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As luzes acendem-se, o calendário do Advento marca os dias até ao Natal e o stress começa. A azáfama até às festas é muita e os dias em que as famílias se juntam podem ser fonte de tensão. Mas é possível passar estas datas de forma mais tranquila.

"É uma época que traz muitas recordações e muitas emoções ao de cima. Muitas vezes tem a ver com recordações de natais passados, com pessoas queridas que já partiram, convivências que já não se repetem da nossa infância e as pessoas podem ficar presas a isso", começa por explicar ao 24notícias a psicóloga clínica Maria Virgínia Melícias.

"Por outro lado, há uma certa obrigatoriedade social de as pessoas se juntarem e festejarem uma data — mas às vezes, ao longo do ano, não sentem necessidade de se verem. Portanto é quase como se fosse uma coisa forçada, que acaba por criar muita ansiedade, porque há aquela obrigação. Tenho que me juntar à minha família, mas até não há muita afinidade ou há algum problema e as coisas estão tremidas ou durante o ano ninguém se liga, mas depois no Natal temos de estar todos juntos e parecer muito felizes", reflete.

Para a psicóloga, estes dois fatores "normalmente criam muita ansiedade e muito stress" — e afetam "todas as idades", embora de maneira diferente.

"Normalmente as pessoas mais idosas têm muito aquela recordação de acolher o Natal em sua casa e podem sentir falta quando isso já não é possível. Porque os filhos entretanto têm outras vidas ou até porque já estão no lar. Os mais novos às vezes não têm ainda essa sensação, mas sentem o Natal como uma festa cada vez mais comercial, obrigatória e menos familiar".

Por sua vez, "a geração do meio" vive em agitação, já que "muitas vezes divide-se entre o dar apoio e estar com os pais já idosos e também promover junto dos mais novos este espírito de Natal".

No entanto, pode acontecer que "os mais novos muitas vezes não sintam esse apelo de juntar a família — mas, infelizmente, sentem o apelo de receber prendas e isso também pode ser fonte de stress".

"Os pais sentem-se obrigados a gastar dinheiro, sentem-se obrigados a fazer determinadas coisas. Tudo é visto do ponto de vista da obrigação e às vezes até mesmo do frete", reflete a psicóloga. "Há esta tradição cada vez mais imposta também pelo comércio e pelo consumismo. As famílias veem-se a par com grandes despesas para fazer face ao que os miúdos esperam e às vezes esse stress também é muito grande. Com todo este apelo às compras é muito difícil para os pais escolher entre aquilo que os filhos desejam e aquilo que podem realmente dar, sem sentirem que a sua imagem de pais perfeitos fica comprometida. Do ponto de vista económico é uma carga muito pesada".

No fundo, "as pessoas, em função das suas idades, vão ter expectativas ou ideias ou conceitos diferentes" no que toca às vivências. "Muitas vezes, num momento como este, numa época festiva, é complicado tentar agradar a toda a gente e há sempre alguém que por qualquer motivo fica desagradado. Nada que não se gira, mas estamos a falar de pequenas coisas que tornam toda esta dinâmica mais complexa", explica ao 24notícias o psicólogo clínico Bruno Caldeira.

Já entre casais, um motivo de stress pode ser escolher o lado da família onde se passa as festas. "É um tema muito sensível. Porque isso também já vem de trás e da forma como o casal encara a própria relação. Porque, efetivamente, numa relação a dois  — com casamento ou sem casamento — a relação não quer só dois, tem de incluir a família alargada", diz Maria Virgínia Melícias.

"Se um puxa mais para um lado e obriga, entre aspas, o outro a seguir essa norma, também está a privar o outro de estar com a sua família. Há situações em que não é possível estar com as duas famílias porque estão longe. Mas há sempre o equilíbrio possível de num ano estar com uns e no outro ano estar com outros — e na maior parte das vezes toda a gente se entende", realça a psicóloga. "É equilibrar as coisas de forma a que também sejam fáceis ou possíveis de pôr em prática. Não vamos entrar em viagens de seis a oito horas só para estarem com as duas famílias".

