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ADEPAC: guardiã de São Miguel de Acha

Fundada em 2005, a ADEPAC – Associação para a Defesa do Património de São Miguel de Acha tornou-se um pilar na preservação cultural da freguesia. Desde a música tradicional até ao património arquitetónico, a associação aposta em múltiplas frentes de intervenção. O legado cultural da região é o seu mote para evoluir, conta Sofia Gonçalves, presidente da direção da ADEPAC, que admite ter-se apaixonado pela cultura da sua terra.

Ao longo dos anos, a associação dinamizou projetos como o grupo de cantares, ativo há duas décadas e hoje apoiado pela câmara municipal, conferências, exposições e o AMAAC Música Antiga, que oferece um concerto a cada estação do ano. Entre as atividades mais originais destaca-se ainda o “Encontro de Coleções da Minha Terra”, que dá palco a grupos etnográficos e incentiva a troca de ideias entre regiões.

"A população interessa-se muito pela música e pelo repertório da região", afirma a diretora, Sofia Gonçalves, em entrevista ao 24notícias. Lopes Graça, um etnógrafo e investigador de referência, chegou a fazer recolhas em São Miguel de Acha, um trabalho que a ADEPAC também faz "com pessoas mais velhas, mantendo a relação com os nossos antepassados, pelas letras, cantares, roupas", explica.

Apesar do entusiasmo, a dirigente reconhece as dificuldades: “É cada vez mais difícil fixar os jovens e encontrar pessoas para os corpos sociais. Mas temos muito orgulho no que fazemos". Para Sofia Gonçalves, trabalhar sobre cada recolha, cada cantar e cada traje "é uma forma de manter viva e promover a cultura local".

Para o futuro, espera poder ultrapassar o desafio da desertificação das aldeias do centro e captar pessoas que se interessem pela cultura popular. Diz ainda aspirar ao estrangeiro e querer promover mais encontros com outros grupos.

Lousa: danças que contam séculos de história

Na aldeia da Lousa, em Castelo Branco, as tradições ganham corpo todos os meses de maio, com as Danças da Lousa, inscritas no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial desde 2014. O ciclo anual inclui a Dança das Virgens, a Dança dos Homens e a Dança das Tesouras, cuja origem remonta ao século XVII, quando uma praga de gafanhotos assolava a região. Entre fé, resistência e arte, as coreografias transmitem de geração em geração a memória coletiva da Beira Baixa.

Para  Carlos Moura, representante da Lousa, preservar esta manifestação é uma questão de identidade: “As danças da Lousa fazem parte da ritualização do nosso património, e como tal, temos de as preservar, porque são identidade". Para o dirigente, o importante é que estas, como noutras manifestações populares semelhantes, sejam vistas: "Ao envolverem as pessoas, tornam-se naturalmente mais fáceis de manter vivas, porque as associam à sua própria identidade.”

A ideia de património associada ao sentimento de coletivo é repetida pelas várias associações que trabalham a arte popular, mesmo que se reconheça as dificuldades de visibilidade e sustentabilidade dos grupos.

“Não é fácil manter a tradição e, nesta área, o futuro é muito longe. Muito se perdeu com o passar das gerações no que diz respeito à etnologia", lembra. "De certa forma nestas terras a árvore da cultura popular estava intacta quando se transmitia ao serão na lareira onde "coabitavam três gerações", mas com a chegada da televisão e da internet, tudo mudou, defende.

"Mas existe uma investigação riquíssima que pode ser recuperada, como Lopes Dias e a sua Etnografia da Beira. A missão é respeitar as origens e despertar a ancestralidade destas terras”, acrescenta Carlos Moura.

Passa ao Futuro: o artesanato com olhos no amanhã

Com uma abordagem contemporânea, a associação Passa ao Futuro percorre o país para registar e apoiar mestres artesãos em risco de desaparecer. Documenta técnicas, organiza residências criativas e promove colaborações entre artesãos e designers, dando origem a peças como candeeiros, bolsas ou cestas.

Mais do que registar, a iniciativa cria pontes com o futuro. Jovens aprendizes recebem formação técnica e de gestão, sempre com a sustentabilidade como prioridade. E, por isso, estão inscritos nos objetivos europeus de desenvolvimento sustentável.

No entanto, a falta de apoio parece ser uma experiência universal destas associações. Não há tempo nem interessem em investir na etnografia e “a tradição está a desaparecer”, sublinha a direção da associação, na site online.

O Programa de Voluntariado da Portugal Manual & Passa Ao Futuro é uma forma de participar ativamente na construção de conhecimento e preservação da cultura, ajudando artesãos e artesãs a enfrentar os desafios da atualidade.

Canto a Vozes: o património está vivo e escreve-se no feminino

Outro exemplo de perseverança é a Associação de Canto a Vozes – Fala de Mulheres, que reúne atualmente 64 grupos de canto a cappella de matriz rural. Criada em 2020, conseguiu em apenas dois anos ver reconhecido o canto polifónico, a três ou mais vozes, como património imaterial nacional.

Agora, o objetivo é mais ambicioso: o reconhecimento internacional. Para isso, organiza encontros regionais, envolvendo autarquias, praticantes e especialistas. “Queremos preservá-lo, transmiti-lo, ampliar a sua prática — o que se tem vindo a fazer —, e dar a conhecer um património ainda vivo e muito diverso que é dos mais ricos da Europa”, destaca a associação, nas redes sociais.

Da Beira Baixa ao Alentejo, das vozes femininas ao artesanato, a diversidade cultural portuguesa encontra nas associações locais e nacionais os seus principais guardiões. Os desafios são muitos: o envelhecimento populacional, o desinteresse dos jovens, a falta de recursos, mas a paixão pela herança cultural mantém-se como força motriz.

Como resume Carlos Moura: “O passado é uma fonte inesgotável de aprendizagem", mas o património não é apenas memória: é também futuro. A real missão é adaptá-lo à contemporaneidade, que, por sua vez, continua a produzir material etnográfico. Desde a gastronomia, à dança, dos rituais religiosos aos pagãos, é importante olhar para o que o país tem de mais rico e garantir que não se esquece.