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A areia quente da praia, que faz os banhistas andarem em bicos de pés até à água, parece não afetar quem, num campo de areia no calçadão, joga, energicamente, futevólei. Afinal, quem corre por gosto não cansa.
O chefe da quadra é Argu Aguiar, um jovem brasileiro de 23 anos. Em 2024, colocou as memórias de uma vida em Fortaleza na mala e veio até à Costa da Caparica — o local escolhido para começar do zero.
"Decidi vir para Portugal porque além de querer conhecer culturas novas, queria muito viajar pelo mundo e para isso precisava de dinheiro. Com a valorização do euro em relação ao real, também fica mais fácil mandar dinheiro para o Brasil", conta ao 24notícias.
Juntamente com a vontade de conhecer o mundo, Argu trouxe consigo outro sonho — dar a conhecer o seu desporto do coração, que cada vez é mais proeminente em terras portuguesas.
"Eu tinha o sonho de poder treinar aqui, de poder dar aulas e poder mostrar um pouquinho do que eu sei para o pessoal de cá", diz.
O futevólei nasceu nas praias do Rio de Janeiro, na década de 1960, altura em que o futebol foi proibido nos areais cariocas. Para contornar a proibição, os jovens decidiram criar um novo desporto.
"Eles viram a rede e decidiram jogar vólei com os pés. A partir daí, foi desenvolvido ao longo dos anos", explica.
As regras são do vólei, mas aqui não é permitido utilizar as mãos e os braços. Tudo o resto, conta — desde a cabeça aos pés.
Para Argu, o que torna o desporto tão especial é a areia.
"A areia e o mar tornam tudo especial. E o que torna o futevólei divertido são os desafios. É um desporto ligeiramente mais complicado por ser na areia, mas quando começamos a aprender, torna-se viciante".
O futevólei entrou na vida do jovem cearense em 2020, durante a pandemia. O que começou por ser um hobby, hoje é a sua profissão.
No entanto, a jornada até esta etapa nem sempre foi tão suave. Quando chegou a Portugal, Argu pesava 117 quilos. A falta de preparação física e o julgamento alheio fez com que o jovem só voltasse a praticar o seu hobby cerca de sete meses depois de chegar ao país.
"Vi uns rapazes brasileiros a jogar e perguntei se me podia juntar, mas não deixaram. Olharam para mim, eu estava muito gordo e então presumiram logo que eu era mau", conta.
"O pessoal no futevólei tem muito esta coisa de 'eu quero jogar um jogo bom, não quero ensinar'. Então não me deixaram jogar naquele dia, mas eu sou brasileiro e tive de insistir mais uma vez".
Mais tarde, Argu conheceu um amigo, que, tal como ele, tinha vindo de Fortaleza para Portugal. Por incentivo do conterrâneo, voltou a tentar que os deixassem jogar.
Desta vez com permissão, surpreendeu dentro da quadra e, a partir daí, já não parou.
"Disseram-me para começar a dar aulas, começaram a convidar-me para jogos e até chegámos a participar num campeonato", recorda.
Com a ajuda da nova rotina, Argu perdeu 45 quilos e voltou à forma que precisava para explorar todo o seu potencial. Pouco depois, começou a dar aulas de futevólei, uma ideia que surgiu quando ainda estava no Brasil.
"Ainda no Ceará, eu e o meu amigo Gabriel dizíamos: 'Quando chegarmos a Portugal temos que montar um centro de treinos, e dentro desse centro vamos vender açaí'".
A ideia do açaí está para ser implementada, mas o sonho de ensinar concretizou-se este verão, com a abertura da Footvolley Academy Caparica.
"Eu bati o pé no chão e disse 'É agora, é verão e se não for agora, nunca será'. Nunca imaginei ter tanta gente a apoiar-me, foi muito bonito o movimento que foi criado à volta das aulas".
É Argu que dá as aulas e foi também ele que montou o negócio, mas recusa-se a ficar com todos os créditos do projeto.
"Eu construí isto com o apoio do Gabriel. Ele ajudou-me em muitas coisas, portanto é muito mais nosso do que só meu", afirma.
Atualmente, o jovem dá cerca de cinco aulas por semana, algumas particulares e outras em grupo.
"Temos planos individuais e planos de grupo. Há quem goste de treinar só comigo e há pessoas que preferem as aulas em grupo, porque preferem uma dinâmica mais divertida e descontraída".
Nas suas aulas, ensina a técnica que foi adquirindo ao longo do tempo, mas acima de tudo, trabalha o gosto pelo desporto e pelo exercício físico.
"Puxo muito pelo físico, até porque muitas das minhas alunas vêm às aulas porque querem estar bem fisicamente e ser mais saudáveis. Como o treino é na areia, em pouquíssimos treinos vemos uma grande diferença", diz.
Argu começou o negócio para fazer uma renda extra, uma vez que mantém o seu emprego num bar de praia. No Brasil, trabalhava como programador back-end, mas no próximo verão tem o objetivo de tornar-se nadador-salvador, longe dos ecrãs.
Acima de tudo, quer continuar a dar aulas, uma experiência que tem mudado a sua forma de estar na vida.
"Está a ser muito bom e acho que uma das melhores formas de gratificação pelo trabalho que eu faço é ver as minhas meninas a jogarem bem. Elas conseguem aprender e evoluir muito durante um treino. Sou apaixonado por fazer isto", admite.
Olhando para o futuro do projeto, Argu tem como principal objetivo ter as suas pessoas juntas — um dos grandes motivos que estiveram na origem desta ideia.
"A partir do momento em que entramos dentro da quadra, deixamos os problemas lá fora. Aqui temos os nossos amigos, com quem nos vamos divertir, e uma família para nos apoiar. As meninas que treino sabem disso e estou sempre a dizer-lhes que as quero ver unidas. Quero o meu pessoal comigo, e essa foi uma das razões para criar a escolinha — querer ter as minhas pessoas aqui em Portugal".
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