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Na cena, o protagonista discorda das respostas óbvias e aponta para a Venezuela: o país tem as maiores reservas de petróleo do planeta e fica a 30 minutos de míssil dos Estados Unidos.

Poucos anos após a exibição deste episódio, na semana passada, tropas americanas, tropas norte-americanas detiveram Nicolás Maduro em Caracas. A narrativa oficial aponta para o combate ao narcotráfico. Mas quando um país concentra as maiores reservas de petróleo do mundo, depósitos de minerais raros indispensáveis para tecnologia de ponta e uma localização estratégica a menos de duas mil quilómetros dos Estados Unidos, nem todos ficam convencidos de que se trata apenas de drogas.

A Venezuela tornou-se um dos territórios mais disputados pelas grandes potências. Será que a explicação está realmente na criminalidade ou no que existe debaixo da terra?

O maior tesouro petrolífero do planeta

A Venezuela deverá possuir cerca 303 mil milhões de barris de petróleo, é uma das maiores reservas comprovadas do mundo. Mais do que a Arábia Saudita. O petróleo não é um detalhe, é poder geopolítico em estado puro.

Estas reservas massivas permanecem concentradas sob uma única autoridade nacional, conferindo ao governo em Caracas uma influência potencial substancial sobre os fluxos globais de energia. Não se trata de um fornecedor secundário. A Venezuela é um dos poucos lugares no mundo onde recursos energéticos desta dimensão podem alterar equilíbrios de poder regionais e globais.

Devido às sanções norte-americanas, grande parte do petróleo venezuelano terá sido desviado para o mercado negro. Estimativas apontam que cerca de 80% acabam em refinarias independentes na China, com embarques que ocultam a origem do petróleo. Para Washington, este corredor energético no “quintal” americano a alimentar o rival estratégico é inaceitável.

O petróleo venezuelano é também particularmente valioso pela sua qualidade. Trata-se sobretudo de petróleo pesadomais caro de extrair e refinar, mas essencial para alimentar porta-aviões e navios de guerra convencionais da marinha chinesa. Este mesmo petróleo produz asfalto de alta qualidade, indispensável para as megaobras de infraestrutura que fazem da China a “superpotência global em construção”.

Venezuela
Venezuela créditos: The Next Big Idea

A guerra silenciosa pelos minerais raros

Mas há mais do que petróleo. A Venezuela tem depósitos gigantescos de coltan (um dos minerais críticos para a indústria tecnológica global) na Amazónia, avaliados em centenas de milhares de milhões de dólares. O coltan contém tântalo, um mineral que se tornou um dos mais cobiçados da era digital e militar moderna.

Estes minerais raros são a espinha dorsal invisível da tecnologia contemporânea. Sem tântalo, nióbio, gálio, germânio e grafite, não existem caças F-35, drones militares, chips de inteligência artificialarmas hipersónicasmunições de precisão guiadas ou sistemas de radar Patriot. Mesmo a produção de semicondutores (a base da revolução digital) depende criticamente destes elementos.

Aqui reside uma das vulnerabilidades estratégicas mais graves dos Estados Unidos: a China domina quase todas as etapas da cadeia de fornecimento de terras raras. De acordo com o Business Today, Pequim controla cerca de 70% da mineração global e produz até 90% dos elementos processados mundialmente. Washington, por sua vez, depende quase inteiramente de fontes estrangeiras para a maioria destes minerais críticos, e essa dependência concentra-se sobretudo na China, de onde provêm cerca de 70% das importações norte-americanas.

A situação tornou-se crítica quando, em resposta às novas políticas tarifárias de Trump, Pequim impôs restrições à exportação de doze minerais raros pesados, cruciais para a indústria de defesa americana. O alarme soou em Washington, isto porque garantir fontes alternativas destes materiais deixou de ser uma opção e tornou-se uma urgência de segurança nacional. E a Venezuela, com os seus depósitos inexplorados, surge como uma das poucas alternativas viáveis no hemisfério ocidental.

Nicolás Maduro
Nicolás Maduro créditos: The Next Big Idea

Geografia: o trunfo escondido

A Venezuela não é apenas rica em recursos. A sua localização geográfica confere-lhe um peso estratégico inigualável na disputa entre grandes potências.

O país situa-se próximo do Canal do Panamá, uma das rotas marítimas mais vitais do comércio global, por onde passa cerca de 6% do comércio mundial. Fica também a apenas 1700 quilómetros do território continental dos Estados Unidos (dentro do alcance operacional de mísseis de médio alcance e de sistemas de armas modernos).

