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Era final de março de 1944 quando Tatiana Bucci, com apenas seis anos, a sua irmã Andra, dois anos mais nova, e parte da família foram levadas por serem judias ou de origem mista e deportadas primeiro para Risiera di San Sabba, um campo de trânsito na Itália, depois para o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau.
"A nossa história começa em 1910, quando a minha mãe, que tinha apenas dois anos, e a sua família tiveram de fugir da Ucrânia, onde nasceram. Depois de uma viagem longa e cansativa, numa espécie de carroça puxada por cavalos, que lhes permitiu atravessar toda a Europa de Leste, chegaram a Fiume, uma cidade italiana que hoje pertence à Croácia", conta Tatiana Bucci.
E faz um parêntesis: "Quando começou a guerra na Ucrânia, pela primeira vez senti-me ucraniana [emociona-se]. Antes, nos meus testemunhos, dizia sempre que a minha mãe nasceu na Ucrânia. Ponto. Mas quando começou a guerra consegui ver a minha mãe, só com dois anos, e isso persegue-me até agora — já lá vão quase quatro anos de guerra".
A família foi bem acolhida em Fiume. Quando chega a Primeira Guerra Mundial, o avô parte para a guerra e já não volta. A mãe torna-se adulta e conhece o marido, um católico. "Formam um casal misto, casam apenas pelo civil — em 1935 ainda era possível fazer um casamento religioso, mas naquela altura já não", explica.
O pai trabalhava na marinha mercante e quando chega a Segunda Guerra Mundial é preso pelos ingleses em águas territoriais sul-africanas. Apesar disso, a vida continua com alguma tranquilidade.
"Até que num dia do fim de março de 1944, as crianças já estavam deitadas, se gera uma confusão. A primeira coisa que recordo dessa, quando entramos na sala de estar, é ver a minha avó ajoelhada em frente daquele que devia ser o chefe do grupo a suplicar-lhe para nos deixar, às crianças, para trás, em casa. Vivíamos ali eu, a minha irmã e um primo, Sérgio". Não deixaram. Não se recorda de quantas pessoas estavam na estação central de Trieste, onde havia "um comboio um pouco especial". Talvez 60 adultos.
"O comboio pára, os portões abrem-se e começámos a descer. Tínhamos chegado ao famoso campo Auswichtz-Birkenau. Somos separados, a minha avó é mandada para um camião e é levada diretamente para as câmaras de gás. Nós conseguimos passar a primeira seleção, em que crianças, velhos e doentes iam diretamente para as câmaras de gás. Por sorte, eu e a minha irmã fomos tomadas por gémeas e acharam que poderíamos ser úteis para as suas experiências", explica Tatiana Bucci.
Não se recorda da fome, mas lembra-se muito bem do frio. E há imagens que não desaparecem, como a das mulheres nuas, a tentarem esconder os corpos com os braços, ou a última "sala" para onde foram mandadas, "o local onde somos tatuados como gado. Era o que queriam, fazer-nos perder a dignidade. A minha mãe foi a primeira a ser tatuada, depois a minha irmã, depois eu. O número da minha mãe era o 76.482. Quando éramos chamados, devíamos apresentar-nos com o número tatuado no braço, não pelo nome".
"Habituei-me rapidamente àquela vida", diz Tatiana Bucci. "Diziam-nos que era a vida dos hebreus. Uma vida que não era vida, era morte". Foi assim durante dez meses, até que o fim da guerra chegou e foi libertada, ela e a irmã. Dali foram para a Checoslováquia, onde havia "um grande instituto para crianças sobreviventes". Depois, cerca de um ano em Praga. E no final Inglaterra, "um chalé fantástico — a primeira coisa que vi foi uma sala de jogos. E percebi, de repente, que podia largar a minha irmã (antes andávamos sempre juntas, queria protegê-la. Pude retomar a minha infância".
Tatiana e Andra pensaram que os pais estavam mortos. Não estavam e em breve reunir-se-iam. "Não queríamos acreditar". A burocracia para juntar a família arrastou-se por outubro e novembro e a 5 de dezembro de 1946, data de aniversário do casamento dos pais, chegam finalmente a casa, Itália. "Não me apercebi logo, só quando comecei a fazer a viagem da memória, mas saíram de Itália 200 crianças. Não regressou nenhuma. Podem imaginar a impressão que me fez saber isto". Hoje, Tatiana Bucci só quer que deixem as crianças ser crianças. Que não as façam sofrer, que não as deixem sofrer.
Tatiana fez as pazes com o passado. E é com essa a mensagem que termina o seu testemunho: "Pesadas as coisas, a vida é bela!"
"O que aconteceu não pode repetir-se"
"O que aconteceu não pode repetir-se. O Holocausto foi o capítulo mais negro da história da humanidade: seis milhões homens, mulheres e crianças foram mortos pelo regime nazi de forma deliberada e organizada, numa tentativa de eliminar um povo inteiro. Ao seu lado, a comunidade cigana e pessoas com deficiência, minorias, opositores políticos foram também assassinados por essa máquina de ódio", diz a presidente do Parlamento Europeu.
Neste Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, Roberta Metsola lembra que o que aconteceu "não aconteceu de um dia para o outro, mas sim pouco a pouco, lei após lei, comboio a comboio. Os direitos foram sendo revogados, as minorias foram silenciadas, o mal foi-se estendendo. Entre as vítimas, 1,5 milhões de crianças judias foram mortas, afastadas das suas famílias, sem saberem porquê".
"Acreditávamos que este era um tipo de ódio que pertencia ao passado, mas, na verdade, o anti-semitismo nunca foi extinto; sobreviveu, adaptou-se e hoje está presente no nosso continente e não só, as mentiras e conspirações são amplificadas pelas redes sociais e viajam em segundos. E continuamos a assistir a tragédias como a que aconteceu na praia de Bondi, na Austrália [ataque terrorista que há um mês matou 16 judeus e feriu mais de 40]", continua.
"A Europa tem de garantir que está protegida. Compete-nos a nós confrontar o ódio onde quer que aconteça antes que volte a ganhar raízes. É por isso que o Parlamento Europeu irá sempre lembrar [o Holocausto] e irá sempre tomar uma posição. Nunca mais quer dizer mesmo nunca e tem de guiar as escolhas que fazemos a cada momento e a Europa que escolhemos construir em conjunto", sublinha.
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