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Há na mesinha de cabeceira do meu pai, sob a luz nodosa dum Cristo, um livro de António Lobo Antunes. Isto há vinte e tal anos e ainda hoje estou para saber como diabo a gente diz exortação. Julgo que o meu pai, também ainda hoje, não sabe que, desde esse lugar da mesinha onde a cabeça doente da insónia repousa, quis ser escritor. É que há imagens que nos exortam a sermos outras coisas para lá de meninos. E nós, todavia, a demorarmos na infância, a olharmos o Cristo, próximos de Deus, convictos de que, como Ele dizia, todavia é um pássaro.
A primeira vez que dei de caras com o bicho foi por intermédio da minha mãe, numa dessas feiras onde Ele se recusava com a sua arrogância doce: Para o João Francisco (não há mais quem me chame assim). Ainda sou muito pequeno e tenho-lhe medo. Durante muito tempo, fui muito pequeno. Depois, continuei a sê-lo, ainda menor: li, li-O tanto, até me tornar infindavelmente pequeno, do tamanho minúsculo das coisas mínimas, sem vontade de ser escritor porque escritor era Ele. Preferiria ver-me morto ao invés de tê-Lo conhecido; porque, depois, conhecemos o inferno e Deus toma conta dele.
Lembro-me, através das persianas da noite, quando um rapaz, anos mais tarde, se atravessou na minha frente: disse-Lhe que era médico, que queria ser escritor, e Ele, António, e ele, Francisco, a trocarem beijos, palavras de carinho, fotografias de olhó o passarinho. A nossa distância é enorme, dá vontade de morrer. E, de novo, beijos e palavras de carinho. E eu a olhar para eles e eu que tirasse o sacana do retrato quando eu. Nesse dia, chorei. E Ele não sabe que, nesse dia, eu lágrimas como só as lágrimas, e ninguém, agora, lhe dirá mais nada. Ou nada, ou mais vale morrer; e o que vale é que todavia é um pássaro, e, todavia, Ele.
No conto O Crocodilo, de Dostoievski, Ivan é engolido por um réptil desse nome, passando a habitar dentro do corpo do animal. Também eu habito esse lugar sujo e desconfortável, prosseguindo tão-só com a minha vida, emparedado pelas vísceras dum demónio que se fez escritor porque acima Dele não Deus, mas, sim, a sua voz encantatória, sedutora, boca grande de bicho donde não posso ser regurgitado; donde, todavia, ainda tenho medo. O que vale é que todavia é um pássaro e amanhã, todavia, ainda Ele viverá – bicho, monstro, inferno de Deus conhecido meu.
Te Deum. Eu, assim, te exorto, de dentro da tua barriga, António Lobo Antunes, crocodilo meu.
Francisco Mota Saraiva
05-III-2026
(neste dia, morreu António Lobo Antunes, meu querido escritor, maior entre os maiores)
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