5

O teu filho está a fazer-te crescer?

Os nossos filhos absorvem todas as nossas inanidades e insanidades. Por essa razão, devemos estar cientes das emoções que experienciamos e que, injustamente, descarregamos sobre eles. Só podemos ensinar aos nossos filhos os conhecimentos que assimilámos na nossa própria vida. Se eles nos veem constantemente a descarregar as nossas emoções nos outros e testemunham a forma como os culpamos pela nossa falta de vivências, também procederão desse modo. Se observarem como acolhemos as oportunidades de introspeção e estamos prontamente dispostos a admitir as nossas falhas, vão aprender a não ter medo dos seus defeitos e a ser capazes de os ultrapassar.

A parentalidade consciente implica que perguntemos, nas nossas interações com os nossos filhos, «estou a lidar com o meu filho
de forma consciente ou estou a ser influenciado pelo meu passado?». O foco está sempre em nós, pais. Tal requer que olhemos
para o nosso íntimo e perguntemos: «O que é que estou, neste momento, a incluir nesta relação que me pertence a mim e com
que o meu filho não tem de lidar?»

Especialmente nos primeiros anos, os pais funcionam como espelhos para os filhos. Consequentemente, se não fores capaz de aceder à tua alegria, não conseguirás espelhar a alegria dos teus filhos. Assim, eles ficam impedidos de aceder a um aspeto essencial do seu ser. Quão triste é para uma criança não poder gozar a sua, naturalmente alegre, essência!

A nossa consciência e inconsciência não são transmitidas apenas através da manifestação da nossa dor, mas também da energia que emanamos simplesmente com a nossa presença, mesmo que não digamos ou façamos nada. Assim, os nossos filhos dão conta de muita coisa pela forma como os abraçamos a cada manhã, como reagimos quando partem a nossa jarra favorita, como nos comportamos num acidente automóvel, como nos sentamos a conversar com eles, se realmente reparamos no que nos mostram
e se prestamos atenção ao que dizem. Eles reparam quando nos intrometemos nas suas vidas com perguntas e exigências injustificadas e sentem quando nos afastamos deles ou os repreendemos. Sentem-se motivados pela forma como elogiamos o seu sucesso, mas ficam magoados quando os humilhamos pelos seus fracassos.

Têm consciência de como é estar na nossa presença, quando ficamos juntos em silêncio, e do campo energético de aceitação, ou rejeição, que sentem quando estamos por perto. Todas estas constantes partilhas transmitem consciência ou inconsciência.

Como podes oferecer aos teus filhos o que ainda não permitiste que te inundasse? A menos que te sintas pleno, vais usar os teus filhos para te completares. Vais ensiná-los a viver com os teus medos não reconhecidos, o vazio que rejeitas, as mentiras de que
te esqueceste — sempre sem te dares conta de que o estás a fazer.

"É Desta Que Leio Isto"

"É Desta Que Leio Isto" é um grupo de leitura promovido pela MadreMedia. Lançado em maio de 2020, foi criado com o propósito de incentivar a leitura e a discussão à volta dos livros.

Já folheámos as páginas de livros de autores como Luís Sepúlveda, George Orwell, José Saramago, Dulce Maria Cardoso, Harper Lee, Valter Hugo Mãe, Gabriel García Marquez, Vladimir Nabokov, Afonso Reis Cabral, Philip Roth, Chimamanda Ngozi Adichie, Jonathan Franzen, Isabel Lucas, Milan Kundera, Joan Didion, Eça de Queiroz e Patricia Highsmith, sempre com a presença de convidados especiais que nos ajudam à discussão, interpretação, troca de ideias e, sobretudo, proporcionam boas conversas.

Ao longo da história do nosso clube, já tivemos o privilégio de contar nomes como Teolinda Gersão, Afonso Cruz, Tânia Ganho, Filipe Melo e Juan Cavia, Kalaf Epalanga, Maria do Rosário Pedreira, Inês Maria Meneses, José Luís Peixoto, João Tordo e Álvaro Laborinho Lúcio, que falaram sobre as suas ou outras obras.

