Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt

A tarde de António José Seguro começou em Alvalade, num edifício moderno de sete andares — o AIHub da Unicorn Factory. No interior, fala-se de algoritmos, inovação e futuro. No exterior, funcionários e empreendedores aguardam a chegada do candidato presidencial.

Quando António José Seguro entra, não passa despercebido. Cumprimenta um a um, aperta mãos e troca palavras rápidas. A certa altura, deixa escapar, em tom meio sério, meio cúmplice: “Eu não gosto que digam que eu não cumprimento”. A visita começa assim, no detalhe humano, como é habitual em época de campanha, antes da tecnologia.

O espaço é um dos símbolos da aposta da Câmara Municipal de Lisboa na economia digital. Ali trabalham startups ligadas à inteligência artificial, com apoio de parceiros como a Google, a MEO, a Portugal AI Innovation Factory e o Center for Responsible AI.

Antes da visita às startups, há uma apresentação. A sala enche-se rapidamente. Fala-se do projeto lançado por Carlos Moedas, dos números de crescimento e da ambição de colocar Portugal no mapa global da inovação. Nos últimos três anos, a Unicorn Factory criou cerca de 18 mil oportunidades de trabalho em Lisboa. O número de startups apoiadas quintuplicou.

Seguro escuta, toma notas e pergunta. No entanto, não intervém muito e prefere observar.

Segue-se a visita aos vários pisos do edifício, onde o candidato se torna muito mais interventivo. Em cada paragem, encontra uma empresa diferente: soluções para fertilidade, programas de análise de dados e projetos de inteligência artificial aplicada à saúde.

Num dos espaços, a conversa prolonga-se. Um trabalhador da Sword Health explica a António José Seguro o que têm feito nos últimos anos. Fala dos tempos de espera no Serviço Nacional de Saúde, da dificuldade em aceder à fisioterapia e da resposta digital que criaram.

Seguro escuta atentamente. Quando ouve falar numa redução de 93% nos tempos de espera, interrompe: “93%?”. A explicação continua: democratizar o acesso, levar tratamento a quem antes ficava na fila. É neste momento que o candidato aproveita para sublinhar uma contradição. A empresa tem milhões de clientes nos Estados Unidos. Em Portugal, praticamente nenhum no SNS.

O trabalhador fala de programas que devolvem aos médicos tempo para olhar nos olhos dos pacientes, libertando-os dos computadores. Fala de sistemas que criam relatórios automaticamente, permitindo que a consulta volte a ser uma conversa. Seguro associa a ideia a uma perda de humanidade na medicina moderna. Lembra a solidão, a necessidade de escuta e o valor de um sorriso.

Depois surge outro exemplo: a startup Halo, que recria vozes perdidas através de inteligência artificial. Quinze segundos de gravação bastam para devolver a fala a doentes com esclerose lateral amiotrófica. Conta-se a história de Pedro, que voltou a telefonar com a sua própria voz. Conta-se também a de um doente que adiou a eutanásia depois de recuperar a capacidade de comunicar com o filho.

António José Seguro reage com prudência. Recorda casos polémicos, alerta para os riscos da manipulação digital e fala da necessidade de limites éticos. Ainda na mesma conversa, fala-se do futuro do trabalho, da automatização, do desemprego tecnológico e da necessidade de antecipar impactos.

O trabalhador defende que a inteligência artificial não substitui pessoas, mas aumenta capacidades. Seguro concorda, mas vai mais longe. Diz que o problema não é a tecnologia, mas a falta de preparação.

“A política tem de andar dez anos à frente”, insiste. “Tem de ouvir quem consegue ver antes”. António José Seguro não gosta da ideia de um Estado que apenas reage. Quer planeamento, visão e estratégia.

No final, corrige uma expressão usada durante a visita. Quando alguém fala do “motor da inovação”, responde: “O motor é o talento da nova geração portuguesa”.

À saída, os jornalistas aguardam. Seguro já parece cansado, mas mantém a disponibilidade, uma vez que o dia ainda está longe de acabar. Sorri, ajeita o casaco e afirma: “Já sei que aquilo que eu disser não vai passar, portanto façam vocês as perguntas”.

