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Nesta semana do encontro no Alasca entre Trump e Putin, a Europa está em frenesi diplomático para tentar que o presidente dos EUA seja um mediador e não, como se antecipa, um notário favorável aos desejos do presidente russo. A Europa acompanha a Ucrânia de Zelensky na exigência de que o cessar-fogo preceda qualquer negociação sobre as cedências territoriais que Trump facilita como se estivesse a negociar a compra de um casino em Atlantic City.

Putin desembarca no Alasca como ganhador: Trump rompe o isolamento ocidental a que o chefe do Kremlin estava submetido, dá-lhe crédito e, desprezando as sanções, abre-se à negociação entre os dois de uma espécie de nova ordem mundial. 

Os líderes europeus manobram para que a cimeira no Alasca não seja uma espécie de nova Yalta, a conferência em que, a seguir à II Grande Guerra, os líderes dos EUA e da União Soviética de então repartiram entre si a tutela sobre os países europeus, com Moscovo a controlar todo o Leste no Pacto de Varsóvia e Washington a abrigar a Europa ocidental na NATO.

Para a Europa é essencial que o conceito de Ocidente possa sobreviver a esta negociação e que o presidente dos EUA compreenda o dever de proteger o direito da Ucrânia a preservar a soberania e a liberdade de escolher. Mas a realidade destes últimos sete meses mostra que a Europa está órfã da antiga solidariedade americana.

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As palavras que identificam os países, Estados Unidos e Rússia, quase nem aparecem no enquadramento da cimeira no Alasca. As duas nações aparecem submetidas aos seus chefes. O que se prepara para a próxima sexta-feira é a reunião de dois presidentes ultranacionalistas, Trump e Putin ou Putin e Trump, que se tomam reciprocamente por plenipotenciários sobre o planeta no que conjeturam como nova ordem mundial pós-democrática, em que a União Europeia é hostilizada. 

Trump, sempre a ver-se ator protagonista, pretende na cimeira no Alasca mais um momento de espetáculo para os ecrãs. Putin entra na cimeira com um guião que pretende consagrar o triunfo do abuso que desencadeou ao invadir a Ucrânia: quer que o congelamento do conflito que está em fase de guerra decorra do reconhecimento da soberania russa sobre a Crimeia (invadida em 2014, perante, então, muita passividade ocidental) e sobre as regiões de Donetsk e Lugansk, no Donbass. Ou seja, Putin quer que seja assinada a conquista ilegal de território que agrediu e invadiu com a ambição de realizar o sonho de “Grande Rússia”. Conta com a cumplicidade de Trump que despreza a procura diplomática de um ponto de equilíbrio entre as partes em confronto e apenas quer aparecer na imagem como o imperador omnipotente que consegue a paragem da guerra. Já se percebeu que para Trump pouco importa que a trégua seja conseguida através do prémio ao agressor.

Nenhum dos dois, juntos na ambição que faz deles cúmplices, se pode dar ao luxo de que do aperto de mão entre eles no Alasca saia algo que possa ser comentado como fracasso de algum deles. 

Trump e Putin vão discutir o futuro do conflito com a Ucrania quando passam 1.270 dias, e algumas centenas de milhar de mortos, desde aquele 23 de fevereiro de 2023 quando colunas militares russas avançaram sobre Kiev no que então Putin chamou de operação militar especial que planeava concluir em poucos dias, até à capitulação que ele esperava do regime de Zelensky.

A escolha por Trump do lugar onde se realiza a cimeira tem peso simbólico: o Alasca, terra dos inuits e dos aleútes (os europeus reduziram-nos a esquimós) foi colonizado pelos russos a partir de 1784, que se estabeleceram ali com a instalação de igrejas ortodoxas e entrepostos para o comércio de peles; quase um século depois, o czar Alexandre II achou que aquela terra remota e o negócio não tinha interesse e, em 1867, aceitou a oferta americana e vendeu-lhes o Alasca por modestos 7 milhões de dólares;  o que começou por ser julgado um capricho do presidente democrata Andrew Johnson, sucessor do assassinado Abraham Lincoln, veio a ser grande negócio para os americanos que passaram a ter no Alasca grandes recursos de pesca e as reservas de combustíveis fósseis que dão importância crucial à região, com enorme valor estratégico, que a coloca no centro das rotas de exploração do Pólo Norte. A marcação para o Alasca da cimeira sobre o futuro da Ucrânia tem uma mensagem implícita: a soberania dos territórios negoceia-se, o território pode passar de um país para outro.

O antigo primeiro-ministro e presidente Dmitry Medvedev, agora vice-secretário do Conselho de Segurança da Rússia, apressou-se a criticar a declaração conjunta europeia de intransigente apoio à "integridade territorial da Ucrânia".  No habitual estilo com ruim agressividade, Medvedev tratou os europeus como "imbecis " por "tentarem impedir as tentativas dos Estados Unidos de ajudar a resolver o conflito ucraniano" quando o regime ucraniano “está nos seus últimos estertores”.

O poder do Kremlin aposta num acordo entre Trump e Putin que coloque a Europa e a Ucrânia como espetadores perante um facto consumado. Trump mostra alinhar com este interesse.

Esta cimeira em que Trump e Putin, mais do que discutirem a guerra e a paz, vão tratar os interesses económicos e geopolíticos de ocasião de um e do outro, envolve o grande risco de deixar a Europa exposta à debilidade para que se tem deixado cair – como também é evidente na irrelevância na intervenção para parar o martírio em Gaza e salvar e libertar os reféns.