Para além dos encontros mensais para discussão de obras literárias, o clube conta com um grupo no Facebook, com mais de 2500 membros, que visa fomentar a troca de ideias à volta dos livros, dos seus autores e da escrita e histórias que nos apaixonam.

Subscreva a Newsletter do É Desta que Leio Isto aqui e receba diretamente no seu e-mail, todas as semanas, sugestões de leitura, notícias e acesso a pré-publicações.

Tal é o poder de não sabermos que estamos perdidos.

Enfrenta a tua reatividade

Através dos nossos filhos, obtemos lugares privilegiados para assistir ao complexo teatro da nossa imaturidade, uma vez que eles evocam em nós poderosas emoções, que nos podem fazer sentir que perdemos o controlo — juntamente com toda a frustração, insegurança e angústia que acompanham esta sensação.

Claro que os nossos filhos não nos «fazem» sentir assim. Apenas despertam as questões emocionais não resolvidas da nossa infância. Todavia, uma vez que eles são vulneráveis e praticamente impotentes, sentimos liberdade para os culpar pela nossa reatividade. Só haverá uma mudança se enfrentarmos o facto de o problema não serem os nossos filhos, mas a nossa inconsciência.

Como nos tornámos tão reativos? Não apenas herdámos certos guiões e papéis egoicos da nossa família, como herdámos também uma «assinatura emocional». Por trás de cada papel e guião há uma marca emocional única. Isso acontece porque, enquanto crianças, vivemos num estado de ser, sem ego, o que significa que as nossas defesas ainda não se formaram e estamos suscetíveis à energia emocional que nos rodeia. Interagimos energeticamente com o estado emocional dos nossos pais, absorvendo a sua marca, até essa energia se tornar no nosso próprio selo emocional.

A menos que, a certa altura da nossa vida, tomemos consciência da energia emocional que absorvemos dos nossos pais, vamos, inevitavelmente, gravar essa marca nos nossos filhos.

Por não termos sido ensinados pelos nossos pais, ou pela sociedade, a aceder à nossa calma interior e a encontrar a origem da dor e do prazer dentro de nós, somos reativos perante circunstâncias externas. Como não aprendemos a simplesmente perscrutar as nossas emoções, a honrá-las, a dar-lhes atenção e a crescer para lá delas, a nossa resposta aos estímulos externos torna-se cada vez mais emocionalmente tóxica. É aí que está a origem dos nossos ciclones de drama.

Quando somos educados para reprimir as nossas emoções mais obscuras, essas emoções formam uma sombra da qual somos apartados. Quando as emoções se separam da nossa consciência, ficam adormecidas, prontas para ser ativadas a qualquer momento.

É por isso que tantos de nós explodem inesperadamente. Sempre que essas emoções são desencadeadas pela sombra de outra pessoa, damos por nós zangados com a pessoa que as evocou. Repito, permitam-me deixar claro que ninguém teria o poder de evocar tais emoções, se elas não fizessem já parte da nossa sombra. Por não compreendermos isso, tentamos aliviar o desconforto de ter de enfrentar a nossa sombra, projetando essas emoções nos outros. Vemo-los então como os vilões da história. Temos tanto medo de encarar as emoções reprimidas, que, sempre que as reconhecemos nos outros, sentimos ódio, o que leva a provocação, a vitimização e, em alguns casos, a homicídio.

Porque é que pais e filhos tendem a entrar em conflito quando chega a adolescência? Porque é que os casamentos desmoronam? Porque é que as pessoas demonstram racismo e cometem crimes de ódio? Estas coisas acontecem quando somos separados da nossa sombra, da nossa dor interna. Por exemplo, se tivermos sofrido de bullying na infância, a menos que tenhamos resolvido a nossa dor, não seremos capazes de tolerar a dor dos nossos filhos, se passarem pelo mesmo. Nessa situação, é provável que fomentemos neles ou a incapacidade de lidar com as suas emoções ou a crença de que sob nenhuma circunstância se devem mostrar vulneráveis. Ao acreditarem que devem parecer poderosos e sob controlo, aprendem a ser machões, mesmo que não se sintam fortes. De inúmeras formas subtis, os nossos problemas relacionados com poder e controlo são impostos aos nossos filhos.