Para Bruno Caldeira, "qualquer momento que seja diferente daquilo que são as festas tradicionais ou habituais nas famílias" pode ser uma fonte de stress. "Temos de pensar em gerir três famílias, se houver uma criança: esta nova família, a família do pai e a família da mãe. Quem é que vai onde dia 24 e dia 25, qual é o momento mais importante, qual é o momento que mais se valoriza, quem é que fica com o quê".

"Muitas vezes há aqui algumas fricções, há uma série de expectativas que são criadas, há coisas que às vezes são uma espécie de tradição de família que acabam por ser alteradas quando existe uma nova família. Ou seja, tradicionalmente, eu passo com a minha família, mas a partir do momento em que eu crio a minha própria família, às vezes essa tradição tem de ser alterada, por diversas razões. Portanto, eu diria que as fricções têm muito que ver com isto: com a escolha do local, a escolha do momento e um bocadinho depois também o que é que é suposto fazer, os papéis, quais é que são as funções, quando as coisas estão estruturadas em termos de 'vamos todos jantar, vamos todos fazer a consoada à casa da avó, que cozinha para toda a gente'. Há uma tradição e está tudo bem, mas de repente, se a avó deixou de existir, quem é que vai ter esse papel, essa função agregadora? Isto depois começa aqui, obviamente, a trazer algumas dificuldades", nota.

Bombas a explodir não se querem à mesa

E se à mesa surgirem temas desconfortáveis, tudo tem solução. "Não é uma situação fácil, porque as pessoas estarem juntas obrigatoriamente naquele dia traz ao de cima esses temas mais fraturantes ou alguma coisa que aconteceu e que tornou evidente as diferenças entre as famílias. Mas a melhor forma de lidar com isso é pôr o foco não nessas divergências mas sim na possibilidade de poderem estar juntos e poderem estar a usufruir daquele dia", aconselha a psicóloga Maria Virgínia Melícias.

"Quando os temas surgem, tentar lidar com eles de forma consciente e madura, falar abertamente de maneira a que não estrague a festa de toda a família ou aceitar que não é a altura ideal para falar e para trazer esses assuntos à tona e que outras alturas haverá para tratar disso. Às vezes as famílias conseguem dar a volta outras vezes não conseguem — e quando assim é, cada ano acaba por ser maior o stress associado ao Natal, porque há o medo de que venham essas questões. Há o medo de alguém perder o controlo e dizer algo que magoa. Portanto, acaba por ser aqui também um potenciador do stress associado ao Natal", diz a psicóloga clínica.

Já Bruno Caldeira recorda que "as dinâmicas que temos nas nossas famílias não desaparecem porque existem momentos festivos. Quando nós temos dinâmicas de relação carregadas de ansiedade ou de tensão — porque é preciso ter cuidado porque o pai, o avô, a mãe e a sogra não gostam de determinada coisa ou quando se discute um determinado assunto —, de repente há sempre esta tensão de que alguém diga a coisa errada e às vezes tem a ver com os modelos de comunicação que já existem na família. São situações muito difíceis de ultrapassar porque a família não muda o modelo de comunicação naquele momento".

Assim, a verdade é que há alguém sempre a pensar "Quando é que a bomba vai explodir?". "Ou seja, qual é o momento em que de repente alguém vai fazer qualquer coisa que vai pôr em causa tudo aquilo que é a harmonia".

Todavia, o psicólogo também recorda que "há famílias em que as coisas correm muito bem, as estruturas estão muito bem definidas e não há questão nenhuma".

Mas "há outras em que, infelizmente, estas questões se colocam de forma transversal, desde a criança até ao avô ou à avó, que podem até já não ter propriamente a mesma capacidade de resistência às dinâmicas. É curioso, porque às vezes são os extremos os primeiros a dar conta de que as coisas não estão a correr muito bem. Eu diria que as pessoas, também com mais idade, na generalidade das vezes, também já não têm propriamente paciência ou capacidade para fazer de conta e, portanto, o que acontece é que, efetivamente, acaba a coisa por correr menos bem".

O segredo: equilíbrio e gerir expectativas

Com todas estas questões, como lidar então com o stress da família reunida? As estratégias podem ser várias e cada família deve adaptar tudo ao seu modo, mas o segredo pode estar numa pequena palavra já aqui referida: equilíbrio.