Para a China, esta proximidade oferece uma alavancagem estratégica rara. Ter presença e influência na Venezuela significa ter um ponto de apoio no “quintal” tradicional de Washington, algo que Pequim valoriza enormemente na sua competição global com os Estados Unidos. É o equivalente asiático da presença militar americana no Mar da China Meridional, uma forma de equilibrar pressões e demonstrar alcance global.

Para os Estados Unidos, a crescente presença chinesa na Venezuela representa precisamente o oposto: uma ameaça direta à Doutrina Monroe, que há dois séculos define o hemisfério ocidental como área de influência primordial americana. A ideia de mísseis, tecnologia militar ou simplesmente influência estratégica chinesa a menos de 30 minutos de voo do território americano é algo que nenhuma administração em Washington pode ignorar.

A narrativa das drogas e as suas contradições

Washington apresenta oficialmente o conflito com a Venezuela como parte da “guerra ao narcotráfico”, alegando que o regime de Maduro transformou o país numa plataforma central do tráfico de cocaína na região. A narrativa aponta para ligações entre o governo venezuelano e redes de narcotráfico, justificando assim pressão económica, diplomática e, agora, militar.

No entanto, esta história revela contradições profundas que levantam dúvidas sobre as verdadeiras motivações da intervenção americana.

Em dezembro, Donald Trump perdoou Juan Orlando Hernández, ex-presidente das Honduras que havia sido condenado por tribunais norte-americanos a 45 anos de prisão. Hernández foi considerado culpado de transformar as Honduras num narco-Estado, responsável pelo transporte de centenas de toneladas de cocaína para os Estados Unidos. A sentença chamou-lhe “arquitecto” de uma estrutura criminal que operou durante anos com conhecimento e participação direta do presidente.

Semanas depois deste perdão presidencial, a mesma administração Trump invocou precisamente a ameaça do “narcoterrorismo” para justificar a operação militar que levou à detenção de Maduro. Esta contradição não passou despercebida a analistas e observadores internacionais, que sugerem que a narrativa das drogas serve sobretudo como instrumento político e jurídico, uma forma conveniente de legitimar ações militares sem ter de admitir abertamente os verdadeiros interesses em jogo: acesso a petróleo, controlo de minerais estratégicos e contenção da influência chinesa.

Trump e XI Jinping
Trump e XI Jinping créditos: The Next Big Idea

China e Rússia apoiam Caracas

Nos últimos quinze anos, China e Rússia transformaram-se nos principais apoiantes externos do regime venezuelano, fornecendo uma combinação de apoio financeiro, político e militar que tem sido crucial para a sobrevivência do governo de Maduro face às sanções ocidentais.

Pequim lidera esta presença. De acordo com o The Guardian, Entre 2000 e 2023, a China emprestou mais de 106 mil milhões de dólares à Venezuela, tornando-a o quarto maior receptor de crédito chinês no mundo. Estes empréstimos seguiram frequentemente o modelo “petróleo por dívida”: a Venezuela compromete-se a fornecer petróleo para pagar os empréstimos chineses, garantindo a Pequim acesso de longo prazo a recursos energéticos.

Em 2024, estimava-se que a dívida venezuelana para com a China rondasse os 10 mil milhões de dólares, uma quantia que não é desprezível, mas que para Pequim representa sobretudo influência política e presença estratégica no hemisfério ocidental.

Moscovo, por sua vez, forneceu armamento, conselheiros militares e apoio diplomático crucial. A Rússia vê na Venezuela uma forma de projetar poder na América Latina e desafiar a hegemonia tradicional dos Estados Unidos na região um jogo geopolítico que replica, noutro contexto, a presença militar americana na Europa de Leste.

O apoio chinês vai além do financeiro. Para Pequim, a Venezuela representa mais do que um fornecedor de petróleo, é um símbolo do seu alcance global e da sua capacidade de desafiar Washington no próprio hemisfério ocidental.

O que pode estar em jogo?

A Venezuela concentra três ativos geopolíticos fundamentais: as maiores reservas de petróleo do mundo, depósitos inexplorados de minerais raros essenciais para tecnologia e defesa, e uma localização geográfica que lhe confere peso estratégico inigualável no hemisfério ocidental.

O alinhamento crescente de Caracas com Pequim desafia diretamente a tradicional hegemonia norte-americana na América Latina. Para Washington, perder influência sobre a Venezuela significa não apenas perder acesso a recursos críticos, mas também permitir que a China estabeleça uma presença estratégica sólida a menos de dois mil quilômetros do território americano.

A operação que levou à detenção de Maduro, horas depois de este ter recebido uma delegação chinesa, pode não ter sido coincidência. Numa era de competição global entre superpotências, a Venezuela tornou-se um dos campos de batalha mais vigiados do planeta. E tudo começa, como tantas vezes na história da geopolítica moderna, no subsolo.

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