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Há dias descobri uma possibilidade alarmante. Não, pior: um facto alarmante.

Uma velha amiga minha, radiologista, envia-me há vários anos recortes da British Medical Journal. Está a par do meu interesse em assuntos mórbidos e radicais. Arquivei na minha memória — aquele lugar onde a degradação e o embelezamento se sobrepõem — casos de doentes que explodiram quando um bisturi elétrico lhes inflamou os gases corporais e outros casos, dos primórdios da ressonância magnética, em que suturas metálicas disparavam como se de estilhaços se tratasse. Estas histórias são às vezes acompanhadas por fotografias: por exemplo, de um homem que deixou crescer as unhas dos pés de tal maneira — vários metros, tanto quanto me lembro — que foi incapaz de caminhar durante anos. Depois há a tarefa quotidiana da profissão médica de remover objetos inesperados que foram engolidos — como sacos de pregos — ou enfiados no reto à força. (Nos velhos tempos, os autoimplantes anais mais populares eram bustos em miniatura de Napoleão, um hábito que juntava patriotismo ao prazer.) E o caso, de que me recordo em particular, de um homem a quem tinham instalado um tubo de traqueostomia. No dia em que foi fazer um check-up, os médicos ficaram desconcertados ao encontrar várias manchas amareladas ao redor do orifício em que o tubo tinha sido introduzido. Ficaram a saber que o doente, um fumador inveterado, não sendo já capaz de fumar pela boca, percebera que o cigarro encaixava perfeitamente no orifício do tubo se o retirasse, de modo que a única coisa que tinha de fazer era acender o cigarro e insuflar os pulmões. Os homens (e a maior parte destas atividades bizarras foram levadas à prática por homens) conseguem ser muito engenhosos, mesmo que — ou em especial quando — isso seja contrário aos seus interesses.

O recorte mais recente que me foi enviado pela Dra. Jacky tinha, de forma bastante adequada, um cabeçalho literário: «Proust e Madalena: Juntos no Tálamo». Naturalmente, continuei a ler. «Madalena, como se recordarão, não era o amor da vida de Proust, mas um biscoito que, quando mergulhado no chá, criara uma memória autobiográfica involuntária (MAI).» A fonte do relatório era a revista Neurological Clinical Practice, e o sujeito, um homem de 45 anos que tinha sofrido um AVC hemorrágico localizado no tálamo posterior esquerdo. As consequências haviam sido muito mais radicais e específicas do que o delicado sobressalto que Proust (e o seu narrador ficcional) receberam de uma madalena — que não era exatamente um «biscoito», mas um bolinho rechonchudo moldado na forma estriada de uma vieira. O paciente revelou que «provar tarte de maçã desencadeava recordações de todas as tartes que já tinha comido, por ordem cronológica, e precipitando-se na sua mente como se de uma cascata se tratasse.»

"É Desta Que Leio Isto"

"É Desta Que Leio Isto" é um grupo de leitura promovido pela MadreMedia. Lançado em maio de 2020, foi criado com o propósito de incentivar a leitura e a discussão à volta dos livros.

Já folheámos as páginas de livros de autores como Luís Sepúlveda, George Orwell, José Saramago, Dulce Maria Cardoso, Harper Lee, Valter Hugo Mãe, Gabriel García Marquez, Vladimir Nabokov, Afonso Reis Cabral, Philip Roth, Chimamanda Ngozi Adichie, Jonathan Franzen, Isabel Lucas, Milan Kundera, Joan Didion, Eça de Queiroz e Patricia Highsmith, sempre com a presença de convidados especiais que nos ajudam à discussão, interpretação, troca de ideias e, sobretudo, proporcionam boas conversas.

Ao longo da história do nosso clube, já tivemos o privilégio de contar nomes como Teolinda Gersão, Afonso Cruz, Tânia Ganho, Filipe Melo e Juan Cavia, Kalaf Epalanga, Maria do Rosário Pedreira, Inês Maria Meneses, José Luís Peixoto, João Tordo e Álvaro Laborinho Lúcio, que falaram sobre as suas ou outras obras.

Para além dos encontros mensais para discussão de obras literárias, o clube conta com um grupo no Facebook, com mais de 2500 membros, que visa fomentar a troca de ideias à volta dos livros, dos seus autores e da escrita e histórias que nos apaixonam.