Quando as pessoas ou as circunstâncias nos transtornam, po- demos facilmente acreditar que a vida está contra nós. Adotamos um papel de mártir e achamos que a vida «nos quer fazer a folha» ou que está a «fazer jogo sujo» connosco, mesmo sendo a vida simplesmente neutra. Podemos começar a achar que ela nos deixa sempre em desvantagem.

A verdade é que não há «por aí» nenhum inimigo. A pessoa que nos causa uma reação está apenas a ser uma pessoa, e a situação, apenas uma situação. Vemo-las como o inimigo apenas devido à nossa incapacidade de compreender e dominar a nossa sombra interna, que projetamos sobre eles.

A reação mais conveniente, quando sentes que os teus gatilhos se ativam, é reconheceres a tua carga emocional como um sinal de que há algo que falta dentro de ti. Por outras palavras, a reatividade emocional é um motivo para perscrutares o teu interior e te focares no teu crescimento. Assim que perceberes que não há inimigos, apenas guias para o crescimento interior, todos os que
fazem parte da tua vida tornam-se espelhos do teu ser esquecido.

Os desafios da vida tornam-se, então, em oportunidades de regeneração emocional. Quando deparas com um impedimento, quer seja uma pessoa ou uma situação, em vez de o veres como um inimigo a que tens de reagir, faz uma pausa e pergunta: «O que
é que sinto que me faz falta?» Compreenderás que aquilo que te falta no teu entorno se originou numa carência interna.

Compreender isto encoraja-te a apreciar a pessoa, ou situação, pela sua gentileza em servir de espelho à tua carência. A divisão entre ti e o outro deixa, então, de existir, pois não se trata propriamente de um «outro», apesar de a pessoa ser um indivíduo em si, mas de um espelho da tua condição interior. Percebes que trouxeste esta lição espiritual para a tua vida porque o teu ser essencial anseia por mudança no teu comportamento diário.

Uma vez que nenhuma outra jornada é capaz de suscitar mais reatividade emocional em nós do que a paternidade, sermos pais convida-nos a ver as reações que nossos filhos desencadeiam em nós como oportunidades de crescimento espiritual. Ao trazer a
nossa sombra emocional para a ribalta, como nunca havia sido feito, a paternidade oferece-nos uma maravilhosa oportunidade de domarmos a nossa reatividade. De facto, a jornada parental tem a capacidade de ser uma experiência particularmente regenerativa, tanto para os pais como para os filhos. Cada momento é um encontro de almas, e tanto os pais como os filhos valorizam que cada uma dance num caminho espiritual só seu, de mãos dadas, porém sós. Depois de compreendermos isto, reagimos uns aos outros de forma criativa, em vez de destrutiva.

Descobre a tua herança emocional

Todos nos sentimos provocados diariamente por todo o tipo de razões. Enquanto pais, somos especialmente suscetíveis a isso, por
os nossos filhos estarem sempre por perto e a precisarem constantemente de nós.

No entanto, da próxima vez que os teus filhos te deixarem de mau humor, em vez de reagires motivado pela frustração, presta atenção à tua reação para compreenderes de que se trata esse gatilho. Esta disponibilidade para olhares para o teu íntimo — que
não requer introspeção para descobrires a causa do teu mau humor, apenas que tenhas consciência de que ele vem de dentro do teu ser, e não das ações de outra pessoa — permitirá que suspendas os teus pensamentos durante tempo suficiente para abandonares a reatividade e organizares uma resposta mais pragmática.

