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Em “1984”, a distopia escrita por George Orwell em 1949, o mundo está dividido em três impérios, Oceania, Eurásia e Eastasia, em guerra permanente. Às vezes dois impérios formam uma aliança contra o terceiro, outras vezes mudam de lado abruptamente, sem que sejam dadas explicações. É o Parido totalitário da Eurásia que diz aos proletários “Sempre estivemos em guerra com a Eastasia.” Publicações e livros de História são rapidamente alterados para dar veracidade à narrativa.
Diz a jornalista Anne Applebaum na revista “The Atlantic: “o mundo de Orwell é ficção, mas há quem queira torná-lo uma realidade. Desde muito antes do segundo mandato de Donald Trump, a ideia de que o mundo deveria ter três esferas de influência – Asia, dominada pela China, Europa dominada pela Rússia e o hemisfério Ocidental dominado pelos Estados Unidos – tem aparecido amiúde na Internet com uma certa incoerência, promovido sobretudo pelos russos, que querem controlar aquilo a que chamam “a proximidade dos outros”, ou talvez pretendam apenas que o seu país, com uma economia fraca e um exército de má qualidade, seja mencionado na mesma frase que os Estados Unidos e a China.
Na movimentação das peças neste xadrez, tudo indicava que o mundo caminhava nessa direcção, algures no final do século XX. Agora, terminado o primeiro quarto do século XXI, parece que já não há defesa possível para este xeque-mate civilizacional.
Poderíamos, sem dificuldade, juntar todos os acontecimentos dos últimos anos para mostrar a inexorabilidade da situação. Mas vamos ficar-nos por três acontecimentos, de escalas diferentes, que ocorreram neste ano de 2026, ainda recém-nascido.
A prisão de Nicolas Maduro
Não é a primeira vez que os Estados Unidos interferem ilegalmente (fora da legalidade reconhecida pelas nações) num país do continente americano. Têm-no feito desde o século XIX, quando, em 1823, o Presidente James Monroe, expôs no Congresso que “a América é dos americanos”, querendo dizer que europeus ou quaisquer outros não têm o direito de interferir nos negócios do continente, e mais exactamente que os Estados Unidos passarão a ser os únicos decisores dos outros países das américas central e do Sul.
Na maioria das suas intervenções, os americanos fizeram aquilo a que se chama “regime change”, que é mudar o governo de um país para um regime mais conveniente para os seus interesses. Podia ser a substituição de um ditador por outro, ou da democracia por uma ditadura (Chile, Argentina, Brasil).
Um caso muito semelhante ao de Maduro ocorreu em 1989, quando uma força norte-americana, capturou o Presidente do Panamá, Manuel Noriega, o levou para os Estados Unidos e o manteve preso até morrer, em 2017. Qual a semelhança? Os Estados Unidos não pretendem mudar o regime “bolivariano” da Venezuela, desde que satisfaça os seus interesses de controlar as reservas de petróleo do país, as maiores do mundo. Trump pouco se importa se os venezuelanos continuem a viver numa ditadura, com os mesmos no Poder – acabou de reconhecer a autoridade da vice-Presidente de Maduro. O que Trump quer é “dirigir” a Venezuela por interposta pessoa, para garantir o petróleo a preços decididos por ele. E já afirmou que assim vai continuar por tempo indeterminado. Maduro, um impecilho, ficará preso nos Estados Unidos até morrer.
Os norte-americanos usavam sempre desculpas políticas ou ideológicas para as interferências – combater o comunismo era a mais usada – mas agora, com Trump, não é preciso desculpas. Faz o que quer por “direito divino”, digamos assim.
Gronelândia
A Gronelândia é uma massa de gelo com mais de 2.000.000 de quilómetros quadrados (Portugal: 89.000 quilómetros quadrados) situada estrategicamente a meio caminho entre o Canadá e a Federação Russa. É um território autónomo da Dinamarca, com uma população de 57.000 habitantes. Os nativos têm a nacionalidade dinamarquesa e gozam de autonomia, com uma administração própria.
Um tratado entre a Dinamarca e os Estados Unidos, assinado em 1951, permite aos norte americanos construir bases militares ou quaisquer outras instalações. Desde que foi eleito pela segunda vez, Trump ora ameaçou ocupar militarmente a Gronelândia, ora disse que estava disposto a comprá-la. Uma razão são os enormes depósitos de minerais raros. A outra são a posição estratégica da região no duelo entre norte-americanos e russos, tanto para o lançamento de mísseis intercontinentais como para vigiar as incursões de russos e chineses.
Um factor menos conhecido é a corrida espacial entre norte-americanos e chineses. O espaço permite energia ilimitada, uso ilimitado de conecções internéticas. Isto porque satélites que circulam entre os dois polos passam pelo Polo Norte com mais frequência do que pelo Equador. Povoações como Svalbard são ideais para estações de contacto com constelações de satélites, tanto comerciais como militares, tanto servem para a UberEats como para a inteligência militar da Ucrânia, juntamente com cabos submarinos de alta velocidade. É por isso que a costa de Svalbard tem navios de guerra norte-americanos permanentemente estacionados e os cabos submarinos têm sido atacados nos últimos tempos. O espaço tem utilidade científica, mas também assegura domínio estratégico. Quem controlar as maiores altitudes no espaço também controla os campos de batalha. E a primeira guerra no espaço já está a decorrer: a Ucrânia teria menos capacidade ofensiva e defensiva se não usasse os satélites Starllink de Elon Musk. Por isso a China considera a rede Starlink como um objectivo militar e está a construir satélites para a destruir.
