Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
Há dias descobri uma possibilidade alarmante. Não, pior: um facto alarmante.
Uma velha amiga minha, radiologista, envia-me há vários anos recortes da British Medical Journal. Está a par do meu interesse em assuntos mórbidos e radicais. Arquivei na minha memória — aquele lugar onde a degradação e o embelezamento se sobrepõem — casos de doentes que explodiram quando um bisturi elétrico lhes inflamou os gases corporais e outros casos, dos primórdios da ressonância magnética, em que suturas metálicas disparavam como se de estilhaços se tratasse. Estas histórias são às vezes acompanhadas por fotografias: por exemplo, de um homem que deixou crescer as unhas dos pés de tal maneira — vários metros, tanto quanto me lembro — que foi incapaz de caminhar durante anos. Depois há a tarefa quotidiana da profissão médica de remover objetos inesperados que foram engolidos — como sacos de pregos — ou enfiados no reto à força. (Nos velhos tempos, os autoimplantes anais mais populares eram bustos em miniatura de Napoleão, um hábito que juntava patriotismo ao prazer.) E o caso, de que me recordo em particular, de um homem a quem tinham instalado um tubo de traqueostomia. No dia em que foi fazer um check-up, os médicos ficaram desconcertados ao encontrar várias manchas amareladas ao redor do orifício em que o tubo tinha sido introduzido. Ficaram a saber que o doente, um fumador inveterado, não sendo já capaz de fumar pela boca, percebera que o cigarro encaixava perfeitamente no orifício do tubo se o retirasse, de modo que a única coisa que tinha de fazer era acender o cigarro e insuflar os pulmões. Os homens (e a maior parte destas atividades bizarras foram levadas à prática por homens) conseguem ser muito engenhosos, mesmo que — ou em especial quando — isso seja contrário aos seus interesses.
O recorte mais recente que me foi enviado pela Dra. Jacky tinha, de forma bastante adequada, um cabeçalho literário: «Proust e Madalena: Juntos no Tálamo». Naturalmente, continuei a ler. «Madalena, como se recordarão, não era o amor da vida de Proust, mas um biscoito que, quando mergulhado no chá, criara uma memória autobiográfica involuntária (MAI).» A fonte do relatório era a revista Neurological Clinical Practice, e o sujeito, um homem de 45 anos que tinha sofrido um AVC hemorrágico localizado no tálamo posterior esquerdo. As consequências haviam sido muito mais radicais e específicas do que o delicado sobressalto que Proust (e o seu narrador ficcional) receberam de uma madalena — que não era exatamente um «biscoito», mas um bolinho rechonchudo moldado na forma estriada de uma vieira. O paciente revelou que «provar tarte de maçã desencadeava recordações de todas as tartes que já tinha comido, por ordem cronológica, e precipitando-se na sua mente como se de uma cascata se tratasse.»
Como disse, a minha primeira reação foi de alarme: imaginemos esses assaltos, a alta velocidade, de recordações esquecidas, uma avalancha histórica rugindo entre a nossa perceção do presente, destroçando a própria noção que temos de nós mesmos. E, como um amigo meu assinalou, como seria se a experiência estimuladora não fosse tão revigorante como comer uma tarte de maçã? Como seria, questionou-se ele, se nos peidássemos, por mais silenciosamente que o fizéssemos, e fôssemos então presenteados, por ordem cronológica, com todos os traques que já havíamos soltado? E assim por diante — cada um pode fornecer experiências pessoais sem qualquer dificuldade. Consideremos a esgotante ideia — ou visão — de alguns milhares de sanduíches de bacon a assaltar-nos a consciência (e seriam também rememoradas a qualidade e as diferenças entre elas, bem como a nossa reação às mesmas?).
Vou agora a meio da casa dos 70 e, como a maior parte das pessoas mais velhas, aborreço-me comigo próprio — e com isto refiro-me às minhas repetitivas lembranças de pensamentos e atos e, particularmente, opiniões. (E aqueles que nunca se sentem aborrecidos, que continuam a ser publicamente entretidos pelas suas próprias vidas e repetidas historietas, são habitualmente os maiores chatos à face da Terra. De novo, os homens, em geral.) Mas o tédio avassalador, frenético, das MAI a alta velocidade é, pelo menos de momento, inimaginável. Não seria suficiente para levar alguém ao suicídio?
A minha segunda reação foi mais ponderada, e mais literária. As MAI seriam por certo uma boa ajuda para a autobiografia.
Achamos que nos lembramos de determinado episódio «exatamente como ocorreu», e quantas mais vezes se tem essa lembrança, mais nos convencemos de que é verdade. Mas e se fôssemos repreendidos e corrigidos... pelo nosso próprio cérebro? Como seria se ele nos pudesse apresentar todas essas narrações secundárias e demonstrar até que ponto divergimos gradual mas sistematicamente da narração original? Não seria isso estranho e desorientador? Porém, útil também: dificilmente se pode denegar o próprio tálamo, não é verdade?
E se o nosso cérebro contivesse não só uma lista cronológica de todas as tartes que comemos, mas também de todas as nossas ações e inações morais? Sempre que dissemos «Amo-te», quer fosse a sério ou não. Sempre que não dissemos «Amo-te», quando o deveríamos ter feito, quando queríamos fazê-lo e não o fizemos. Como poderíamos enfrentar o registo — o registo cronológico — de todas as nossas mentiras, hipocrisias, crueldades, tanto as evitáveis como as (aparentemente) inevitáveis, dos nossos esquecimentos impiedosos, das nossas dissimulações, das nossas promessas quebradas, das nossas infidelidades por palavras e atos? Não apenas as nossas falhas factuais, mas as imaginadas e desejadas. Lembremo-nos da famosa entrevista do presidente Jimmy Carter sobre luxúria concedida à revista Playboy em que ele ousadamente confessou que tinha «cometido adultério no coração muitas vezes». Muitos de nós fizemos isso, tendendo a reter na nossa memória consciente apenas as fantasias mais encantadoras e menos indutoras de culpa. Mas então e os adultérios do coração mais constrangedores, inadmissíveis e promíscuos que escolhemos suprimir?
Houve uma segunda parte da célebre admissão do presidente Carter que me pareceu ainda mais arrojada. Depois de confessar os seus sonhos pecaminosos, o presidente prosseguiu: «Isto é uma coisa que Deus reconhece que farei — e que já fiz — e Deus perdoa-me.» Para alguém que não seja crente, isto parece demasiado presunçoso. Não só o Todo-Poderoso concede o perdão a Jimmy Carter no Juízo Final, como também lhe vai perdoando conforme vai pecando, a cada vez que o seu coração adúltero palpita. Mas talvez os presidentes tenham a capacidade de perceber melhor do que o resto de nós a magnanimidade e a natureza da Divindade.
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários