvez a conclua em 2026, mas vai depender do que acontecer a 18 de Janeiro. "Não gosto de deixar as coisas a meio. Não sei quando retomarei, mas não esqueço esse desafio", afirma no livro "António José Seguro, Um de Nós", recentemente editado pela Casa das Letras.

O regresso às origens: azeite, vinho e alojamento local

Se for eleito presidente, tem outros assuntos para resolver "em conjunto com a família", nomeadamente as empresas que terá de deixar. António José Seguro cria a sua primeira empresa no início de 2016, a I&D Food AHAS, Lda., uma startup que tem como objetivo juntar a inovação à valorização de produtos agro-alimentares. Três anos depois, escolhe seguir caminho na produção agrícola e no turismo e deixa a empresa, que ainda hoje existe.

Os negócios na agricultura e no turismo representam a ligação a Penamacor. "Tenho muito orgulho nas minhas raízes beirãs", repete amiúde. "O granito moldou-me o carácter; as dificuldades, a consciência social, a esperança num futuro melhor. Aprendi muito cedo o valor da solidariedade, da humildade e da persistência. Nos anos 70, estava tudo por fazer", diz em "Um de Nós".

Os vinhos Serra P são uma homenagem ao pai, "que plantou a primeira vinha há mais de 40 anos, em Serra Pedreira, Penamacor", o azeite Serra Magor e as Casas da Penha, um alojamento local, constituem hoje a sua atividade empresarial.

Outras rotinas terão de mudar: as aulas ou as caminhadas e os domingos de praia "ficarão prejudicados", pelo menos temporariamente. Ficarão a música, as férias de sempre em Porto Covo, alguns refúgios. Seguro é obcecado por pormenores, meticuloso. Precisa do seu tempo e do seu espaço — quando foi líder do PS mudou o gabinete de secretário-geral para o sótão da sede nacional, no Largo do Rato.

O desafio para se candidatar à Presidência da República foi feito em 2024. Mas na eleição de Pedro Nuno Santos, em 2023, um grupo de socialistas terá garantido a contrapartida de poder escolher o candidato a presidente — isso é, pelo menos, o que se conta à boca pequena. António José Seguro acabaria por se revelar o nome consensual.

Se antes se afastou e foi à sua vida, agora regressa com um plano: "Olho para o país e não gosto do que vejo. Vejo um Estado a abrir fendas, vejo uma sociedade a deslaçar, vejo uma democracia com uma camada muito fina e considero que uma das dimensão para servir a República é ter uma dimensão ética à prova de bala [...] A ética exerce-se a partir de Belém não tanto com palavras, mas mais com ação, designadamente quando tem de se intervir na nomeação de detentores de cargos públicos", explicou na entrevista à SIC.

"O cargo de presidente da República não é para fazer o jogo partidário; não serei um primeiro-ministro sombra em Belém. Quero ser presidente da República para unir os portugueses, tirar o melhor de cada um. Sou da família do socialismo democrático, da social-democracia e sou fiel a valores de liberdade, de igualdade de oportunidades, de dar às pessoas mais do que eu recebi da geração dos meus pais. É por isso que é importante ter presidente sensato".

Promete defender uma causa por cada ano na Presidência, a começar pela saúde, Salvar o SNS. Depois virá a demografia. "Serei um presidente activo de forma discreta. É preciso erradicar as causas dos problemas, isso leva tempo". Quer ser "um presidente fiel e leal à Constituição da República Portuguesa" e não acredita em portugueses de primeira e portugueses de segunda: "a Constituição não se aplica em função de um gosto pessoal"; "farei perguntas, farei exigências.

O presidente não governa, mas tem uma reunião com o primeiro-ministro todas as quintas-feiras".

As marcas que deixou ou o que passou em branco

Cumpriu Serviço Militar em 1988, na Escola Prática de Administração Militar, no Lumiar. Na altura, a tropa ainda era obrigatória, mas António José Seguro já defendia a redução de 12 para quatro meses, o que veio a acontecer em 1991, era já líder da JS. Mais tarde, defendeu na Assembleia da República o fim do SMO na revisão constitucional de 1992. Esta luta veio ajudar em muito a posição mais tarde tomada pelo PS.