As perguntas começam pela polémica do dia: o pedido de André Ventura para adiar as eleições por causa da tempestade. O candidato evita confrontos. Remete para as autoridades e sublinha que o essencial é garantir o direito de voto. Quando lhe perguntam se Ventura lhe ligou, responde com humor: não tem o número dele, e presume que o inverso também seja verdade.

O tom muda quando o tema passa para as cheias e para a resposta do Estado. Aqui, Seguro é mais duro. Fala de falta de preparação, de falhas na coordenação e de respostas lentas. Diz que se sente indignado com situações simples que não são resolvidas. Recorda o que viu no AIHub horas antes: as soluções existem, o problema é não serem usadas.

“Venho para ajudar a mudar isto”, afirma. “Com soluções, mas sobretudo com liderança”.

Da tecnologia à juventude, a comitiva segue para a Universidade Lusófona.

No auditório da Biblioteca Vítor de Sá, o ambiente é diferente: menos formal, com mais barulho e também mais expectativa. Há muitos jovens. Alguns distribuem cachecóis, enquanto outros conversam em pequenos grupos.

A sessão “Jovens em Movimento” decorre sem guião rígido. O objetivo é ser uma conversa informal, com perguntas abertas ao candidato presidencial. Nas cadeiras estão jovens representantes de associações de vários setores.

Seguro senta-se ao centro, acompanhado pelos seus mandatários para a juventude, Rita Saias e Renato Daniel, a quem chama, em tom afetivo, “anjos da guarda”. Ao longo da conversa, o candidato regressa várias vezes à mesma ideia: a geração atual está bloqueada. Explica que, no seu tempo, uma licenciatura abria portas quase automaticamente. Hoje, diz, já não garante nada. Os jovens estudam mais, qualificam-se mais, mas encontram um mercado fechado, precário e instável.

Usa uma imagem que repete ao longo da sessão: é preciso “desbloquear a rua” e transformá-la numa avenida, com mais oportunidades, mais faixas, mais caminhos possíveis. Para isso, defende mais capital de risco, mais apoio a quem quer criar e menos medo de investir. Critica um sistema financeiro excessivamente conservador, que prefere segurança à inovação.

À medida que as perguntas avançam, o discurso vai-se alargando. Quando o tema é a habitação, fala da necessidade de construção pública mais rápida, recorrendo a modelos modulares — mais rápidos e mais baratos. No clima, admite que ainda quer aprender mais para integrar a inteligência artificial na resolução de crises climáticas e garante que já marcou reuniões para aprofundar o tema, independentemente do resultado eleitoral.

Na natalidade, lembra que ter filhos é hoje caro e exigente, e o Estado não acompanha. Na demografia, insiste: pode não dar votos, mas decide o futuro do país. E, quando se fala do interior, recusa vê-lo como um problema. Prefere descrevê-lo como uma oportunidade, um espaço de coesão, de qualidade de vida e de potencial por aproveitar.

Ao longo da sessão, vai recuperando exemplos da visita ao AIHub. Fala da inteligência artificial aplicada à saúde, às emergências e à administração pública. É também aí que desenha o papel que imagina para si como Presidente da República: juntar partidos, criar pontes e forçar entendimentos. “Entendam-se”, diz, mencionando o pacto para a saúde que propõe desde o início da campanha.

No final, deixa um apelo simples: o país precisa de mobilização, não de conflito permanente. Acredita que a divergência faz parte da democracia, mas a desagregação, não.

Quando a sessão termina, já é fim de tarde. Os jovens levantam-se, aproximam-se, pedem fotografias e trocam palavras rápidas.

Entre corredores tecnológicos e auditórios universitários, algoritmos e preocupações sociais, o candidato construiu, ao longo de uma tarde, o retrato da sua campanha: proximidade, aposta no futuro e insistência na antecipação.

O dia resume-se numa tentativa de ligar inovação a humanidade, tecnologia a política e juventude a esperança. Se será suficiente, decidirão os eleitores.

___

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.