Livro: "Pais Conscientes, Crianças Felizes"

Autor: Shefali Tsabary

Editora: Alma dos Livros

Data de lançamento: 21 de janeiro de 2026

Preço: € 19,45

Subscreva a Newsletter do É Desta que Leio Isto aqui e receba diretamente no seu e-mail, todas as semanas, sugestões de leitura, notícias e acesso a pré-publicações.

A maioria de nós é capaz de identificar os próprios gatilhos a nível superficial, tais como: «fico fora de mim quando o meu filho me desrespeita», «fico fora de mim quando o meu filho não faz os trabalhos de casa» ou «fico fora de mim quando a minha filha pinta o cabelo». Estas são as razões superficiais para sentir- mos os nossos gatilhos ativados. Mas o que é que está, de facto, a ser desencadeado em nós? O que é que estamos a experienciar, a nível elementar?

Ceder aos gatilhos é uma forma de resistência ao que quer que esteja a acontecer na nossa vida. Ao reagir, estamos a dizer:

«Não quero esta situação, não gosto desta situação.» Por outras palavras, quando resistimos à forma como a vida se manifesta nos nossos filhos, no nosso companheiro ou nos nossos amigos, é porque recusamos aceitar a vida como ela é. Tal acontece porque a imagem ideal de nós mesmos a que estamos apegados — o nosso ego — está a ser abalado, o que nos parece ameaçador. Neste estado, ignoramos a capacidade de sermos desembaraçados e criativos na resposta que damos e, em vez disso, reagimos. A maneira como esta reação se manifesta depende dos guiões e papéis da nossa vida, bem como da nossa herança emocional.

Consciência significa estarmos despertos, verdadeiramente despertos, perante tudo o que experienciamos. Requer que sejamos capazes de reagir à realidade conforme ela se revela a cada momento. Essa realidade pode não ser o que achamos que deve ser,
mas é o que é.

Estar consciente implica abordar a realidade ciente de que a vida simplesmente é. Fazemos uma escolha consciente de ir ao sabor da sua corrente, sem querer controlá-la, ou que seja diferente daquilo que é. Entoamos o mantra «as coisas são o que são». Tal significa que educamos os nossos filhos tal como eles são, não como desejaríamos que fossem. Requer que aceitemos os nossos filhos da forma que são.

Mencionei anteriormente que quando nos recusamos a aceitar a nossa realidade — seja os nossos filhos pelo que são ou as circunstâncias em que nos encontramos — achamos que, se ficarmos zangados, tristes, felizes ou dominantes o suficiente, as
coisas poderão mudar. No entanto, acontece o oposto. A nossa incapacidade de aceitar a nossa realidade tal como é mantém-nos presos. Por essa razão, o primeiro passo para mudar a realidade é aceitá-la, não resistir-lhe.

Abdicar do controlo permite-nos interagir com a vida do ponto de vista da procura de conhecimento. Na verdade, as nossas maiores lições são aprendidas ao respondermos à vida tal como ela é. O que é essencial é começarmos pelo que é, e não pelo que não é. Reagimos aos nossos filhos no ponto em que estão, em vez de os empurrarmos para onde queremos que estejam.

Consegues ver a simplicidade de aceitar a parentalidade tal como é? Mesmo que os teus filhos estejam em sofrimento, em aflição ou a preparar uma birra, consegues aceitar estes estados como naturais e, por isso, plenos? Consegues reconhecer a sua plenitude
tal como é? Ao aceitares os teus filhos como são, mesmo que isso inclua as birras, dá-se uma pausa. Dessa pausa nasce o discernimento de como responder, em vez de reagir impulsivamente.

Se uma criança crescer com pais explosivos, que amuam, que se distanciam, ou que usam outras táticas de manipulação, aprende
que a vida deve ser combatida. As situações devem ser «geridas», subjugadas pela libertação das nossas emoções. As nossas palavras de ordem passam a ser: «Como te atreves?», «Como se atreve?» e «Como se atrevem?».