"Quando são famílias equilibradas e em que as relações são verdadeiras e são trabalhadas ao longo de todo o ano, mesmo que as pessoas estejam longe umas das outras, o Natal faz todo o sentido e o stress pode ser um stress muito prático: viagens, deslocações e compras, ponto final. Mas há por trás disso uma motivação familiar e de sentido de Natal que minoriza o outro stress. Quando há alguma disfunção e quando as pessoas fazem estas festas porque é uma obrigação social e têm de estar juntas acaba por ser mais difícil e o stress é maior", aponta Maria Virgínia Melícias.

Por isso, defende que a estratégia é apenas uma. "No fundo é pensarem e adaptarem o Natal também aos seus valores, às suas crenças e àquilo que faz sentido. Se de facto faz sentido estar em família, então tentarem aproveitar aquilo que de melhor o momento tem, até pelas pessoas que não têm oportunidade de ver muitas vezes e que naquele dia estão presentes".

Por outro lado, todos devem "tentar focar-se mais no lado positivo de estar com pessoas e de aproveitar isso do que nos aspectos que possam ser mais negativos e que causam mais stress. Eu costumo dizer que tudo tem um lado positivo. Então é puxar por esse lado positivo e também tentar que cada família e cada pessoa identifique o verdadeiro valor do Natal para si e viva de acordo com isso".

Para Bruno Caldeira, também é importante "tentar não criar expectativas irrealistas, tentando perceber que aquele é só um momento em que estamos juntos para comemorar ou para aproveitar o momento em si mesmo e que não faz muito sentido achar que vamos ter o melhor Natal de sempre — nem antecipar o pior Natal de sempre. Há um equilíbrio realista que devemos ter".

Por isso, é importante "conversar um bocadinho sobre aquilo que gostaríamos que acontecesse", já que assim é possível prevenir situações difíceis, ou seja, "antecipar e identificar as áreas que podem ser problemáticas e tentar geri-las eventualmente envolvendo a outra pessoa".

"Vamos tentar valorizar tudo aquilo que é nosso e tudo aquilo que é a nossa dinâmica. Como nas dinâmicas interpessoais, não é o facto de ser um momento simbólico que faz com que nós consigamos sair dos nossos modelos e das nossas dinâmicas anteriores para entrar numa dinâmica nova", reforça. "Mas podemos tentar ser muito claros naquilo que esperamos nos outros e isso às vezes ajuda, até porque, em última análise pode antecipar os problemas", acrescenta o psicólogo clínico.

"Portanto, em vez de lidarmos com uma situação de convívio alargado em que de repente há uma série de problemas a acontecer em simultâneo e nós não temos capacidade para lidar com eles — até porque depois temos também que lidar com as questões mais logísticas, do que é que está a acontecer e do que é que se faz — devemos eventualmente permitir que pequenos núcleos de atenção sejam desmontados antes mesmo de chegarmos a esse dia", remata.

E se alguém achar que não comparecer nestes eventos é a solução, essa alternativa também não é errada por si só. Contudo, "afastar-se das situações destas festividades em família tem duas perspetivas diferentes".

"Se nós entendermos que é um elemento protetor, ou seja, que para nós, efetivamente, nos desgasta menos, nos traz menos sofrimento, menos angústia, menos ansiedade, será sempre uma solução possível. Mas temos de ter capacidade de lidar com as consequências disto. Se depois nos conseguirmos proteger da reação que os outros vão ter, da cobrança que eventualmente vai acontecer por causa deste afastamento, esta pode ser uma forma de salvaguardarmos e de garantirmos o nosso bem-estar", nota.

Todavia, "se sentirmos que o retorno vai ser ainda mais pesado do que aquilo que ganhamos com esta coisa do não estar presente, ou seja, se depois vamos sofrer a dobrar, a angústia vai surgir de forma ainda mais forte e a ansiedade e a pressão vão ser ainda mais complicadas de gerir, então eu diria que temos sempre de ter isso em consideração. Na verdade, se nós queremos ter esta postura maior de afastamento, ou seja, de podermos fugir ao problema, temos de nos ir preparando ao longo do ano", conclui o psicólogo.

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