Quando pensamos em inteligência artificial, a primeira imagem que nos vem à cabeça não são vários hectares de cabos, chips e outros equipamentos sofisticados. Imaginamos os chatbots com respostas para tudo, os vídeos ou imagens rapidamente geradas com um prompt, ou os robôs já capazes de realizar movimentos que até há pouco tempo pareciam impensáveis.
No entanto, por detrás destas aplicações estão complexas redes de data centers, espalhados um pouco por todo o mundo, que são hoje os principais ativos para os quais as principais empresas tecnológicas olham. São eles que garantem todo o poder computacional que permite o desenvolvimento dos produtos que têm chegado até nós e todas as componentes de segurança para a forma, por exemplo, como os dados são utilizados.
2025 foi um ano marcado por alguns episódios de blackouts globais onde infraestruturas tecnológicas ligadas a aeroportos, hospitais e serviços digitais essenciais ficaram inacessíveis durante algumas horas, e é também responsabilidade destes hubs garantir que estes problemas são resolvidos o mais rapidamente possível.
No re:Invent, a conferência anual da AWS que decorreu em Las Vegas, estes temas estiveram em destaque numa conversa com Sérgio Loureiro, VP of Global Datacenter Operations da AWS, que acredita que o silêncio é o melhor sinal de sucesso de uma rede de data centers. “Acho que quanto menos as pessoas ouvirem falar de nós, melhor, porque isso significa que a rede está a funcionar”, explica.
Com uma formação em física e química e com uma carreira toda feita do outro lado do Atlântico, o executivo português aponta para a necessidade de uma espécie de “paranoia operacional” na gestão de toda a infraestrutura de servidores. A Amazon Web Services não só é a maior plataforma de cloud do mercado, como é cada vez mais o destino de empresas para desenvolver os seus produtos de inteligência artificial, o que obriga a um trabalho invisível para garantir que nada falha e que potenciais riscos são identificados antes de se tornarem problemas.
Como estão a evoluir os data centers?
O elevado consumo energético e de água tem sido a principal crítica a estas infraestruturas. Cada vez que nos cruzamos com artigos a mencionar o custo de dizer “olá” ao ChatGPT ou de gerar uma imagem de um gato a tocar bateria, a origem está precisamente nos recursos gastos pelos data centers para permitirem que isso aconteça.
Grande parte da inovação, quando comparada com a era pré-inteligência artificial, tem vindo precisamente no desenvolvimento de sistemas de gestão de energia e de refrigeração que garantam que toda a operação é sustentável e que os diferentes produtos tecnológicos, independentemente do nível de IA que têm integrado, possam dar uma boa experiência aos utilizadores.
Parte deste trabalho inclui também a descentralização das redes de data centers, partindo de uma abordagem cada vez mais local à forma como são implementadas em cada país. “No que toca às operações, passámos de organizações regionais independentes para organizações locais onde estamos a padronizar muitos dos procedimentos. Continuamos a permitir alguma variação local na interpretação; por vezes, existe um órgão legislativo, algum tipo de requisito regulamentar que seja necessário cumprir. Mas é realmente muito importante para nós que todos compreendam o que têm de entregar, como têm de o entregar e como devem operar”, acrescenta o executivo da AWS.
O caso português
Para Sérgio Loureiro, Portugal pode desempenhar um papel importante nesta transição devido aos avanços no setor energético nacional e à inovação trazida por um ecossistema cada vez mais robusto de startups e com mais apoio institucional.
“Acho que há um nível sólido de grandes instituições e, especialmente no setor da energia, como a EDP e a Galp, a trabalhar de facto em energias renováveis e coisas desse género. Do ponto de vista técnico, a população é bem formada e está, de certa forma, pronta para embarcar neste tipo de tecnologia, portanto, há um clima crescente que favorece de certa forma algum crescimento nesta área”, complementa.
Quando questionado sobre os investimentos portugueses em grandes infraestruturas de data centers como a de Sines e o potencial envolvimento da AWS, Sérgio Loureiro disse que não podia partilhar nenhum comentário no momento da entrevista (a 4 de dezembro de 2025).
O futuro vai passar pela computação quântica
Foi esta uma das tendências para 2026 que Werner Vogels, CTO da Amazon, partilhou na sessão de encerramento do re:Invent e que irá impactar a operação de data centers nos próximos anos. É uma área que Sérgio Loureiro acompanha de perto e que, ao contrário de outras, vai exigir um esforço conjunto de várias empresas.
“Penso que o quantum será provavelmente a maior transformação que irá acontecer, que poderá mudar completamente a forma como interpretamos a IA”, explica, apesar de considerar que ainda há bastante trabalho a fazer em termos de investigação e aplicação de conceitos.
O 24notícias The Next Big Idea esteve presente na edição de 2025 do re:Invent a convite da Amazon Web Services.
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