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Apesar de ser comemorado mundialmente em 25 de dezembro, o dia exato do nascimento de Jesus permanece um mistério histórico. Os evangelhos de Mateus e Lucas narram o nascimento de Cristo, mas não indicam datas ou estações do ano, deixando espaço para interpretações. Por isso, a escolha de 25 de dezembro como data oficial do Natal tem origem simbólica e cultural.
"A festa do Natal foi instituída por volta do ano 330, dando um sentido novo a uma festa pagã, que lhe era anterior: a festa do solstício de Inverno, criada por Aureliano, em 274. Era uma festa que celebrava antecipadamente a fertilidade dos campos e o nascimento do sol (Natalis Solis Invicti)", começa por explicar ao 24notícias o padre David Palatino, biblista e professor na Universidade Católica Portuguesa (UCP).
"A partir daí os dias vão alargando o seu raio solar e os dias vão aumentando até ao solstício de verão. Simbolizava a vitória do sol sobre as trevas. Os cristãos 'cristianizaram' esta festa, dando-lhe um sentido novo: o nascimento do verdadeiro sol, o 'Sol de justiça' que traz a luz ao mundo, que é Jesus Cristo", acrescenta.
"Também muitas das festas cristãs encontram a sua raiz nas festas judaicas. Sendo Jesus, para os cristãos, o Salvador Universal, a coincidência destas datas é uma feliz coincidência. Não tenho suporte argumentativo sólido, mas poderá ser provável que a novena de Natal encontre inspiração formal na Hannukkah, a festa das Luzes, que tem como objeto principal o candelabro de nove velas que recorda a rededicação do Templo de Jerusalém. Ainda hoje é comum ir acender-se a cada dia uma destas velas, inclusive com participação de membros de outras religiões. Este 'compêndio' transforma o Natal numa festa da paz e reconciliação entre os povos, que 'junta à mesa' os diferentes caminhos e religiões", diz ainda.
E o que diz a Bíblia?
Na Bíblia, "não existem muitos detalhes históricos relativamente ao nascimento de Jesus, mas os que existem permitem-nos definir uma baliza temporal mais ou menos bem definida. Por exemplo, sabemos que Jesus nasceu quando Herodes era rei da Judeia, e que Jesus nasceu em Belém, cidade de David e, por isso, também de José, num momento em que 'saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria'. Esta conjuntura histórica e um erro de cálculo da datação do nascimento de Jesus faz com que hoje se considere que o nascimento de Jesus ocorreu entre o ano 6 e 4 a.C.", aponta o biblista.
Por outro lado, "também existe uma tradição, ainda que um pouco débil, que reconhecia o anúncio do nascimento de Zacarias no equinócio de outono. Ora, se sabemos que João Batista tem seis meses de diferença face a Jesus, a anunciação do Senhor começou a celebrar-se no equinócio da primavera (mais concretamente no dia 25 de março), e assim o Natal seria celebrado nove meses após esta festa".
De recordar também que os relatos do nascimento de Jesus, nos Evangelhos, surgem com detalhes diferentes. "As diferenças têm a ver sobretudo com particularidades teológicas que estão ao serviço da transmissão de um conteúdo preciso para uma comunidade específica. Mas, no essencial, o relato dos evangelhos de Mateus e Lucas, os únicos que apresentam o evangelho da infância, coincide: por exemplo, muitas das personagens, a cidade de Belém como lugar de nascimento, a ligação de Jesus a Nazaré (mesmo que sejam em situações distintas), etc".
Já os Evangelhos Apócrifos — excluídos da Bíblia — "não trazem nada de novo no que diz respeito a esta matéria, a não ser o Proto-Evangelho de Tiago, que 'monta' o cenário do nascimento de uma forma diversa da de Lucas e Mateus, explorando sobretudo a dimensão extraordinária e miraculosa do evento".
"Aliás, a literatura apócrifa define-se sobretudo pelo embelezamento e acrescento romanceado de alguns elementos, nomeadamente ao nível daqueles aspetos deixados em suspenso pelos evangelhos canónicos. Ao nível temático, privilegia-se a pré-história de Jesus (vida de Maria e seus pais) e alguns elementos fantasiados, porque exacerbadamente extraordinários, da infância de Jesus não relatada nos evangelhos", evidencia.
No entanto, não é inexistência de uma data exata escrita que tira o simbolismo à celebração. "O Natal celebrava-se no dia 25 de dezembro para os ocidentais e no dia 6 de janeiro para os orientais. Isso demonstra que para nós o importante não é a data, mas o acontecimento. Por exemplo, nós sabemos a data precisa da morte e ressurreição de Jesus, mas celebramos a Páscoa noutra data. O que conta é o mistério que lhe dá forma. Portanto, não nos interessa o dia em que Jesus nasceu, mas a celebração do seu nascimento, do mistério da Incarnação. E isso em nada muda a convicção de fé dos crentes", remata o padre David Palatino.
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