As pessoas que demonstram este género de emotividade car- regam um enorme sentido de privilégio, o que faz com que repitam frequentemente coisas como «mereço mais que isto». Por acreditarem que a vida lhes deve apenas experiências agradáveis, tentam evitar a dor a todo o custo. Quando a vida não colabora, rapidamente culpam outra pessoa, afirmando: «É tudo culpa dele.» Depois asseguram a si mesmos: «Tenho o direito de estar irritado!»

Quando os filhos de pais assim se tornam pais, é provável que reajam aos seus filhos com agressividade. Se uma criança se desvia
do plano que os pais traçaram para ela, fazendo as coisas à sua maneira, em vez de se submeter às sentenças dos pais, os pais podem recorrer à injúria para controlar a criança. Crianças educadas desta forma aprendem a ter medo, não a respeitar.

Acreditam que a única maneira de mudar algo é subjugando os outros, o que leva a que eduquem os seus filhos para que se tornem também ditadores, hostis na maneira de reagir ao mundo e, talvez, até violentos.

Conforme mencionei anteriormente, é claro que há sempre a possibilidade de uma criança que tenha sido totalmente subjugada pela raiva dos seus pais acabar com uma autoestima tão baixa, que, anos mais tarde, recrie nos seus filhos traços dos seus pais furiosos e abusivos. Por ser demasiado inseguro para exigir respeito, tal pai, ou mãe, permite que os seus filhos se tornem narcisistas, o que leva a que seja subjugado pela sua descendência.

Como integrar a dor?

As crianças, como é natural, sentem todas as suas emoções sem as bloquearem. Submetem-se espontaneamente ao sentimento
puro, depois libertam-se da emoção, à medida que ela passa. Desta forma, as suas emoções comportam-se como ondas.

Nós, adultos, temos, frequentemente, medo das nossas emoções. Temos dificuldade em tolerar sentimentos de rejeição, medo, ansiedade, ambivalência, dúvida e tristeza. Por isso, fugimos dos nossos sentimentos, quer seja enterrando-os ou evitando-os, resistindo-lhes ou descarregando-os em pessoas e situações externas, através da reatividade emocional. Muitos de nós recorrem à racionalização, a cirurgias plásticas, a contas bancárias recheadas ou a círculos sociais extensos para evitarem sentir. Ou então, defletem a dor — culpando, guardando ressentimentos e direcionando a raiva para a pessoa que acham que causou essa dor.

Uma pessoa consciente consegue não só tolerar as suas emoções, mas acolhê-las — e refiro-me a todas as suas emoções. Quando não sabemos honrar os nossos sentimentos, não honramos os sentimentos dos nossos filhos. Se vivermos num estado de falsidade, os nossos filhos vão aprender a reprimir os seus sentimentos e, desse modo, a viver em falsidade também. Se os encorajássemos a serem verdadeiros acerca do que sentem, da maneira que as crianças naturalmente são até as silenciarmos, eles não sentiriam necessidade de reprimir as suas emoções nem teriam vontade de as projetar nos outros. Por essa razão, se queremos ensinar os nossos filhos a viver vidas equilibradas, em que assumam total responsabilidade pelos seus atos, temos de honrar todas as suas emoções, para que eles não precisem de criar uma sombra. Desta forma, eles acabam por apreciar a vida como se de um tecido sem costuras se tratasse, em que cada ação e relação está energeticamente conectada.

Dito isto, é importante referir que há uma diferença entre reagir emocionalmente e sentir os nossos sentimentos. Muitos assumem que quando estão zangados ou tristes estão a sentir os seus sentimentos. Pelo contrário, muitas vezes estão simplesmente a reagir. Sentir verdadeiramente uma emoção implica sermos capazes de prestar atenção à incoerência que experienciamos nesse momento, sem a libertar nem a negar, albergando-a, simplesmente, e estando presentes.