Enquanto deputado à Assembleia da República (1990-2011, com interrupções), António José Seguro não ficou conhecido por grandes leis "de autor", mas por intervenções estruturais no funcionamento da Assembleia da República e na qualidade da democracia.

O seu legado principal foi a reforma do funcionamento do Parlamento (2007), com o reforço dos direitos da oposição, nomeadamente a criação de mais instrumentos de fiscalização e maior previsibilidade do debate, menos burocracia e maior autonomia dos deputados.

Em 2008, durante uma votação tardia e pouco mediática sobre alterações à lei do financiamento dos partidos políticos e das campanhas eleitorais, António José Seguro foi o único a votar contra, depois de tentar adiar e reabrir o debate sobre a matéria, alertando para o risco de a alteração fragilizar os mecanismos de controlo e transparência: "A lei visava abrir portas à entrada de dinheiro de forma menos correta". Foi o único deputado que se levantou para votar contra e tentou por tudo que lei não fosse votada.

O mandato de deputado ao Parlamento Europeu (1999–2001) foi relativamente curto, mas formativo e relevante para o seu perfil político. Trabalhou em áreas ligadas aos assuntos institucionais, à cidadania europeia e ao funcionamento democrático da União Europeia; foi co-autor do relatório sobre o Tratado de Nice — o único português a quem foi atribuída a responsabilidade de elaborar um relatório sobre um tratado europeu. Uma vez mais, não foi um eurodeputado de grandes pacotes legislativos.

A experiência no Parlamento Europeu explica as atuais críticas à União Europeia e à falta de liderança política: "A Europa anda às voltas numa rotunda e isso já acontece há vários anos. Não tem estado à altura do desafio". Apesar de ser um europeísta convicto, reconhece que o que sobra em relatórios falta em ação política: "Treze meses depois do Relatório Draghi ainda não se fez nada. A regulação excessiva tem atrofiado a economia. Se não mudar de vida, a UE é ultrapassada por outros blocos económicos e outros blocos políticos", considera. De resto, lembra que "os nacionalismos no passado foram responsáveis por milhões e milhões de mortos. Não podemos recuar".

Mais eficaz nas regras do que no jogo político, não é por acaso que foi dos últimos a oficializar a candidatura. Ao princípio ninguém levou a sério o nome António José Seguro e as principais críticas vieram de dentro do partido de que foi líder: "Não cumpre os requisitos mínimos", disse o histórico Augusto Santos Silva.

Ao contrário, Álvaro Beleza, mais do que um apoiante de primeira hora, desvaloriza a questão e afirma que são "cada vez menos os que não gostam. O PS é plural e isso faz parte, mas a maioria dos socialistas gostam do Seguro". Para o presidente da Sedes a animosidade vem sobretudo dos mais próximos da António Costa.

Aos que dizem que não tem carisma e não empolga o eleitorado, responde que também sabe dar um murro na mesa. Elogios públicos, criticas privadas, esta é a máxima. E seguro está "grato" por "um partido fundador da democracia portuguesa ter expressado o apoio à sua candidatura", mesmo que tenha demorado meses a fazê-lo. "Em 50 anos, o partido apoiou quatro personalidades do PS: Mário Soares, Jorge Sampaio, Manuel Alegre e eu", sublinha António José Seguro.

Pelo sim, pelo não, pede à esquerda e ao centro esquerda que concentrem os votos na sua candidatura. De resto, a candidatura presidencial é unipessoal e não tem o monopólio dos partidos. Com uma esquerda em declínio, a estratégia passa por captar votos em todo o espectro político: "Os partidos não dividem as pessoas inteligentes", diz. "Temos uma cultura de trincheiras em Portugal, precisamos de mudar isso".

"Sou uma pessoa agregadora, de consensos. Julgo que num tempo de grandes divisões é preciso um presidente da República que una, que mobilize e que sirva o país através da Presidência da República. Este é um tempo novo, que precisa de um presidente sensato, equilibrado, que saiba ouvir, que saiba compreender e que saiba mobilizar o país acima dos partidos políticos para responder aos graves problemas do país".

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