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Nos últimos meses, sobretudo no Reino Unido e noutros mercados europeus, começaram a ganhar popularidade bebidas rotuladas como “sem álcool” que prometem relaxamento, desinibição social e sensações comparáveis a uma ligeira embriaguez — tudo isto sem etanol e sem ressaca, escreve o El País.
O exemplo que mais polémica gerou foi o da chamada “cerveja GABA”. Um dos casos mais comentados é o da GABYR, uma cerveja sem álcool desenvolvida pela GABA Labs e associada ao neuropsicofarmacólogo David Nutt, conhecido pela sua abordagem crítica ao consumo de álcool. O projeto integra a gama de bebidas funcionais da Sentia Spirits, comercializadas como alternativas ao álcool.
A GABYR apresenta-se como uma pale ale com 0,0 % de álcool, vendida em latas de 440 mililitros. O preço é significativamente mais elevado do que o de uma cerveja sem álcool convencional: entre 18 e 22 libras por um pack de seis latas. A promessa é clara: apesar de não conter etanol, produziria um “zumbido social ligeiro”. Curiosamente, os próprios fabricantes recomendam que não se conduza após o consumo, apesar de não existir álcool detectável no sangue — um aviso que indica que não se trata apenas de um refrigerante inofensivo.
No organismo, o sistema GABA refere-se ao papel do Ácido Gama-Aminobutírico (GABA), o principal neurotransmissor inibitório do cérebro, que atua como um "freio" natural, reduzindo a atividade neuronal para promover relaxamento, diminuir a ansiedade, melhorar o sono e controlar a tensão, essencial para o equilíbrio do sistema nervoso central e para modular outros neurotransmissores como dopamina e serotonina.
Por isso, nestas cervejas, tal como o álcool provoca relaxamento e desinibição porque atua sobre o sistema GABA, também pode haver uma alteração desse mesmo sistema sem os efeitos tóxicos do etanol.
Apesar da plausibilidade teórica, a ciência é clara num ponto: não existem, até ao momento, ensaios clínicos publicados e revistos por pares que demonstrem que uma cerveja sem álcool possa provocar uma embriaguez comparável à do álcool.
Do ponto de vista científico, qualquer substância que altere o funcionamento do sistema nervoso central é considerada uma droga. Assim, uma bebida sem álcool que modifique o estado mental é uma substância psicoativa e, como tal, implica riscos.
O maior perigo destas bebidas não é “embriagar sem álcool”, mas sim a falsa sensação de segurança. Tal como acontece na combinação de álcool com bebidas energéticas, pode existir uma discrepância entre a percepção subjetiva e o real défice cognitivo. Sem etanol no organismo, muitas pessoas podem assumir que estão aptas para conduzir ou tomar decisões complexas, quando a atenção ou o tempo de reação podem estar comprometidos.
A tudo isto acrescem lacunas importantes: desconhecem-se os efeitos a longo prazo, as interacções com medicamentos e a variabilidade de efeitos entre indivíduos.
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