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Como disse, a minha primeira reação foi de alarme: imaginemos esses assaltos, a alta velocidade, de recordações esquecidas, uma avalancha histórica rugindo entre a nossa perceção do presente, destroçando a própria noção que temos de nós mesmos. E, como um amigo meu assinalou, como seria se a experiência estimuladora não fosse tão revigorante como comer uma tarte de maçã? Como seria, questionou-se ele, se nos peidássemos, por mais silenciosamente que o fizéssemos, e fôssemos então presenteados, por ordem cronológica, com todos os traques que já havíamos soltado? E assim por diante — cada um pode fornecer experiências pessoais sem qualquer dificuldade. Consideremos a esgotante ideia — ou visão — de alguns milhares de sanduíches de bacon a assaltar-nos a consciência (e seriam também rememoradas a qualidade e as diferenças entre elas, bem como a nossa reação às mesmas?).

Vou agora a meio da casa dos 70 e, como a maior parte das pessoas mais velhas, aborreço-me comigo próprio — e com isto refiro-me às minhas repetitivas lembranças de pensamentos e atos e, particularmente, opiniões. (E aqueles que nunca se sentem aborrecidos, que continuam a ser publicamente entretidos pelas suas próprias vidas e repetidas historietas, são habitualmente os maiores chatos à face da Terra. De novo, os homens, em geral.) Mas o tédio avassalador, frenético, das MAI a alta velocidade é, pelo menos de momento, inimaginável. Não seria suficiente para levar alguém ao suicídio?

A minha segunda reação foi mais ponderada, e mais literária. As MAI seriam por certo uma boa ajuda para a autobiografia.

Achamos que nos lembramos de determinado episódio «exatamente como ocorreu», e quantas mais vezes se tem essa lembrança, mais nos convencemos de que é verdade. Mas e se fôssemos repreendidos e corrigidos... pelo nosso próprio cérebro? Como seria se ele nos pudesse apresentar todas essas narrações secundárias e demonstrar até que ponto divergimos gradual mas sistematicamente da narração original? Não seria isso estranho e desorientador? Porém, útil também: dificilmente se pode denegar o próprio tálamo, não é verdade?

Livro: "Partida"

Autor: Julian Barnes

Editora: Quetzal

Data de lançamento: 22 de janeiro de 2026

Preço: € 17,70

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E se o nosso cérebro contivesse não só uma lista cronológica de todas as tartes que comemos, mas também de todas as nossas ações e inações morais? Sempre que dissemos «Amo-te», quer fosse a sério ou não. Sempre que não dissemos «Amo-te», quando o deveríamos ter feito, quando queríamos fazê-lo e não o fizemos. Como poderíamos enfrentar o registo — o registo cronológico — de todas as nossas mentiras, hipocrisias, crueldades, tanto as evitáveis como as (aparentemente) inevitáveis, dos nossos esquecimentos impiedosos, das nossas dissimulações, das nossas promessas quebradas, das nossas infidelidades por palavras e atos? Não apenas as nossas falhas factuais, mas as imaginadas e desejadas. Lembremo-nos da famosa entrevista do presidente Jimmy Carter sobre luxúria concedida à revista Playboy em que ele ousadamente confessou que tinha «cometido adultério no coração muitas vezes». Muitos de nós fizemos isso, tendendo a reter na nossa memória consciente apenas as fantasias mais encantadoras e menos indutoras de culpa. Mas então e os adultérios do coração mais constrangedores, inadmissíveis e promíscuos que escolhemos suprimir?

Houve uma segunda parte da célebre admissão do presidente Carter que me pareceu ainda mais arrojada. Depois de confessar os seus sonhos pecaminosos, o presidente prosseguiu: «Isto é uma coisa que Deus reconhece que farei — e que já fiz — e Deus perdoa-me.» Para alguém que não seja crente, isto parece demasiado presunçoso. Não só o Todo-Poderoso concede o perdão a Jimmy Carter no Juízo Final, como também lhe vai perdoando conforme vai pecando, a cada vez que o seu coração adúltero palpita. Mas talvez os presidentes tenham a capacidade de perceber melhor do que o resto de nós a magnanimidade e a natureza da Divindade.

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