Sentir as nossas emoções sem lhes reagir pode ser aterrorizador. Prestar atenção às nossas emoções requer solidão, o que é insuportável para muitas pessoas. Estamos demasiado habituados a ter um pensamento e a sermos provocados por ele, a sentir uma emoção e a reagir. Por exemplo, se nos sentimos ansiosos, comemos ou nos automedicamos de alguma forma. Se nos sentimos zangados, experienciamos uma urgência em desabafar ou até explodir com alguém. Pode parecer inútil sentarmo-nos a perscrutar os nossos pensamentos e sentimentos em paz, mas é precisamente ao fazê-lo que se aprendem as lições essenciais da consciencialização. Ao sermos testemunhas silenciosas dos nossos pensamentos e sentimentos, aprendemos a aceitá-los como são, permitindo a sua ascensão e queda dentro de nós, sem lhes resistir ou reagir.

Conforme aprendes a conviver com as tuas emoções, elas deixam de te dominar. Ao aceitares totalmente a rendição, que é muito diferente da simples resignação, passas a entender que a dor é apenas dor, nada mais e nada menos. Sim, dói — é esperado
que assim seja. No entanto, se não alimentares a dor, resistindo ou reagindo, mas lhe prestares atenção, ela transforma-se em sabedoria. A tua sabedoria aumentará de acordo com a capacidade de acolheres os teus sentimentos, seja qual for a sua natureza.

Com o aumento da sabedoria, aumenta também a capacidade de sentir compaixão.

Quando aprendemos a aceitar a totalidade da experiência — que as situações simplesmente não correm sempre como planeado, mas têm vontade própria — começamos a dançar ao sabor da vida. À medida que os nossos filhos nos observam nesta dança, também aprendem que para crescer temos de sentir todos os sentimentos que nos assolam. Aprendem a ultrapassar o medo das emoções desconfortáveis, e até dolorosas, de modo que nenhuma parte do seu ser seja reprimida.

Como lidar com a dor do teu filho

Ver os filhos magoados, quer física, quer psicologicamente, pode ser insuportável para os pais. Quando a dor é emocional, queremos resgatá-los, o que é, em parte, motivado pelo nosso próprio desespero por não sermos capazes de mitigar a sua dor. Pedimos para falar com o reitor, gritamos com o professor, queixamo-nos ao pai, ou mãe, da criança que ousou magoá-los, sem darmos conta de que isso fortalece a sua dor. Também promove uma incapacidade de tolerar a dor, tanto a sua como a dos outros.

Se queremos que os nossos filhos dominem as emoções deles, temos de lhes ensinar a entregarem-se ao que estão a vivenciar. Isso não é o mesmo que ser engolido pelas nossas emoções ou reagir. Entregarmo-nos implica, primeiro, aceitar qualquer estado emocional em que estejamos. Assim, encorajamos os nossos filhos a experienciar os seus sentimentos. Encorajamo-los a abrir espaço para que a dor que já existe dentro deles possa ter lugar.

Um exemplo do que acontece a uma criança quando não permitimos que a sua dor exista é o caso de uma menina de oito anos, ligeiramente acima do peso, com óculos grossos, que era frequentemente gozada ou ostracizada pelos seus colegas.

Extremamente consciente da sua aparência, tentou arduamente integrar-se, pedindo à sua mãe que lhe comprasse as roupas, malas e sapatos da moda. A mãe, uma mulher jovem e sofisticada, não hesitou em fazer-lhe a vontade. Nos dias em que esta menina chegava a casa e ficava a chorar durante muito tempo no seu quarto, recusando-se frequentemente a comer ou a fazer os trabalhos de casa, a mãe não conseguia suportar. Ela própria sentia-se envergonhada pelo aspeto da filha, o que a motivou a comprar-lhe uma passadeira rolante, a consultar um nutricionista e a incentivá-la a fazer exercício e a comer menos calorias.