Porque é que os Estados Unidos insistem tanto em possuír a Groenlândia, uma vez que o tratado de 1951 lhes permite operar à vontade no país? Porque Trump acha que ser proprietário é muito mais importante do ser arrendatário. O homem que acaba de afirmar que não tem que obedecer a nenhuma autoridade ou tratado, nacional ou internacional, e que o único limite para o seu poder é a sua própria moral; “A única regra que me orienta. Não preciso das leis internacionais” – é verdade, ele disse isto numa entrevista com jornalistas de vários meios – não é um homem que hesite em atacar um aliado, a Dinamarca, se acha que isso lhe traz vantagens. A sua perspectiva é de que é livre para usar qualquer instrumento militar, económico ou político para consolidar a supremacia norte-americana. Para ele, a força do seu país, e não os tratados, convenções e leis internacionais, será o factor decisivo quando os poderes mundiais colidirem.
A Europa finalmente percebeu que não só não pode contar com Trump como aliado, como tem que o considerar um inimigo. Se ele atacar a Dinamarca (invadindo a Gronelândia) a NATO deixa automaticamente de existir. A parte europeia da Aliança terá que defrontar ao mesmo tempo os Estados Unidos e a Rússia. Claro que os Estados Unidos não invadirão a Europa fisicamente, mas Putin ficará à vontade para o fazer. O objectivo, como ele disse na televisão, é criar o Império Euroasiático. Se usar armas atómicas tácticas, poderá fazê-lo em poucos anos.
A linguagem usada por Donald Trump, J.D.Vance e Stephen Himmler, perdão, Miller, é inequívoca: a União Europeia é responsável pelos movimentos de oposição ao Presidente dentro dos Estados Unidos e por ter vivido desde 1945 à custa dos norte-americanos. Também se tem oposto às iniciativas de Trump para acabar com a guerra da Ucrânia. No mundo trilateral de Trump não conta a existência de europeus independentes e, ainda por cima, democráticos. Aliás, J.D.Vance dixit, dentro de 20 anos a Europa terá mais muçulmanos do que cristãos; ele afirmou, sem rebuços, que a Grã Bretanha será “o primeiro país muçulmano com capacidade nuclear”.
ICE
A “US Imigration and Customs Enforcement” é uma polícia política extra-constitucional dirigida por Stephen Himmler, perdão, Miller, para “limpar” os Estados Unidos de imigrantes de outros países, sobretudo (mas não só) do continente americano. Criada em 2003, tem atualmente 20.000 funcionários e um orçamento de oito mil milhões de dólares. Um dos seus três departamentos é o ERO, “Enforcement and Removal Operations” cujos agentes usam máscaras a cobrir o rosto (balaclavas), não têm uniforme mas andam de colete à prova de balas e estão armados. As pessoas presas pelo ICE desaparecem literalmente durante semanas ou meses, até finalmente serem encontradas em campos de concentração ou enviadas para o estrangeiro, não necessariamente para o seu país de origem. Segundo uma estatística (há várias) já “processaram” 650.000 pessoas, abaixo do objectivo de um milhão proposto por Himmler.
Como sabemos, em qualquer país democrático, mesmo que pouco democrático, uma pessoa que é detida tem de ser apresentada a um juiz em 24 ou 48 horas, para que ele decida da legitimidade da detenção e determine se a pessoa deve ser imediatamente libertada, libertada com uma caução, ou mantida num estabelecimento prisional. Tem de ter um advogado de defesa e, caso não o possa pagar, o Estado providencia-lhe um.
O funcionamento do ICE não segue nenhuma destas regras. Além disso, tem detido pessoas que são cidadãos norte-americanos, ou estrangeiros autorizados a permanecer no país. Há casos de cidadãos que estiveram desaparecidos durante semanas. Uma das manobras típicas do ICE consiste em colocar agentes à porta dos tribunais onde as pessoas vão tratar da sua naturalização e detê-las antes de ouvidas pelo juiz.
Além disso o ICE mata. No mais recente caso, ocorrido esta semana em Minneapolis, Renee Nicole Good, uma americana branca desarmada, foi assassinada a tiro dentro do seu carro, o que originou manifestações em todo o país. Embora haja pelo menos três vídeos do encontro de Good com os agentes do ICE, o governo tem insistido na versão de que ela é que tentou atropelar um dos agentes e que é uma perigosa militante anti-governamental. Ou seja, dependendo do juiz que irá decidir sobre o caso, Renne Good pode ficar para a história como uma perigosa terrorista. A probabilidade que o agente do ICE que a matou seja condenado a alguma coisa, é remota.
Não é preciso muita imaginação para comparar o ICE com outras polícias políticas que ficaram para a História. Podemos falar da Gestapo de Hitler, no NKVD da União Soviética, e em centenas de outras forças policiais que no presente actuam em países como a China, a Turquia, a Belarus, e mais tantos países que nem vale a pena pesquisar. A grande diferença entre os países democráticos liberais e os outros é que os serviços de espionagem, não têm o poder de deter ninguém sem uma ordem judicial ou apanhada em flagrante delito.
Escolhemos falar do ICE porque é a demonstração evidente que os Estados Unidos não são uma democracia plena, nem sequer uma democracia parcial. Pelas suas acções noutros países americanos e dentro do próprio país, estão conformes ao Big Brother previsto por Orwell.
O mesmo se poderá dizer das outras entidades previstas pelo escritor, a China e a Rússia.
Estas megapotências totalitárias ainda não chegaram ao seu objectivo final, mas caminham para lá com uma rapidez estonteante, à vista de toda a gente.
Como se costuma dizer, ao vivo, a cores e em tempo real.
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