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Durante décadas, a música clássica esteve associada à crença de que ouvir determinadas obras, em particular Mozart, podia aumentar a inteligência. A ideia ganhou popularidade nos anos 1990 com o chamado “Efeito Mozart”, na sequência de um estudo de Rauscher, Shaw e Ky (1993), que observou uma melhoria temporária no desempenho de estudantes universitários em tarefas "visuoespaciais" após a audição de uma sonata de Mozart. No entanto, investigações posteriores mostraram que estes efeitos são de curta duração e não correspondem a um aumento real e duradouro da inteligência. A ciência tem, assim, vindo a desmontar a interpretação simplista e generalizada deste fenómeno
Segundo a psicóloga Catarina Lucas, a música clássica pode, de facto, "estimular o desenvolvimento cognitivo, ao promover a atenção, a memória, a concentração e o raciocínio abstrato". Estes efeitos estão relacionados com a sua complexidade estrutural e com a variação rítmica. No entanto, sublinha, os benefícios não são exclusivos deste género musical.
Helena Rodrigues, professora associada com agregação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa e membro fundador da Companhia de Música Teatral, reforça esta ideia ao 24notícias, destacando a dimensão relacional da experiência musical. “A música não existe no singular; e também não existe sem as pessoas. Muitas vezes, os efeitos atribuídos ‘à’ música não decorrem da música em si, mas da interação humana que se estabelece quando os seres humanos se relacionam através de uma prática musical — seja de escuta, interpretação ou criação.” Assim, acrescenta, os impactos no desenvolvimento cognitivo resultam não apenas do género ou da tipologia musical, mas também da qualidade da interação humana envolvida.
Sobre se o impacto é mais notório na infância ou na vida adulta, Catarina Lucas explica que o cérebro adulto mantém capacidade de adaptação ao longo da vida. Nesse sentido, a música continua a ser um estímulo relevante em qualquer idade. Em adultos, pode contribuir para a melhoria da concentração, da memória, da regulação emocional e da gestão do stress, reforçando a noção de que a estimulação cognitiva não tem prazo de validade.
Ainda assim, Helena Rodrigues chama a atenção para a necessidade de clarificar de que tipo de impacto se fala. “Se estivermos a falar da profundidade e da rapidez com que se aprendem as bases estruturais da expressão musical, então, tal como acontece na aquisição da linguagem verbal, é importante oferecer às grávidas e aos bebés cuidados humanos especiais — o que inclui proporcionar oportunidades musicais enriquecedoras.”
Na prática clínica, a música surge frequentemente como um recurso complementar. Catarina Lucas observa que a sua integração em rotinas de relaxamento ou de foco pode ter efeitos positivos. “Em pessoas com ansiedade ou dificuldades de concentração, a música ajudou a reduzir a agitação mental e a melhorar a capacidade de atenção.” Também em contextos de reabilitação cognitiva e de gestão do stress, acrescenta, a música tem demonstrado ser um recurso simples, acessível e eficaz para promover o equilíbrio emocional.
No campo da educação, a educação musical assume igualmente um papel relevante. A psicóloga sublinha que esta disciplina contribui para o desenvolvimento global, ao "estimular competências cognitivas, emocionais e sociais, como a atenção, a memória, a criatividade, a disciplina e o trabalho em grupo". Paralelamente, favorece a expressão emocional e a sensibilidade, elementos essenciais para um desenvolvimento psicológico saudável.
Sobre o impacto da escuta musical, Helena Rodrigues acrescenta ainda que “é importante lembrar que a escuta musical e sonora pode exercitar uma capacidade fundamental: a capacidade de escutar o outro com o corpo todo, com atenção focalizada ao que o outro expressa”.
É neste contexto que o chamado “Efeito Mozart” deve ser enquadrado. A ideia de que ouvir Mozart, por si só, torna alguém mais inteligente é um mito. Segundo Catarina Lucas, os estudos apontam apenas para efeitos temporários na atenção e no desempenho em tarefas específicas, associados a um aumento momentâneo do estado de alerta e do bem-estar, e não a um aumento real e duradouro da inteligência.
Ainda assim, Helena Rodrigues reconhece uma dimensão simbólica neste fenómeno. “Acredito que ouvir Mozart causa, pelo menos, um 'efeito mágico' — algo que os seres humanos procuram constantemente. A inteligência é também um caminho de transformação.”
Para além do debate em torno da inteligência, a música desempenha um papel relevante em várias condições clínicas. Catarina Lucas explica que é frequentemente utilizada como "complemento terapêutico em perturbações de ansiedade e depressão, na demência, na doença de Alzheimer, após AVC e noutras condições neurológicas". Nestes contextos, contribui para a "estimulação cognitiva, a memória, a comunicação e a regulação emocional, sendo igualmente útil na gestão da dor e do stress."
*Artigo editado por Alexandra Antunes
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