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No novo episódio de Explica-me Isto, analisamos os recentes desastres ferroviários em Espanha com Diogo Ferreira Nunes, jornalista especializado em transportes e mobilidade, para perceber o que se sabe até agora, o que está a ser investigado e que lições podem ser aprendidas em Portugal.
O acidente mais grave ocorreu na noite de domingo em Adamuz, quando um comboio de alta velocidade da empresa Iryo descarrilou. As últimas carruagens acabaram por invadir a linha contrária e embater num Alvia da Renfe, que circulava a cerca de 200 km/h. As duas primeiras carruagens do segundo comboio foram projetadas para um aterro com cerca de quatro metros de profundidade, concentrando o maior número de vítimas mortais. “Foi precisamente essa queda para uma zona mais profunda que agravou as consequências”, explica Diogo Ferreira Nunes.
Apesar da dimensão do desastre, o jornalista sublinha que, para já, “não se pode falar propriamente em erro técnico”. O sistema ferroviário é altamente complexo e raramente os acidentes têm uma causa única. “Normalmente, são muitos fatores em conjunto. Não é só uma pessoa ou duas”, afirma, lembrando que a investigação terá de analisar desde o estado da infraestrutura aos próprios comboios, passando pelos procedimentos operacionais.
Ainda assim, há aspetos que levantam dúvidas sérias, sobretudo ao nível da comunicação e da gestão da circulação. Segundo informações conhecidas recentemente, o intervalo entre o descarrilamento e o embate com o outro comboio terá sido de cerca de nove segundos. “Em nove segundos não dá para parar um comboio que circula a 200 quilómetros por hora. Isso é evidente”, explica. O que causa estranheza é outra coisa: “Hoje em dia, os centros de comando sabem exatamente que comboios estão na linha e em que localização. Dizer que não havia nenhum comboio a caminho é a parte mais estranha.”
A investigação aponta também para possíveis problemas na própria infraestrutura. Foram identificadas marcas nos rodados de comboios que passaram anteriormente no mesmo local, indícios que podem estar relacionados com uma falha nos carris. “O foco poderá estar na rede ferroviária em si. E isso torna a investigação muito mais difícil e demorada. Vai levar meses”, antecipa.
No que diz respeito ao segundo acidente, está em causa um comboio suburbano que embateu num muro de contenção que colapsou sobre a linha após dias de chuva intensa, provocando a morte de um maquinista de 27 anos. Aqui, o problema foi externo à via, mas levanta outra questão central: a prevenção. “Existem sistemas de deteção de queda de taludes, como os que já existem em Portugal, na Linha do Douro ou na Beira Baixa”, explica Diogo Ferreira Nunes. Sensores, redes de proteção e alertas automáticos podem permitir reduzir a velocidade ou cortar a circulação antes que o pior aconteça.
O episódio aborda ainda a politização do caso em Espanha, num contexto de grande instabilidade política. Partidos da oposição exigem responsabilidades, enquanto sindicatos e maquinistas alertam há meses para problemas na rede. “O mercado da alta velocidade abriu-se à concorrência e há hoje muito mais comboios a circular. A manutenção tem de acompanhar quase na mesma proporção, e não é claro que isso esteja a acontecer”, alerta o jornalista, lembrando as ameaças de greve geral no setor ferroviário espanhol.
A comparação com Portugal surge de forma inevitável, sobretudo com o acidente do Elevador da Glória ainda fresco na memória coletiva. Mas Diogo Ferreira Nunes sublinha diferenças importantes. “No caso português, os relatórios iniciais foram muito claros quanto às falhas de redundância e de manutenção. Em Espanha, sabemos que os comboios tinham manutenção em dia e cumpriam os padrões de segurança. Isso torna tudo muito mais complexo.”
Embora se fale de três acidentes muito próximos, Diogo Ferreira Nunes ressalva que “andar de comboio é considerado 28 vezes mais seguro do que andar de automóvel.” Ainda assim, acidentes desta escala mostram que a segurança exige investimento contínuo. “A manutenção pode parecer cara, mas é um investimento que salva vidas e evita custos sociais e económicos muito maiores.”
Sensores nos carris, monitorização por drones ou satélite, inspeções regulares e mais recursos para a manutenção são algumas das soluções discutidas num episódio que ajuda a perceber como funcionam os sistemas ferroviários modernos.
Há temas que dominam a atualidade, mas nem sempre são fáceis de entender. Em "Explica-me Isto", um convidado ajuda a decifrar um assunto que está a marcar o momento. Política, economia, cultura ou ciência, tudo explicado de forma clara, direta e sem rodeios. Os episódios podem ser acompanhados no Facebook, Instagram e TikTok do 24notícias.
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