Levava-a ao cabeleireiro com frequência e comprou-lhe lentes de contacto. Ligou à escola e exigiu uma reunião com os professores, pedindo que a filha não tornasse a ser ostracizada pelos seus pares. Para além de consultar um terapeuta que as ajudasse, a ambas, a lidar com a situação, começou a tomar comprimidos para a ansiedade.

A incapacidade desta mãe em lidar com a dor da filha, quanto mais ajudá-la a lidar com a própria dor, privou esta menina da oportunidade de sentir as suas emoções. Em vez de lhe ser permitido sentir-se magoada e marginalizada, foi-lhe feito crer que, se alterasse a sua aparência o suficiente, os seus colegas a aceitariam. Desta forma, ela estava a aprender que as emoções dolorosas eram demasiado dolorosas para que se pudesse lidar com elas e deviam ser varridas para debaixo do tapete, ou melhor, ser camufladas por diversas coisas que se «fazem», tais como culpar os outros ou corrigir o seu aspeto. Uma vez que todo o esforço foi dirigido para reprimir e disfarçar a sua dor, e nenhum para a ensinar a conviver com ela, a filha passou a acreditar, erradamente, que a sua persona externa era mais válida que o seu mundo interior, onde habitam os sentimentos. Claro que aquilo de que ela mais desesperadamente precisava era de ferramentas para lidar com a rejeição.

Quando permitimos aos nossos filhos que sintam os seus sentimentos, eles são capazes de se libertarem deles de forma incrivelmente rápida. Emergem da dor cientes de que a dor é apenas mais uma sensação. A antecipação da dor é, por vezes, mais insuportável que a própria dor. Quando os nossos filhos a experienciam na sua forma pura, sem a alimentarem com resistência e sem a colorirem com uma reação, a dor transforma-se em sabedoria e perspetiva.

Assim que as suas emoções tiverem sido processadas, as crianças deixam de sentir necessidade de se agarrar a elas durante muito tempo, como os adultos têm tendência de fazer. Elas sabem, intuitivamente, que, como o ondular do oceano, a dor chega em vagas — e da mesma forma que chega, vai embora. O motivo pelo qual nós, adultos, sentimos que dura para sempre é por os
nossos pensamentos terem ficado enredados nela com base num vestígio do passado. É na mente que a dor continua a existir, não
na situação em si. Isso acontece porque não abdicamos dela.

Parte dos nossos problemas é não estarmos habituados a lidar sozinhos com a dor. Preferimos projetar a nossa dor nos outros, acorrentando-os ao nosso drama emocional através da culpa, responsabilização ou raiva. Ou então recorremos a hábitos prejudiciais, como exagerar na comida ou no álcool, fazer exercício, tomar drogas ou medicação. Destas e de outras formas, tentamos gerir a nossa dor, canalizando-a para o exterior, o que, a longo prazo, a perpetua. O antídoto é prestarmo-nos atenção e sermos testemunhas da nossa dor, conscientes de que a dor se origina no apego ao ego. Conforme os nossos filhos aprendem a aceitar a dor como uma parte da vida natural e inevitável, deixam de a recear tanto e simplesmente reconhecem: «Estou a sofrer neste momento.»

Em vez de racionalizarem, julgarem ou resistirem ao que sentem, prestam-lhe atenção. Ensinamos-lhes isto despendendo tempo com eles quando são pequenos. Se eles precisarem de falar, falarão, e tudo o que nos é pedido é um aceno de reconhecimento ou uma afirmação do tipo «compreendo». Não é necessário usar lógica, motivá-los entusiasticamente ou apressar o momento. Permite apenas que haja espaço para o assunto.

Além disso, se a dor permanecer algum tempo, vejamo-la como uma experiência neutra, mantendo o drama afastado. Talvez possamos referir-nos a ela como «uma coisa», com diferentes matizes, apetências e estados de espírito. Acima de tudo, não aspiremos a que o nosso filho fique «contente» apesar da dor. Em vez disso, aspiremos a que seja autêntico.

___

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.