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A explicação está no ciclo anual dos chifres da rena, uma espécie singular no mundo dos cervídeos.
Ao contrário do que acontece com veados, corços ou alces, as renas são a única espécie de cervídeo em que machos e fêmeas desenvolvem chifres. Este facto está bem documentado na literatura científica, nomeadamente no artigo Antler development in reindeer in relation to age and sex, de Bernt Høymork e Eigil Reimers, publicado na revista científica Rangifer.
No entanto, apesar de ambos os sexos terem chifres, o momento em que os perdem ao longo do ano é diferente, e é aí que entra a chave para o mistério natalício.
Os machos de rena utilizam os chifres sobretudo durante a época de acasalamento, no outono, para competir entre si. Depois desse período, os níveis hormonais alteram-se e os chifres deixam de ser necessários.
De acordo com vários estudos, incluindo trabalhos citados no Journal of Mammalogy, a maioria dos machos perde os chifres entre novembro e início de dezembro, antes do Natal.
Já as fêmeas seguem um calendário diferente. Um estudo publicado na General and Comparative Endocrinology, disponível na base de dados PubMed, mostra que as fêmeas mantêm os chifres durante todo o inverno, só os perdendo na primavera, normalmente após o nascimento das crias. Este processo está associado a hormonas como o estrogénio e à necessidade de competir por alimento em condições adversas.
Uma questão de sobrevivência
Manter os chifres no inverno não é um detalhe estético. Segundo o estudo "Role of oestradiol in the regulation of the seasonal antler cycle in female reindeer", as fêmeas usam os chifres para afastar outros animais das zonas de alimentação, um comportamento crucial numa fase em que estão grávidas e a comida é escassa.
Esta vantagem competitiva ajuda a explicar por que motivo a seleção natural manteve os chifres nas fêmeas durante o inverno — algo raro entre os cervídeos.
E no Natal?
O Natal acontece a 25 de dezembro, numa altura em que, biologicamente, a maioria dos machos já não tem chifres, enquanto as fêmeas ainda os exibem plenamente. Assim, quando as ilustrações, filmes ou anúncios mostram renas com chifres a puxar o trenó do Pai Natal, a ciência aponta numa direção clara.
Como resumem vários artigos científicos, as renas do Pai Natal são, muito provavelmente, fêmeas (ou, em alternativa, machos castrados, que também podem reter chifres por mais tempo).
E há ainda um último pormenor que a ciência obriga a questionar. As renas mais famosas do mundo chamam-se, segundo a tradição anglo-saxónica, Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donner e Blitzen, nomes popularizados no poema de Clement Clarke Moore "A Visit from St. Nicholas", de 1823. O problema é que todos estes são nomes masculinos. Se, como indica a biologia, as renas que voam na noite de Natal mantêm os chifres porque são fêmeas, então talvez Dasher e companhia tenham sido mal batizadas durante dois séculos. À luz da ciência, o trenó do Pai Natal não é puxado por um grupo de “bons rapazes”, mas sim por um esquadrão de renas fêmeas grávidas, resistentes ao frio e biologicamente impecáveis. O que, convenhamos, torna a viagem ainda mais impressionante.
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