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Em Junho de 2024, dois anos depois de ter iniciado e invasão da Ucrânia (em Fevereiro de 2022), Putin apresentou as suas condições para uma “paz duradoura: manter o território ocupado, ficar com os oblasts (províncias) que quer mas não conseguiu conquistar, proibição da Ucrânia entrar para a NATO e levantamento das sanções internacionais contra a Federação Russa. Em duas palavras, rendição total.
A proposta do Kremlin só podia ser considerada como o ponto de partida para uma negociação, uma vez que as outras partes envolvidas — Ucrânia, Estados Unidos, União Europeia e NATO — não a podiam aceitar. Afinal de contas, ao fim de dois anos, os russos tinham conseguido apenas uma parte dos oblasts em questão, calcula-se que perderem um milhão de homens (em toda a sua História, o Império Russo sempre usou uma estratégia de grande consumo de recursos humanos) e os ucranianos estavam a atacar cada vez mais alvos dentro do território inimigo. Quer dizer, não estavam a ganhar, mas também não perdiam. O conflito europeu mais selvagem desde a II Guerra Mundial estava estagnado como na I Grande Guerra, numa guerra de trincheiras em que se desenvolveu a arma mais recente, o drone. Desenvolvimento esse em que os russos mal conseguiam acompanhar o aumento de produção e de qualidade dos ucranianos. Só a artilharia convencional e os rockets funcionavam; tanques e aviação, as armas decisivas de guerras passadas, mostravam-se cada vez mais inúteis. Além de tudo isso, os russos recorriam agora a “voluntários” norte-coreanos, cubanos e de outras procedências, para compensar as baixas nas suas unidades. (Os ucranianos também têm “Brigadas Internacionais” de voluntários pagos, mas em menor quantidade.)
Neste empate técnico a única variável imprevisível era, e continua a ser, o nível de ajuda dos norte-americanos, uma vez que Trump muda de opinião de um dia para o outro. As suas simpatias estavam ora com os russos, ora contra eles, mas não podia ignorar o quadro estratégico mais vasto de uma guerra generalizada no Continente Europeu. Como, então, ajudar os seus amigos russos, sem lhes dar o que eles queriam?
A resposta norte-americana veio a 20 deste mês, com uma proposta de 28 pontos apresentada pelo Secretário de Estado Marco Rubio na Holanda. Segundo o jornal inglês “The Telegraph”, Trump também enviou o delegado especial Steve Witkoff (um defensor aberto das propostas russas) e o seu genro Jared Kushner para apresentar o plano diretamente a Putin, em Moscovo.
Entre outros pontos, o documento reconhece a Crimeia, Luhansk e Donestk como províncias russas de facto. As linhas da frente de Kherson e Zaporiizhia ficam paradas onde estão. A Rússia abandona os territórios ucranianos que detém noutras áreas do país. As forças ucranianas retiram-se do oblast de Donetsk que controlam no momento, e que passa a ser uma zona tampão desmilitarizada neutra. Faz parte da Federação Russa, mas as tropas russas não a ocuparão.
Andriy Yermak, chefe de gabinete de Zelensky, e Rustem Umerov, conselheiro pessoal de segurança, deveriam ir à Flórida para falar com oficiais norte-americanos em Mar-a-Lago.
Nem a Ucrânia nem a Europa tinham sido informadas anteriormente deste plano. O conteúdo dos 28 pontos caiu como uma bomba na Europa, primeiro porque ninguém estava à espera dele, segundo porque o conteúdo era alarmante; a Rússia não pagaria nada pela agressão; receberia mais território do que tinha conquistado, e proibia a adesão de Kiev à NATO. Em resumo, era o que Putin tinha proposto em 2022. Além disso, excluía completamente a participação europeia nas negociações.
O que está em cima da mesa é a imagem duma Europa esmagada entre dois grandes rivais, EUA e Federação Russa, sem uma palavra a dizer sobre territórios que historicamente sempre foram europeus. Nos dias que se seguiram, os líderes europeus reuniram-se para tentar levar Trump para uma posição mais razoável. Alguns altos funcionários foram à cimeira dos G20 em Joanesburgo e outros apareceram em Genebra para falar com Marco Rubio.
Este esforço multilateral dos países e instituições europeus conseguiu que os piores excessos dos 28 pontos ficassem em suspenso. Não eliminados, porque a Rússia não contra-propôs, mas a pairar no ar. Por outro lado, Zelensky ficou entre a espada e a parede: perder a dignidade (ao aceitar um acordo inaceitável) ou perder o seu “aliado” mais forte. (Nesta altura é difícil de dizer quem é aliado do quem, mas em teoria e em declarações alternadas com o contrário, Trump disse que era a favor de uma Ucrânia independente.
A proposta, que foi publicada pela primeira vez pela “Axios” e pelo "The New York Times”, implicava que a NATO não pode enviar tropas para a Ucrânia pós-acordo e o descongelamento de milhares de milhões de fundos russos retidos na Bélgica (que se esperava que fossem entregues à Ucrânia).
Na sexta, dia 21, os dirigentes europeus já tinham confirmado com os ucranianos que o plano era para levar a sério, não um ponto de partida para negociações, mas antes uma vontade final do governo Trump. O general Daniel Driscol, Secretário de Estado do Exército americano, afirmou claramente que os europeus e a Ucrânia tinham sido marginalizados de propósito.
Reunidos em Joanesburgo, os europeus (António Costa, Úrsula von der Leyen, e daí para baixo) decidiram que a melhor posição era tecer loas a Trump em vez de o antagonizar. Emitiram um comunicado que começava por :”Agradecemos ao presidente Trump a sua vontade de fazer a paz na Ucrânia” e depois sugeria, brandamente, que as fronteiras da Europa não podem ser mudadas, a dimensão das forças armadas ucranianas só pode ser decidida pela Ucrânia e a participação na NATO só pode ser decidia pela NATO.
No Domingo passado, os europeus reuniram-se com Marco Rubio, convencendo-o a considerar as 28 propostas como um “documento de trabalho". Depois de muitas conversas entre uns e outros, para a frente e para trás, Rubio declarou que o documento das propostas “é um ser vivo e a Europa com certeza irá colaborar na sua conclusão.” Ou seja, já não era a proposta definitiva de dias atrás, mas uma proposta construtiva.
Na segunda-feira, o Ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Johann Wadephul, considerou que a mudança de tom e alguma substância de Marco Rubio eram uma vitória europeia. Nos dias seguintes, até hoje, os líderes europeus conversaram bastante, uma vez que nada estava realmente decidido, sobretudo porque a Federação Russa tinha mostrado alguma oposição ao plano.
Resumindo bem a situação, o primeiro-ministro da Polónia, Donald Tusk, disse que “não há motivos para nenhum tipo de optimismo. O assunto é delicado porque ninguém quer desencorajar os americanos e o presidente Trump, para garantir que os Estados Unidos estão do nosso lado".
Claro que isto são as perambulações diplomáticas duma Europa completamente indefesa e numa inferioridade triste de se ver. Pode ser que Trump, um sociopata sem carácter, amanhã acorde bem-disposto e dê uma esmolinha aos pobres, pode ser o contrário.
Os países europeus, que toda a vida combateram entre eles e competiram pelos despojos do resto do mundo, são agora obrigados a juntar-se para fazer coro a pedir esmola e simpatia.
Não há outra maneira de ver a História.
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