Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt

A ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela marcou um ponto de viragem inesperado na presidência de Donald Trump. Depois de uma noite descrita como de “choque e pavor” em Caracas, o Presidente norte-americano anunciou não só a captura de Nicolás Maduro e da sua mulher, como também a intenção de Washington assumir o controlo do país até existir uma transição de poder.

Numa conferência de imprensa em Mar-a-Lago, Trump revelou que uma equipa liderada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, e pelo secretário da Defesa, Pete Hegseth, irá governar a Venezuela em articulação com atores locais. “Vamos liderar o país até que seja possível uma transição segura, adequada e criteriosa”, afirmou.

Donald Trump fala ao mundo depois de atacar a Venezuela: "Vamos liderar o país durante algum tempo”
Donald Trump fala ao mundo depois de atacar a Venezuela: "Vamos liderar o país durante algum tempo”
Ver artigo

O que significa, na prática, “liderar o país” permanece pouco claro. Ainda assim, a declaração representa uma mudança radical face ao discurso que levou Trump à Casa Branca. O Presidente que prometeu acabar com “guerras eternas”, criticou duramente operações de mudança de regime e defendeu uma política externa de “America First”, coloca agora o seu mandato na reconstrução de um país sul-americano devastado por décadas de ditadura e colapso económico.

Apesar dos riscos, Trump mostrou-se confiante. Garantiu que a sua administração tem um “histórico perfeito de vitórias” e prometeu envolver empresas energéticas norte-americanas na reconstrução da infraestrutura venezuelana, assegurando que isso beneficiaria tanto os Estados Unidos como os venezuelanos. Não excluiu, inclusive, a presença militar no terreno: “Não temos medo de botas no terreno… tivemos botas no terreno ontem à noite”.

A frase contrasta com as críticas que o próprio Trump fez no passado à invasão do Iraque. Agora, o Presidente poderá ter de recordar as palavras do antigo secretário de Estado Colin Powell: “Se o partires, passa a ser teu”.

Uma presidência cada vez mais militarizada

Trump entrou na Casa Branca prometendo ser um pacificador, mas o último ano tem mostrado o contrário. Só na última semana, ordenou ataques aéreos na Síria e na Nigéria. Em 2025, já tinha autorizado ações militares contra instalações nucleares no Irão, embarcações de narcotráfico nas Caraíbas, rebeldes no Iémen, grupos armados na Somália e militantes islâmicos no Iraque.

EUA avisam para novos ataques na Nigéria em operações conjuntas com Abuja
EUA avisam para novos ataques na Nigéria em operações conjuntas com Abuja
Ver artigo

A Venezuela, no entanto, é diferente. Não se trata apenas de mísseis ou ataques à distância, mas de um compromisso direto com o futuro de um país. O objetivo, segundo Trump, é “tornar a Venezuela grande outra vez”, uma adaptação do famoso slogan "Make America Great Again".

A congressista republicana Marjorie Taylor Greene, citada pela BBC, criticou duramente a decisão, afirmando que “a repulsa dos americanos pela agressão militar interminável do nosso próprio governo é justificada”. “Isto é exatamente aquilo que muitos no Maga pensavam ter votado para acabar. Estávamos enganados”, escreveu.

Outros republicanos também levantaram dúvidas. O congressista Thomas Massie questionou a coerência entre a justificação legal da captura de Maduro — tráfico de armas e cocaína — e a explicação de Trump, centrada na recuperação de petróleo e no combate ao fentanil. Ainda assim, a maioria do Partido Republicano fechou fileiras, com o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, a classificar a ação contra um “regime criminoso” como “decisiva e justificada”.

Doutrina Monroe, versão Trump

Trump defendeu que a operação serve os interesses do “America First”, garantindo segurança regional e acesso a petróleo. Recuperou a histórica Doutrina Monroe, do século XIX, rebatizando-a de “Doutrina Donroe” (uma combinação dos nomes Donald e Monroe.). “O domínio americano no hemisfério ocidental nunca mais será questionado”, afirmou.

Segundo o Presidente, a nova estratégia de segurança nacional visa “proteger o comércio, o território e os recursos que são centrais para a nossa segurança nacional”, descrevendo o hemisfério ocidental como a “região doméstica” dos EUA.

Reações globais e riscos geopolíticos

A decisão de capturar Maduro levanta sérias preocupações internacionais. A China condenou o ataque, classificando-o como uma ação imprudente contra um Estado soberano — uma posição semelhante à que os EUA adotaram face à invasão russa da Ucrânia durante a administração Biden.

O congressista republicano Don Bacon, também citado pela BBC, alertou para o precedente criado: “A minha principal preocupação é que a Rússia use isto para justificar as suas ações ilegais e bárbaras na Ucrânia, ou que a China use o mesmo argumento para invadir Taiwan”.

Os democratas foram ainda mais diretos. O senador Brian Schatz afirmou que “os Estados Unidos não deveriam governar outros países por nenhuma razão”. Já Hakeem Jeffries, líder democrata na Câmara, reconheceu Maduro como “um criminoso e ditador”, mas criticou Trump por não consultar o Congresso: “Pôr a América em primeiro lugar exige respeitar a lei e as normas democráticas”.

Trump respondeu dizendo que não informou o Congresso por receio de fugas de informação.

Um sucesso militar… e agora?

A operação militar foi, do ponto de vista técnico, um sucesso: sem mortes americanas e com danos limitados. Trump descreveu-a como um “ataque espetacular” e “uma das mais impressionantes demonstrações de poder e competência militar da história americana”.

Agora, porém, o Presidente aposta o seu legado num desafio muito maior: governar e reconstruir a Venezuela, estabilizando uma região que observa com cautela os próximos passos de Washington. Se esta aposta redefinirá Trump como um líder transformador ou como mais um Presidente preso às armadilhas da mudança de regime, só o tempo o dirá.

__

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.